Bandido bom é bandido morto?

Ontem (terça-feira), por volta de 01 da manhã na Avenida Rio Branco (uma das mais movimentadas de Juiz de Fora) um amigo foi assaltado por 2 homens que diziam estar armados. Felizmente ele perdeu só o celular e não se machucou. Gostaria de falar o que penso dessa história contando outra história.


Digamos que há 27 anos nasceu João. João é uma criança negra que vive em uma comunidade qualquer e desde que se conhece por gente vê os pais passarem sufoco pra colocar comida na mesa. Ainda criança, João começou a estudar na escola do bairro, porém teve que começar a trabalhar desde pequeno para ajudar em casa. Quando estava no sexto ano do ensino fundamental, João largou a escola pra agora apenas trabalhar. Aos finais de semana, João saía com seus amigos para o shopping da cidade e via pessoas felizes com seus carros chiques, celulares bonitos e comendo em restaurantes fast food. Sem ter dinheiro pra ter aquela felicidade, João pedia dinheiro às pessoas mas sempre chegavam seguranças para tirarem ele de lá.

Certo dia João percebeu que o dinheiro que ganhava em seu trabalho nunca permitiria que ele comprasse aquela felicidade do shopping. Sem ter ninguém para dizer ao contrário, começou a praticar pequenos furtos e foi preso aos 17 anos. Na fundação para menores infratores, João fez alguns amigos. Um deles já tinha matado um homem que resistiu ao assalto, outro estuprou uma menina que saía da escola e um terceiro ajudava no tráfico de drogas de sua rua. Depois de sair daquele lugar, João percebeu que podia muito mais. Comprou uma arma raspada, chamou um daqueles amigos e começaram a praticar assaltos cada vez maiores. João apanhou muito, bateu muito. Tomou facada, deu tiro. Foi preso de novo.

Dessa vez a cadeia era pior. Dividiu uma cela com o dobro de pessoas que aquele lugar comportaria, viu como aquele sistema funcionava, aprendeu quem eram os reis e os carrascos. Mas João agora não era mais um menino, aqueles homens não assustavam mais. João novamente saiu da prisão e, ontem, na madrugada andando com seu amigo pela Avenida Rio Branco, conseguiu um celular novo.


Por que contei essa história? Não quis dizer que o negro da comunidade seja ladrão ou que eu acredite que o assaltante de ontem e todos outros que estão por aí não devam enfrentar a justiça. Quis mostrar que esse problema é muito mais complexo do que a solução simplista de “bandido bom é bandido morto”.

Mais de metade dos presidiários brasileiros são negros entre 18 a 29 anos.
Mulheres recebem salários menores que homens
Negros recebem salários menores que brancos
89% das vítimas de violência sexual são do sexo feminino
Crise carcerária no Brasil
Corrupção brasileira
Greve da Polícia Militar no Espírito Santo
Greve dos Professores nas Universidades

Todos esses efeitos são exemplos de como o problema não é simples. Exemplos de como a falta de oportunidade, falta de uma educação de qualidade, concentração de renda e o preconceito enraizado em nossa cultura geraram problemas crônicos no Brasil.

"We must take sides. Neutrality helps the oppressor, never the victim. Silence encourages the tormentor, never the tormented" Elie Wiesel

De quem é a culpa não sei, mas sei quem pode mudar isso. Você e eu. Mais do que exigir que os políticos façam grandes mudanças, comece a fazer pequenas dentro de você. Condene pequenas corrupções, pare de falar e praticar atos racistas, homofóbicos ou sexistas, empodere o povo.

Não serei hipócrita dizendo que nunca fiz ou faço coisas assim, mas posso te dizer que há algum tempo já venho tentando mudar essa herança cultural dentro de mim, o que vai acontecer aos poucos.