Resisti muito a chamar o Impeachment de Dilma de Golpe. Está previsto na Constituição, o rito foi seguido como está escrito na lei, mas é Golpe sim. É confuso. Digamos que, se não é golpe no sentido estrito da palavra, é golpe pelo sentimento que desperta em muita gente. É Legal, mas não é Legítimo.

Um Impeachment pressupõe crime (e dolo) justamente para que haja consenso. No caso de Dilma é tudo farsesco e duvidoso, desde o crime até os juízes. Sem dúvidas que há muita gente que quer Dilma e o PT fora a qualquer custo. Mas e os que não querem? Dilma não é a única responsável pela crise, mas será a única a pagar? Já o que o governo da presidente é tão ruim, não deveria seu vice-presidente também ser responsabilizado? O resultado é que a divisão vai permanecer em nossa sociedade.

Desde 2013, a população grita que os políticos não representam seus interesses. Somos reféns do atual Legislativo: a maioria ali só se elege por conta de problemas na lei eleitoral e ali permanece, apesar dos seus muito malfeitos, porque a justiça para eles vêm nos passos de uma tartaruga. São deputados e senadores eleitos pela força do dinheiro e não das suas ideias. O Impeachment de Dilma abre caminho para que o Congresso mais retrógrado e reacionário da história do Brasil coloque suas pautas em jogo.

Aos que insistem que tudo corre na maior tranquilidade, com as instituições democráticas funcionando, temos que lembrar que as grandes mudanças políticas no Brasil não ocorrem como nos manuais. Primeiro, o Brasil gritou Independência para ser governado pelo filho do Rei; Depois, saiu da Monarquia para uma República exclusiva para os cafeicultores; essa república só se tornou menos excludente quando, paradoxalmente, Vargas, um ditador, chegou ao poder; e em 64 o Congresso e a sociedade civil abriram caminho para a Ditadura, para afastar a “ameaça vermelha”.

Nessa história, há sempre uma casta que não perde seu lugar. Os verdadeiros donos do poder no Brasil nunca saem de cena. Agora eles descobriram mais uma forma de se perpetuar: qualquer maioria orquestrada no Legislativo pode depor o presidente eleito e colocar um Vice em seu lugar. Não há quem julgue o mérito das acusações, a não ser os próprios congressistas.

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/30/politica/1459351219_256362.html

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/18/opinion/1458337238_631032.html

http://oglobo.globo.com/opiniao/ha-golpe-19604559

http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=3080

http://odia.ig.com.br/noticia/brasil/2014-04-02/uma-farsa-que-legalizou-o-golpe.html