Fugi da entrevista de emprego. E me orgulho disso.

Trabalho há um ano e meio na área de marketing de uma startup, onde estou satisfeito com meus desafios, remuneração, ambiente corporativo, equilíbrio entre carreira e vida pessoal etc… Mas, no último 16 de fevereiro, recebi a seguinte mensagem no Linkedin de uma profissional de RH:

“Olá, gostaria de conversar sobre uma oportunidade na área de marketing para o Banco XPTO em São Paulo. Você teria algum número de contato para que eu possa melhor detalhar o assunto?”

Sem demagogia, fiquei curioso, orgulhoso e instigado. Aquela coisa de saber “quanto o mercado pagaria por mim hoje, será que mais ou menos do que eu ganho hoje?”; “será que eles me conheceram pelo trabalho que estou fazendo na Konduto?”; “o que mais do meu perfil será que chamou a atenção deste banco?”.

Respondi com o número do meu telefone, mas avisando que não poderia conversar naquela tarde porque estaria em um compromisso. A profissional de RH solicitou, então, que eu lhe mandasse meu currículo o mais rápido possível “para adiantar o processo”. Enviei a ela no mesmo dia, por e-mail.
 
Não tive nenhum retorno nas duas semanas seguintes. Em 2 de março, fiz um follow-up com ela. Nenhuma resposta. “Sem problemas, talvez meu CV não se enquadre aos requisitos da vaga… a vida segue”, imaginei.

Entretanto, em 14 de março, uma terça-feira, meu telefone toca por volta das 10h: era a profissional de RH do Banco XPTO. Naquele momento eu não conseguia atendê-la e pedi que me retornasse em 30 minutos. Exatos 30 minutos depois, um novo telefonema.

- Felipe, bom dia. Infelizmente não pude entrar em contato antes porque a vaga não estava ainda muito bem definida, mas gostaríamos de marcar uma entrevista com você. Qual a sua disponibilidade? 
- Olha… esta semana podemos marcar quinta ou sexta depois do horário comercial. Ou na próxima semana, bem de manhãzinha ou então no final da tarde. 
- Eu precisaria marcar esta entrevista hoje, porque a nossa gestora de RH não fica em São Paulo, mas está agora por aí. Hoje, 16h, na Vila Olímpia, você não consegue?
- Não, hoje infelizmente não. Estou entrando agora no meu trabalho e tenho uma série de compromissos e reuniões até 20h, desculpe. 
- E amanhã, quarta-feira, 15 de março, 17h30? É o único encaixe que consigo fazer… é um caso específico. Posso te mandar um invite? É com a gestora Fulana de Tal. 
- OK, combinado.

Naquela mesma tarde de 14 de março, diversos sindicatos do Brasil inteiro confirmaram que no dia seguinte haveria uma greve geral, em protesto às reformas trabalhista e da previdência. O metrô de SP estaria em greve, os ônibus também. Manifestações pela cidade… São Paulo já é caótica em dias normais, imagine naquela situação. Mas me organizei para a entrevista e para um outro compromisso que eu teria depois, por volta das 19h.

A entrevista

Certa vez ouvi que recrutadores gostam de candidatos que chegam a uma entrevista 15 minutos antes do horário marcado. Portanto, às 17h15 da quarta-feira, com greve geral e tudo, eu já estava na recepção do escritório do Banco XPTO para a entrevista. Fui levado a uma enorme sala de espera, cheia de quadros, esculturas, com janela panorâmica para uma importante avenida. Sentei elegantemente em uma confortável poltrona e pratiquei alguns exercícios de respiração para conter a ansiedade natural até a chegada da gestora.

17h30. 17h31, 17h32, 17h35… funcionários do banco passavam pela sala de espera, olhavam através do vidro da porta e desistiam de ocupar o espaço para reuniões de última hora.

17h40, 17h45… tudo bem, atrasos fazem parte da nossa cultura. Normal.

17h48… será que eu me enganei e a entrevista é às 18h? (Checa o e-mail no celular) Não, está marcado 17h30 mesmo, ela está atrasada.

17h53… o que está acontecendo? E pior… mais gente querendo ocupar a salona de reunião e eu ali.

17h55. Vou esperar até as 18h, meia hora de atraso é o meu limite.

18h03… vou esperar só até 18h05.

18h05… poxa, será que ela não poderia ter pedido para alguém vir avisar que a entrevista atrasaria?

18h06… não, não quero trabalhar aqui. Se eles se interessaram por mim e já estão me tratando assim, imagina então no dia a dia de trabalho?

18h10, 18h11, 18h15… de fato, meus valores pessoais são completamente diferentes dos valores deste banco. Para mim já deu.

Peguei minha mochila, levantei, andei pelo corredor, desejei boa noite à recepcionista. Entrei no elevador, abri o colarinho da camisa, respirei fundo e fui embora. Aliviado. Feliz. Aquele banco não me merecia.

Questionamentos

Para mim foi muito fácil, na verdade, ir embora e abrir mão da oportunidade de emprego: como disse, hoje estou empregado e satisfeito com a minha atual situação profissional. Mas, certamente, eu não tinha sido o primeiro e nem seria o último profissional a ser tratado assim pelo Banco XPTO. E quanto à vida lá fora? Quantas pessoas precisariam desta oportunidade mais do que eu e se sujeitariam a esperar 30, 40, 60, 120 minutos por uma entrevista?

E tem um agravante: eu havia sido convidado àquela entrevista. Não implorei por uma oportunidade. Não exigi que a gestora Fulana de Tal parasse tudo o que estivesse fazendo para me entrevistar. Eles se interessaram por mim. Imagino que, sim, ela tivesse compromissos muito mais importantes do que entrevistar (mais um) candidato. Eu entendo, juro! Reuniões, e-mails para responder, problemas a resolver.

Mas… nem um telefonema? Um pedido para alguém entrar na sala e avisar “Felipe, a Fulana teve um problema… você pode esperar mais uma ou duas horas? Se quiser dar uma volta no shopping ao lado e retornar às 20h… ou prefere remarcar?”. Nada. Absolutamente nada. E isso não é profissional. Não é cordial. Não é decente.

A resposta

Após ir embora da entrevista, esperei por uma semana e não obtive nenhum contato de ninguém do Banco XPTO. Resolvi, então, mandar um e-mail para a profissional que havia me achado no Linkedin manifestando a insatisfação com o tratamento recebido. Uma hora depois, recebo um e-mail da gestora Fulana de Tal.

“Olá Felipe, bom dia. Infelizmente, na quarta passada, não pude me desculpar pessoalmente pelo atraso, já que você deixou o banco sem satisfações prévias. Nós, do mercado, sabemos que atrasos e imprevistos acontecem por uma série de motivos e não fazemos por mal. Existem dias que administrar as demandas acaba ficando complicado e entre entrevistas e reuniões, acabei me atrasando 30 minutos (sic) com o seu agendamento. Quarta foi um dia complicado para todos, inclusive pelos motivos que você mesmo ressaltou, como a greve que tivemos em SP. Agradeço a sua visita ao banco e te desejamos sucesso na sua carreira”.

Descaso. E, sinceramente, eu não esperava nada diferente.

A minha interpretação (e de outros amigos também) da resposta da Fulana de Tal: “VOCÊ, Felipe, deixou o banco sem dar satisfações. Eu não fiz por mal… inclusive, me atrasei SÓ 30 minutos — e não os 45 que você contou no relógio. Por isso também não te avisei que atrasaria e te deixei lá esperando. E outra: você TEM que esperar. Sou gestora, sou do mercado… o mercado é assim. Se não quiser este emprego, ok, tem quem queira. E muitos querem. Por isso também não me desculpei. E também não vou fazer isso agora. Passar bem”.

A resposta da Fulana de Tal apenas escancarou o que eu já sabia: meus valores pessoais eram totalmente incompatíveis com aquele ambiente. A melhor decisão que eu fiz foi ir embora.

Mas eu gostaria de fazer ainda algumas perguntas — não à gestora Fulana de Tal, não aos recrutadores e gestores, não ao mercado. Mas a nós mesmos:

Descaso, desrespeito e egoísmo são mesmo “the new black”, a nova tendência no mundo dos negócios? É assim mesmo que queremos (e devemos) agir hoje em dia? Negar nossas responsabilidades, empurrar as nossas falhas (falhas que muitas vezes são compreensíveis!) para debaixo do tapete e culpar os outros pelos nossos próprios erros? É assim que estamos construindo o nosso mercado de trabalho — e as nossas próprias vidas?

Enquanto ainda não tenho respostas para todas estas perguntas, comemoro uma pequena grande conquista pessoal ao fugir daquela entrevista: respeitar os meus valores e meus objetivos de vida, colocando-os à frente de uma oportunidade de emprego, de um cargo e de (quem sabe) um salário melhor.

Li em um artigo do meu ex-professor Pedro Waengertner:

“Mais do que ficar preocupada ou se estressar com sua carreira, pense em criar o hábito do crescimento, tanto pessoal quanto profissional. Olhe tudo como uma oportunidade para você aprender coisas novas sobre o mundo e sobre você mesmo. (…) As coisas boas vão surgir automaticamente. Os rumos que você vai tomar eu não sei. Só tenho certeza de uma coisa: você vai ser surpreendido positivamente.”
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