Quando a vida imita a vida

Não era minha melhor manhã. Meu remédio para dormir não havia dado conta do calor, do travesseiro diferente, da música alta, das angústias, das frustrações, das ansiedades, dos dramas que eu mesmo crio e falhou várias vezes ao longo da noite. Eu já tinha desistido de esperar o despertador e me levantei antes para tomar o mesmo café da manhã de sempre — quando isso acontece, tenha certeza, algo não vai bem.
 
Eu ainda não havia sorrido naquela manhã. Lembro vagamente de, em algum momento, haver comprimido os cantos da boca, de maneira que minhas covinhas aparecessem acima da barba, em uma vaga demonstração de que eu tinha captado a graça naquela fala, mas que não estava à vontade para expressar alegria. Eu também não dizia muita coisa: minha fala era pausada, espaçada, suspirada, direta, naquele tom de voz em que eu falho rudemente tentando fingir que está tudo bem. Estava muito ocupado equilibrando meus pensamentos, a fim de conseguir aparentar o mínimo de serenidade no meu dia a dia. 
 
A caminho do trabalho, na troca de linhas do metrô, percebi a plataforma de embarque mais cheia que de costume. Olhei no relógio, vi que estava com tempo (obrigado, insônia!) e decidi esperar. Não: naquela manhã eu não merecia ir espremido, acalorado e amassado. Confortavelmente, então, me afastei da multidão, joguei o peso do meu corpo no meu braço direito e o apoiei contra uma pilastra. 
 
Chega um trem. Cheio. Passo. 
 Pessoas se espremem, nem todas embarcam. 
 As portas se fecham, ele parte. 
 Muitos minutos se passam, a plataforma enche novamente. 
 Chega outro trem. 
 Mais cheio. 
 Menos pessoas embarcam. 
 Ele fica lá, portas abertas, num equilíbrio dinâmico que ninguém ousaria mudar. 
 A plataforma enche. 
 Pessoas se espremem fora dos vagões. 
 
Eu, a alguns metros, contemplava serenamente todo este espetáculo durante uns 20, 30 minutos. Tenho pressa de tanta coisa na vida que sentia que precisava aprender a me desapressar e a esperar sem sofrimento. Aquela poderia ser uma boa primeira lição.
 
 O tempo, então, agiu daquela maneira que só ele sabe. 
 
 Uns 45 minutos depois daquela espera paciente e resignada despontou na plataforma um trem vazio. Iluminado, brilhante, convidativo. Lindo. As pessoas ao meu lado sorriam e diziam aquelas coisas que qualquer um diria nesta situação. “Valeu a pena esperar!”, “Quem espera sempre alcança!”, “É disso que eu tô falando!”, “Os últimos serão os primeiros!”, “Fora Temer”, “Saber esperar é uma virtude”, etc etc etc. Tudo isso entre uma enorme comemoração coletiva, como se o Brasil tivesse feito o primeiro gol em um jogo de Copa do Mundo. 
 
(Quer dizer, eu acho que foi assim. Pelo menos foi a impressão que eu tive de dentro dos meus fones de ouvido)
 
Redistribuí o peso do corpo sobre as duas pernas e me posicionei para finalmente embarcar. O trem, vagarosamente, percorreu a plataforma. Faceiro, ele. Sabe que é desejado e por isso se faz desse jeito, olha só! Só pra tornar a espera ainda mais valiosa. Ai, vê se pode… 
 
Com um tranco e um suspiro ele finalmente parou. Minhas pernas começaram a querer se mexer, e precisei iniciar uma caminhada sem sair do lugar, levantando ora um joelho ora outro. Esfreguei os dedos contra as palmas das mãos, endireitei a postura.
 
10 segundos. 20. 50. 2 minutos. 
 
Um longo suspiro, e o trem se moveu alguns centímetros. Acelerou, lentamente. E foi embora.
 
Indisponível.

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