MONO — MOONLIGHT

Ele estava ali há meia hora. Contemplando o que faria nos próximos instantes. Dizendo coisas para si mesmo que jamais gostaria de lembrar. Estava frio. Era início de madrugada. O metrô estava quase fechando e a passarela não parecia tão alta assim quanto planejara. Havia um impasse. Precisaria racionalizar a queda para alcançar seu resultado… Riu sozinho. Racionalizar mais uma vez… De novo a maldição de pensar antes de agir, antes de fluir entre a multidão. A maldição do seu pensamento, da sua incapacidade de simplesmente: parar de pensar.

Era isso que o afastava do mundo. Era isso o que o mantinha atrás da linha amarela. Suas estruturas de raciocínio, sua maneira de prever o próximo movimento de tudo, fazia o mundo andar em marcha lenta e tudo parecer sem vida e desconexo. Lançou as pernas para o outro lado da borda de concreto e ficou ali sentado. A poucos centímetros do perigo. Sentiu a gravidade brincando com seus pés.

Ela estava ligando de novo. Ele não atenderia mais uma vez.

Antes de se fechar em sua própria dor, percebeu que sua melancolia era um atalho para seu egoísmo e a deixou pelo caminho. Tocou com as suas duas mãos na borda. Teve uma preocupação imbecil; Achou que na queda seu celular podia quebrar. Lembrou que estava de fones de ouvido.

Naquele momento. Seu cérebro reencontrou a música que estava tocando desde o início. Seus ouvidos haviam esquecido que havia uma trilha sonora transitando seu subconsciente.

Olhou o visor: ¨6min02seg” de um total de “13min05seg”.

  • Ainda faltam sete… — falou pra dentro.

Olhou para o céu pela primeira vez. Não procurou ninguém. Não rezou. Não ouviu a voz divina. Não era de vida que seu coração precisava. Não era de vida que ele precisava. Ali jazia justamente o oposto. Era vida demais para uma única pessoa. Precisava transbordar. E a música o tomou enquanto ele encontrou entre as nuvens, um pedaço da lua.

Aquela luz ilusória tocou o seu rosto. Comoveu seus olhos enquanto a música filtrou tudo o que havia de ruim ali.

Algumas lágrimas rolaram pela sua incapacidade de “não ser persistente”. Ele não era capaz. Não hoje. De alguma maneira, algo não foi forte o suficiente ali para derrubá-lo. Trouxe os pés para dentro. Avançou a música para os 10 minutos.

Saiu da estação com quase todas as luzes apagadas e ninguém nunca mais o viu ali.