Ladrões de sonhos

sobre a redução da maioridade penal

Fui vitima quando criança dos ladrões de sonhos pessoas feias que vivem nos becos da minha comunidade!, Quando ele tinha 8 meses de idade o pai dele faleceu, tomou vários tiros no corpo, estava na Sul, em Heliópolis, estava na favela da rua da Alegria, Eu tinha muito preconceito na escola como “bulling” muitos amigos meus me descriminavam porque eu ia pra aulas com a mesma roupa do dia anterior, então eu ficava meio assim… Ia ou não ia pra escola?, Minha mãe tinha dias que quase sempre chegava caindo em casa por causa das bebidas alcoólicas, nem sempre quando eu chegava da escola, ou se não do futebol tinha comida na geladeira e nem em cima do fogão pra eu me alimentar, Claudia estava na espera dele… passou três anos e Claudia recebeu uma noticia muito triste ☹ que Jose tinha comprado alguma coisa de alguém na cadeia e se encheu de divida, ai mataram ele, ela foi no velório dele, o Gabriel também foi e chorou muito quando viu o pai dele no caixão, Foi quando eu fiquei revoltado com á vida não quis sabe mais de nada, foi quando eu entrei na vida do crime.

Esses são trechos pinçados de diferentes livros que estão sendo escritos por internos da Fundação Casa de São Paulo. Desde o início do ano trabalho no projeto Primeiro Livro, que tem o objetivo de ensinar língua portuguesa para crianças e jovens por meio do exercício da escrita. Eles são estimulados a escrever livros de ficção, em prosa ou poesia, mas é comum os jovens da Fundação tomarem a própria vida como tema dos livros, mudando apenas o nome dos personagens. Não sei se por carência de referências ficcionais ou se pela vontade de usarem o tempo que têm para escrever como uma forma de catarse, o fato é que essas são descrições reais. São raras as ocasiões em que temos acesso a histórias como essas, livre da interferência de algum outro agente que organize as narrativas de acordo com sua própria ótica. No momento em que se discute a Redução da Maioridade Penal no país, recai sobre mim a decisão de compartilhar uma fração dessas histórias com vocês, o que resolvi fazer, de forma a contribuir com o debate em curso.

Não é novidade o grau de correlação estatística entre a situação socioeconômica de um jovem e a probabilidade desse jovem cometer um crime. A deputada federal Margarida Salomão (PT-MG) têm divulgado dados do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) de 2013 que apontam que, naquele ano, 60% dos jovens infratores eram negros, 51% não frequentavam a escola, 49% não estavam empregados e 66% viviam em famílias consideradas extremamente pobres. A triste novidade que eu divido aqui com vocês é que, para além dos dados estatísticos oficiais, esses jovens compartilham trágicas histórias de vida, coisa que só pude perceber quando tive acesso às suas narrativas. Alcoolismo, drogas, humilhação, morte da mãe ou do pai. O fato que mais me chamou a atenção, por exemplo, por ser o mais frequente entre os mais trágicos, é o assassinato do pai desses meninos, por bandidos ou pela própria polícia. Mas vejam, não se trata de tragédias provenientes do acaso, como um acidente de carro, mas sim de desgraças com alto grau de correlação com a própria situação de miséria e marginalidade social em que esses jovens e suas famílias vivem. É uma roda de infortúnios que não para de girar, um moto-perpétuo de tragédias que se retroalimentam.

Na mesma semana ou mesmo dia em que o Marcelo Rezende, do Cidade Alerta, mostrou ao vivo um policial atirando em dois suspeitos e disse, Ele fez muito bem de atirar!, eu estava na sala da Fundação Casa com os moleques. Estava ajudando o Lucas com o livro dele. Era a história do Pepe, um garoto que era muito brincalhão, gostava de joga bola, solta pipa; bate carde, etc. até o dia em que o seu pai foi confundido com um criminoso e foi morto a tiros por policiais. Na verdade, quem tinha cometido o crime era o tio do Pepe, mais o pai dele que acabo morrenu. O menino então fico muito revoltado porque sabia que o pai não tinha culpa. A mãe do Pepe assumiu os negócios do pai, um bar na favela, e colocou o Pepe para trabalhar com ela. Mas só o bar não tava paganu as conta. A mãe então mandou o garoto arrumar um emprego para complementar a renda da família, mas o Pepe não queria arruma um emprego, ele queria fica perto da mãe pra protege ela.

Agora reparem na diferença entre essas histórias e as autobiografias escritas pelas crianças que estudam em uma boa escola de Alphaville, onde desenvolvemos o mesmo projeto pedagógico do Primeiro Livro.

Eu viajo muito e estou sempre em lugares diferentes, conheço diferentes culturas, diferentes paladares e diferentes países, Eu adoro a Disney, em Orlando, e o parque da Universal, também em Orlando, Meu livro favorito é Harry Potter, Gosto muito da minha vida e dos meus amigos, eles são a base de tudo, Gosto de estar com meus amigos, jogar videogame e ir ao cinema, não gosto de estudar. Algumas palavras neste livro são diferentes, aconselho ter um dicionário à mão, todas essas palavras aprendi com meu pai, uma pessoa que me ajudou muito no decorrer do livro.

Quando escuto as vozes que se levantam contra as políticas sociais, que são as mesmas que fazem coro para pedir a redução da maioridade penal, o melhor argumento é sempre o da meritocracia. No entanto, não é preciso ser muito experto para perceber que o calcanhar de Aquiles do argumento, da maneira e com os propósitos que ele tem sido colocado, é uma perna inteira. Como alguém nascido dentro de uma família pobre pode competir, em pé de igualdade, com o filho da classe média? Podemos mesmo avaliar o mérito, no presente, de pessoas que tiveram infâncias tão diferentes? É só uma questão de esforço, como provam os exemplos do professor, do advogado, do juiz negro e nascido pobre? O discurso é tão propalado que chega a confundir os moleques, Eu acho que é falta de oportunidade para o ser humano. Na vida toda nós fazemos as nossas escolhas, alguns escolhem a vida do crime, outros já pensam em trabalhar, que é uma vida digna para o ser humano. O problema foram as escolhas ou a falta de oportunidades? Eles mesmos se culpam, a maioria conhece o discurso, se arrepende por não ter ouvido os conselhos da mãe. Mas não é difícil imaginar o quão duro foi ou é para esses garotos encontrar a tradução desse discurso em ações no seu cotidiano.

Os argumentos contra as políticas sociais e de ação afirmativa levam acompanhada essa cruel afirmação: “Tá vendo? Se você for inteligente e se esforçar, você vai chegar lá. Só depende de você!” Diante do argumento lógico, racional e ilustrado com exemplos da meritocracia, eles acreditam. Ou são burros ou são preguiçosos, ainda que isso contradiga a própria realidade. Sem saber que, na verdade, estão sendo enganados com meias-verdades e a clássica falácia do argumento pelo exemplo, quando o exemplo é quase sempre uma exceção.

Agora, crueldade, crueldade mesmo, é trancafiar esses jovens na cadeia e dizer: “Você tinha escolha e escolheu mal, porque você é mau, diferente de todo mundo você é mau e por isso tem que ficar preso”. Muitos acreditam.

Faz parte das atividades do projeto Primeiro Livro documentar o processo em vídeo. Com a câmera em close, enquadrando apenas os olhos ou os lábios do jovem, fazemos as mesmas perguntas para todos, Qual é o seu maior medo?, De perder a minha mãe, Você acredita em um Deus, nenhum Deus ou mais de um Deus?, Em um Deus, Você acha que você vai pro céu ou pro inferno?, Eu queria ir pro céu né senhor… mas eu não sei…

Enfim, apesar de nunca terem lido Harry Potter ou viajado para a Disney, não é verdade que eles sejam incapazes de ficcionar, como sugeri no começo. O exercício de imaginação desses meninos eu só pude ver agora, acompanhando a feitura dos capítulos finais. Finais felizes e sonhar com um futuro melhor é um tipo de ficção que não precisa ser ensinada nem alimentada por ninguém: O tempo passou e o menino saiu, correu atrás do seu futebol e conseguiu, virou um jogador de futebol profissional, ele passou em vários times e isso te deixou muito feliz tava ganhando muito dinheiro.