Diafragma Furado — Golpe

Ainda são nove horas da noite, faz alguns dias que não saio de casa, as vezes que sai foi para buscar suco de laranja e um pouco de pão! A cidade está tomada por multidões, o país não anda bem, mas por vezes consigo aproveitar e revejo grandes amigos que estão pegando em armas e lutando contra todo esse escarcéu, mesmo não podendo andar em grupo ou em horários indevidos conforme a nova lei militar, mas a maioria não está dando a mínima, ainda bem, mas muitos estão morrendo e sumindo sem deixar rastros, já não encontro alguns amigos e muito menos tenho notícias deles, não se sabe muita coisa.

Das poucas vezes que saio, mesmo para comprar suco no meu bairro, eu já fui parado pelo policial da rua algumas vezes, fui molestado, agredido, já rasgou minha roupa e um deles cuspiu no meu rosto, somos massacrados diariamente, mas continuo meu caminho sempre que acontece, um dia eu vou retribuir e provavelmente serei levado junto com a leva dos que vão ser queimados, mas o dia que acontecer, terei a certeza que já fiz o meu combate pela poesia, como um misere escritor que sou, minha luta é em forma de palavras, de poesia. Voltando de uma das poucas saídas, escuto bombas, carros em alta velocidade, e imaginei que seria mais um confronto, mais um dia sem poder estar livre, mas a melícia nos diz que é pela nossa segurança, mas é claro que todo mundo finge acreditar, até porque, todos os militantes estão agora mesmo no bar do madeira, que fica em um porão, discutindo novas maneiras de quebrar a barreira militar nas manifestações, ninguém é bobo em cair nesse conto de 64 nem mesmo do 16, mas enfim, eu preciso correr e ir para casa, preciso terminar de organizar dois textos, esses pensamentos e essas saídas não estão ajudando muito, passei pela avenida lotada de viaturas e entrei no meu apartamento, toda vez que estou na rua eu praticamente seguro o ar por todo o caminho, segundo minha analista, tenho transtorno de pânico, mas eu sempre nomeie de “diafragma rompido”, mas segundo ela, esse sintoma é esperado em situações como essa que estamos vivendo, pode até ser, mas eu sei que pode ser um mal de escritor também! Entrei em casa, deixei as sacolas do mercado em cima da mesa da sala, caminhei descalço pelo piso de taco antigo com algumas farpas a mostra, espinho que entra e você convive como sendo parte do seu corpo, mas não é verdade!

Depois de pegar o meu suco de laranja, aprontar meu lápis, meu som desbocar com James Blake I need a forest fire, milhares de farpas nos dedos dos pés, medo de que meu apartamento seja invadido pelos golpistas, eu desmancho meu pensamento sem parar, sem sofrer nenhum tipo de bloqueio, retalhação, golpe, porrada, eu posso ser livre, posso poetizar sem ser preso para averiguação, sem medo de morrer queimado, mal sabem os militares, mal sabem os políticos do golpe, mesmo tendo que escrever no escuro e escondido, minha luta está em libertar e alimentar com a literatura e com poesia, sei que essa é a minha arma, sei também que venceremos, mesmo com nova cicatriz, mas nada vai ser comparado com a marca que a luta deixara em todos os que foram contra nós! Escrevo por todos que estão em luta, com armas, lápis e por aqueles que como eu, tem o diafragma furado, poesia cura.

J.J