Eu nunca quis ter um negócio. Na verdade, eu ainda não quero ter um negócio, mas este foi o caminho necessário para atingir um objetivo muito simples: conseguir focar em minhas prioridades.
Recentemente fui convidado a palestrar no BEPiD e acabei estruturando algumas ideias sobre o assunto para tentar compreender realmente o que eu desempenhava como função, afinal tratava-se de uma conversa menos técnica e eu sou "um técnico". Se me perguntam o que eu faço, a resposta é imediata e direta: eu sou um programador. Não importa a formação, a posição, as atividades. Eu sou um programador…
Programador? Mas e a história de "criar um CNPJ"? E contratar pessoas? E mais ainda: conquistar e manter clientes? A ideia aqui não é basicamente o famoso "ter um negócio"? Administrar, movimentar dinheiro, crescer?
A ideia é trabalhar em minhas prioridades. Eu trabalhei em lugares ótimos, alguns até considero historicamente importantes, eu tive bons "chefes", tudo funcionava bem, mas as prioridades não eram bem as que eu poderia definir, talvez até pior: eu sequer poderia influenciar muito.
Não depende do tamanho da empresa e negócio, tampouco o cargo: se você é um "CEO" de uma empresa enorme com um "board", provavelmente você não tem realmente liberdade e flexibilidade para definir o propósito do negócio, fora o comum "deve gerar lucro".
Nos últimos dias estive dedicando um esforço grande com nosso time para organizar interações melhoradas para nosso produto, que tenho o prazer de programar partes iOS em iPhone e iPad com o meu colega de Android.
Esse esforço era para atendermos demanda de nossos diversos clientes? Era algo urgente? Qual é o motivo do esforço em "melhorar interfaces"? O motivo é simples: em nossa lista de prioridades, poderíamos melhorar algo que ninguém sugeriu que fosse melhorado mas para nós mesmos faz sentido.
Talvez se eu tivesse passado por algum lugar onde a única prioridade fosse poder definir as minhas prioridades alinhadas ao propósito, eu não teria passado, teria ficado por muito tempo, talvez até hoje! Se uma pessoa trabalha em um negócio que acredita e gosta (e tem essa oportunidade!), é responsável, então também é perfeitamente capaz de definir todas as suas prioridades, ninguém precisa "gerenciar" nada. Se você é "gerente" — e eu já tive alguns ótimos! — reflita sobre a função "gerenciar": ela não faz sentido.
Talvez seja este o motivo que tem levado negócios como Treehouse (do Ryan Carson) e tantos outros a promoverem um modelo "Flat" (ou "No Managers"), como também ocorre no Github que já comentei em outro texto. As pessoas têm suas prioridades, e a melhor função que devem executar diariamente, com todas as suas competências, é aquilo que consideram como prioridade.
Em nossa lista de prioridades, por exemplo, está contribuir com open source, criar softwares com qualidade por dentro e o máximo de beleza por fora, que sejam simples e agradáveis de usar. Geralmente estes aspectos não estão na lista de prioridades de uma empresa que cria soluções corporativas. Mas toda aquela dedicação que já direcionamos a projetos para consumidores finais em muitas ocasiões é aplicada aqui, também, nesta nossa nova jornada para criar e manter algo de muita qualidade para este público.
Agora, tendo um negócio, nós podemos sim trabalhar em um componente interessante e torná-lo open source. Podemos dedicar diversas horas ou dias em uma interface ou interação. Nós podemos fazer qualquer coisa que seja nossa prioridade dentro do propósito de criar soluções de qualidade para o mercado que gostamos, que é mobilidade envolvendo iOS e Android.
Todos os detalhes são pensados simplesmente porque achamos que o design como função importa, que as fontes precisam ser as certas, a transparência precisa ser aplicada quando ou como fizer sentido, as cores e a identidade do clientes devem estar presentes, e no final tudo acaba sendo exaustivamente discutido, testado e avaliado. Em alguns casos nós ainda acabamos com uma solução que achamos que poderia ser melhorada ou repensada no futuro, afinal um produto deve estar em constante evolução.
Esse é o ponto central: para "um negócio" talvez não faria sentido dedicar tanto esforço e atenção, é "só a escolha de uma Condição de pagamento" ou "a seleção de numeração de um calçado", então "não importa, deve só funcionar", mas se o se o foco não é "ter um negócio", talvez faça sentido.
Produtos para o público corporativo, em especial, são completamente esquecidos de qualquer cuidado em qualidade e acabamento. Se funcionar, aparentemente já é mais do que o suficiente. Afinal, quem se importa com essa de "acabamento" relacionado ao trabalho, que ocupa só 1/3 da vida das pessoas? Por definição, trabalho é algo chato e feio, pode continuar assim, para todos os lados, quem produz soluções e quem as usa diariamente.
Um vendedor não precisa ter algo bonito e agradável, uma secretária pode usar um aparelho lento, um contador pode ficar vendo tudo preto e branco mesmo, é afinal de contas "só o trabalho" dessas pessoas. Um médico pode usar qualquer coisa, é só o relatório de uns exames em uma UTI, talvez quanto mais feio e chato, melhor…

Uma simples tela de login é um exemplo concreto: é algo burocrático, mas nós acreditamos que ela pode ser agradável. Ela pode deixar evidente a marca e a identidade, ela sozinha pode causar orgulho. Orgulho para o próprio usuário.
E nós ficamos horas e mais horas só nela: será que a transparência fica bem aí neste contexto? E se tivesse um blur? A cor do cursor está correta? Deveria ter um contorno na ação de login? Qual é a cor quando há seleção? Como fica nas diferentes orientações do aparelho? Será que a legibilidade está boa? Ele deve lembrar a senha por padrão e a opção de lembrar pode deixar de existir? Qual é a segurança desses dados? Uma pessoa pode pegar a senha? Quais situações seria necessário realmente uma senha? E se fosse apenas o login? E se talvez a própria tela de login fosse desnecessária em alguns casos? A implementação envolvendo o código por dentro está bonita e agradável?
Se pensamos nisso tudo só no redesign de uma função de login, imagina em outras que são muito mais complexas. E nós queremos que cada cliente tenha o mesmo sentimento de prazer e satisfação ao desempenhar, diariamente, as suas atividades fazendo uso de nossas soluções. Se era assim com um simples guia direcionado a centenas de milhares de pessoas, será assim para uma assistente de marketing ou uns vendedores e outros — não importa o público, acabamento e qualidade independe da audiência.
A quantidade de perguntas é muito maior do que as respostas que acabamos, por natureza, conseguindo produzir. E por isso nós seguimos, diariamente, no trabalho contínuo de produzir coisas direcionadas ao propósito que de fato acreditamos, com todas as prioridades que definimos.
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