Porquê Estamos Ficando Malucos, Porquê Vai Piorar e Como Remediar

Nós estamos ficando bizarros. Esta é a palavra. E a culpa está no descaso com a qual estamos lidando com a tecnologia neste século. Coisas maravilhosas estão vindo parar em nossas mãos rapidamente, mas estamos nos demonstrando incapazes de lidar com ela. Desde 2008 já davamos sinais disso e agora enxergamos cenários em que não compreendemos mais as loucuras que habitam na cabeça de cada um de nós. Para deixar claro do que estou falando, aponto o dedo para nós, usuários da internet, e para as instituições, sejam públicas ou privadas, que ainda não estão suficientemente transparentes quanto ao que fazem no cotidiano. O que nós e essas instituições têm a ver com o que está acontecendo? Vamos observar um breve histórico:
A jovem geração de 1991 para cá — eu me incluo nela — vivemos para ver uma fatídica ironia entre gerações: crescemos interagindo com a internet e sendo advertidos pelos nossos pais a “Não acreditarmos em tudo o que vemos pela internet.”. Um conselho sábio, pois só nós sabemos que terra sem lei foi essa internet nesse período. Só para refrescar a memória dos mais esquecidos, com certeza em tempos incipientes do youtube o algoritmo de sugestão de vídeos frequentemente nos direcionava para uma espiral de perdição e bizarrice com vídeos feitos em movie maker com teorias da conspiração atirando para todos os lados sempre no mesmo formato: imagens de simbolismo vago usadas pela maçonaria e alquimistas, textos em vermelho ou preto tentando provar um ponto absurdo e com a música O Fortuna de Carl Off tocando de fundo. Sim, todos nós vivemos isso e todos nós nos impressionamos com isso em maior ou menor grau.
Além disso, conteúdos quanto a evidências de alienígenas no planeta, contato de hitler com eles, experimentos secretos da NASA ou nos porões da Unicamp ou da UnB eram um dos mais abundantes em portais de notícia de diversidade. Não digo que isso tudo foi exclusividade de nossa geração com o advento da internet, pois o que foi a televisão brasileira na década de 80 e os jornais de rua do período na geração de nossos pais já mostram de onde a internet herdou o absurdo.
Se tem uma coisa que a gente cresceu consumindo foi lixo, e não foi pouco. Em compensação, aprendemos com isso e conseguimos filtrar até certo nível o conteúdo que nos era apresentado e passamos a consumir conteúdo de qualidade que enriqueceu em muito a nossa experiência como geração, assim balanceando os vícios da internet. Foi a partir de certo ponto, com o amadurecimento desta geração e da internet que os acontecimentos no mundo começaram a ter as suas causas na internet. Muitos devem lembrar do que foi a mobilização mundial contra a PIPA, a articulação dos anonymous como força política, perseguição ao criador do wikileaks, escândalos de vendas de drogas em uma rede chamada Deep Web e essas informações chegando antecipadamente em nossas mãos de tal forma que nos colocasse na posição de arautos de furos de reportagem. No entanto, o ceticismo da geração anterior quanto ao que se esperar de seriedade da internet ignorou os anúncios até o ponto em que, 2 ou 3 meses após a nossa advertência, explodiam tais notícias nos canais midiáticos com os quais todos já estavam acostumados. Esses episódios foram um ponto de inflexão no comportamento da geração de nossos pais para trás.
Depois que os smartphones se popularizaram, todo mundo agora podia experimentar o que era interagir com essa grande Hive Mind de conteúdos. E, ironicamente, quem nos advertiu a não acreditarmos em tudo que víamos na internet, foram e estão sendo os mesmos a propagarem em redes sociais e grupos de whatsapp de família conteúdos de origem duvidosa e de caráter alarmista sobre alguma conspiração política agindo no mundo ou no país. Infelizmente, a nossa geração não está de mãos lavadas para isso, uma vez que temos uma grande parte de nossa geração reproduzindo estes maus hábitos. Fake News definitivamente não foi algo novo na internet, mas o volume com o qual temos compartilhado e acreditado nelas nunca foi tão alto.
Agora eu quero trazer dois questionamentos que são os motivos de eu ter escrito esse texto:
- E daí que estamos acreditando e compartilhando coisa falsa na internet? (Tá machucando alguém?)
- Por que estamos acreditando e compartilhando coisa falsa?
Respondendo a primeira pergunta: Sim, importa muito a notícia falsa que você está consumindo e sim, está machucando muita gente o fato de você ser mais um ator entre muitos de propagador e crente deste tipo de conteúdo. Trago evidências:
Para começar, vamos falar de três bizarrices que aconteceram nesse curto período de campanha eleitoral de 2018: Cabo Daciolo, Atentado ao Bolsonaro e a campanha de apoio ao Bolsonaro através de ataque com falsidades e desinformação sobre o que a “malvada esquerda” articula sobre as nossas crianças.
Uma coisa que une esses três fatos é que todos eles cheiram muito forte a vídeo de teoria conspiracionista de youtube com fundo de Carl Off. Cabo Daciolo e defensores de Bolsonaro tem sido muito alarmistas na internet quanto a iminência de — preparem a cartela de bingo conspiracionista versão brasileira e marquem se você já viu algum desses circulando por aí. — invasões de tropas bolivarianistas ao Brasil para implantar o comunismo, partidos de esquerda querendo impor uma ideologia de gênero às crianças, a Rede Globo de televisão impondo uma agenda globalista alinhada com os interesses do PT para doutrinação e filtragem de fatos, a maçonaria tem planos de implantação comunista no Brasil, a bandeira do japão próxima à bandeira brasileira no congresso na verdade é um plano de mudança da bandeira nacional para uma bandeira comunista, plano Ursal e etc. O leitor pode observar que tudo isso representa um medo e desconfiança do que a esquerda estaria articulando para destruir o país que eles conhecem, mas gostaria de mostrar que há um contraponto na esquerda na personifição do homem que esfaqueou o bolsonaro. Ele consumia esse tipo de conteúdo que se utiliza das mesmas pseudo evidências, mas para provar um outro ponto conspiracionista: a maçonaria articula formas de implantar regimes fascistas ou nazistas no Brasil, a Globo impõe uma agenda de perpetuação de exploração da população pobre e esconde os fatos, os EUA realizam projetos científicos de controle ambiental remoto para perpetuar desigualdades sociais em países do terceiro mundo, e assim vai.
Caso o leitor tenha caído de paraquedas e não acredita que possa existir tanto conteúdo na internet querendo provar pontos antagônicos com base nas mesmas evidências vagas, convido a ativamente buscarem por essas loucuras na internet. Logo abaixo eu trago prints no youtube para a pesquisa “maçonaria nazismo” e “maçonaria comunismo” para ilustrar. Há muito mais bizarrice, mas deixo a pesquisa a cargo do leitor.



Voltando à loucura. Tem muita besteira influenciando processo decisório de eleitores e de elegíveis no Brasil. Agora cabe responder a primeira pergunta: que mal faz propagar isso? Todas essas teorias conspiracionistas trabalham com o pânico e, quando você dialoga com o pânico das pessoas, não é preciso um esforço baseado em evidências para persuadir pela via racional. Basta trazer o pânico fundamentado em um risco à vida, propriedade ou direitos de uma pessoa que serão causados por uma entidade antagônica e maquiavélica: insira comunistas, nazistas, maçons, illuminattis ou grupo vago de sua preferência. E depois, trazer o alívio para o apocalipse, um salvador ou antídoto: o grupo que você quer fortalecer no processo. Caso duvidem da eficácia deste método, isso é utilizado por empresas bem estabelecidas no mercado para persuadir novos clientes. Convido o leitor a buscar um texto chamado “4 Anos após o Fim do Brasil” da empresa Empiricus e tirar suas próprias conclusões analizando os elementos visuais, composição textual e artifícios alarmistas que ele se utiliza para provar que há uma ameaça iminente: “inflação altíssima e dólar a 8 reais” e que ele mesmo possui a cura: “dicas exclusivas de investimentos para proteger o seu patrimônio.”.
Quem sai perdendo com essa brincadeira de mau gosto é o grupo antagônico utilizado para vestir como cavaleiro do apocalipse: geralmente Minorias. Quero lembrá-los da similaridade deste artifício de persuasão com o que foi a ascensão de Hitler utilizando os judeus como esse grupo antagônico para a Alemanha, ou a ascensão de ditaduras militares na américa latina utilizando o medo aos comunistas, ou a justificativa do inimigo comum contra os Cristãos no império romano.
Por exemplo, com a falsa notícia com um título provocativo da distribuição do Kit Gay nas escolas públicas do país, quem ganha e quem perde com a história? É verdade que conversar sobre sexualidade e a possibilidade de existir diferentes orientações sexuais ainda é tabu para grande parte da população brasileira, mas por que alarmá-los com a mentira de que as escolas estão distribuindo materiais para incentivar as crianças do país a serem gays? Isso é o suficiente para colocar toda uma legião de pais contra minorias políticas LGBT — que já são um grupo marginalizado em direitos no país e que estão aos poucos conquistando seus direitos de igualdade e aceitação na sociedade. Agora, quem propagou o boato inicial tinha pelo menos um desses dois objetivos em mente: ou de fato queria dificultar o empreendimento de conquista de direitos dessas minorias, ou queria vender um candidato político para as eleições como antídoto para o apocalipse que estava anunciando. Apesar de ser eticamente errado e ser um processo de “chutar cachorro morto”, o autor da brincadeira alcançou o seu objetivo. No entanto, as consequências disso são catastróficas: pais matando os próprios filhos com medo de eles terem se tornado gays, perseguição a venezuelanos imigrando para o país por estarem fugindo de um regime de autoridade e escassez acreditando que eles estão vindo para o Brasil para implantar o comunismo, assassinato de Transsexuais e toda forma de manifestação de intolerância que se justifica com a máscara da “auto defesa”, “pelo meu país”, “por Deus” ou “pela minha família”.
Para concluir este ponto: este mesmo mecanismo de criação, compartilhamento e crença em notícias falsas e alarmistas, além de matar LGBT’s, Imigrantes e minorias religiosas, também quase matou o presidenciável Jair Bolsonaro. O mesmo candidato cujos militantes alavancaram sua base de apoio com estes mesmos mecanismos de propagação de notícias falsas.
Ninguém quer que uma tragédia dessas aconteça de novo, mas atento que ela vem acontecendo há muito tempo e muita gente está sofrendo com esse mecanismo irresponsável de busca por apoio político.
Agora, vamos à resposta da segunda pergunta: como e por que estamos acreditando tanto nessas notícias falsas? Para responder a essa pergunta, quero apontar os atores que geralmente são apontados como os conspiracionistas de todas essas histórias: a Rede Globo (emissoras de TV), Maçonaria (Sociedades Secretas), USP, Unicamp, UnB (Universidades reconhecidas), Coca-Cola, Ambev, Google (Empresas privadas). O que todas elas têm em comum para sempre serem usadas como um dos arquitetos do mal em todas essas teorias da conspiração? Respondo: falta de transparência nos processos. Por que isso é o suficiente para as teorias da conspiração acusarem-nas?
Tudo aquilo que não entendemos ou nos privam de saber, tememos. Se uma indústria de alimentos de massa não nos é transparente quanto o processo empregado para produzir aquilo que consumimos, é de se esperar que cultivemos a Desconfiança. Quando não temos informação sobre a procedência de algo, das duas uma: ou nos conformamos e confiamos na qualidade do que estamos consumindo ou repudiamos ativamente o consumo daquele bem.
Dessa forma, não há nada mais capaz de causar terror do que os simbolismos místicos da Maçonaria que frequentemente se confundem com simbolismos do antagonismo cristão. Há uma simbologia coerente e bela por detrás das escolhas da maçonaria, mas é também muito fácil ressignificá-los de forma diabólica quando o seu significado é ou obscuro, ou intencionalmente ocultado das pessoas. Para todo mundo vale a máxima: Se esconde, coisa boa não é. Assim, deixa-se um vácuo de informações em que ninguém detentor do conhecimento do objeto quer revelar e que ninguém fora do meio pode explicar. Isso é terreno fértil para uma explicação inventada, fantasiosa e impressionante tomar conta. Essa explicação, apesar de não ser validada e ser falsa, é facilmente comprada pelo público. Hoje, o preço que a maçonaria paga pela sua caracterização como sociedade secreta é ser tida pela população como um grupo demoníaco que arquiteta planos de dominação mundial para algum ideal de esquerda ou de direita.
Esse mesmo fenômeno ocorre com as universidades públicas do país. É um tanto que difícil para a população de modo geral ter contato com o que é produzido nesses locais e os seus sites e páginas nas redes sociais estão longe de serem os melhores informantes sobre as atividades por ela realizadas para o grande público. Quando a clareza das atividades de uma instituição estão nebulosas, o efeito de ocultar as informações é tão parecido quanto, assim abrindo espaço para teorias de que cursos de humanas são berços de comunistas ou de que há experimentos com aliens nos porões desta universidade.
Todas essas questões julgo como novas, pois, com o advento da internet, instituições e histórias falsas e fantásticas competem pelo espaço de entendimento do grande público. Ser negligente com a imagem que a sua instituição tem na cabeça das pessoas é permitir que ela seja deturpada por histórias falsas que podem culminar no descrédito e destruição dela. Segredos de negócios podem ser o pilar de sobrevivência de muitas empresas, mas há um limite em que o obscurantismo pode deixar de protegê-la para se voltar contra ela. É o caso do que foi o Olavo de Carvalho propagando que a Pepsi era adoçada com fetos abortados por comunistas. Se há algo que as instituições podem fazer para se protegerem da ignorância das pessoas é sendo franca com as pessoas quanto às atividades da empresa. Se for difícil para as pessoas compreenderem o que, como e o porquê de você estar fazendo algo, há espaço para que outro alguém mal intencionado se encarregue de explicar do jeito que ela quiser por você para as pessoas.
Agora como remediamos? Como podem ver, apontei o dedos para nós e para as instituições. Acredito que a resolução do problema esteja em um desafio oneroso para as duas partes:
- Para nós, cabe o autopoliciamento e aumento da criticidade com a qual consumimos informações. Falar é fácil, pois reconheço que cada vez mais os nossos amigos, professores e trabalhos exigem de nós respostas rápidas. “Você tem um smartphone agora. Você não deveria demorar tanto para descobrir alguma informação.”. Essa abordagem apressada, folgada e irresponsável com a internet foi o que nos empurrou para este péssimo hábito. Então atento o leitor que este esforço não se deve apenas a um esforço próprio, mas também dos próprios meios produtivos ao qual estamos inseridos de darem alguns passos atrás para sacrificarem produtividade em prol da certeza.
- As instituições precisam se blindar de atribuições mal intencionadas de valores, missões e princípios. Para isso, a melhor arma que possuem é a transparência de processos. Entenda que quando digo instituições quero dizer partidos políticos, órgãos públicos, empresas privadas e públicas e etc.
Percebam que as minhas propostas demandam todas um esforço e gasto de energia ao qual não parecemos muito dispostos a dispender. Mas eu antecipo que temos que ceder o quanto antes. Será cada vez mais difícil nos reeducarmos a lidar com a internet quanto mais protelarmos a responsabilidade de nos adaptarmos para interagir à altura com a ferramenta pro futuro.
Todos têm a ganhar com a internet, mas é preciso um esforço para que ela não seja uma ferramenta que favoreça pessoas mal intencionadas e prejudique pessoas inocentes no processo. Não digo que é preciso agir antes que seja tarde demais, pois já é tarde demais, dado tantas pessoas assassinadas e perseguidas por teorias da conspiração infundadas da internet, entre elas, o controverso presidenciável Bolsonaro.
- Felipe Kenzo Shiraishi
Adendo: vamos deixar claro algumas informações. Serei enfático quanto à realidade, confrontando algumas mentiras bizarras que vêm circulando por aí.
- A terra não é plana e não tem organismos governamentais te privando desta informação.
- Vacina não dá autismo pro seu filho.
- Não há aliens sendo estudados por organismos governamentais.
- A Ursal não é verdade.
- Os Illuminatis não existem e não querem implantar uma ditadura de direita e corporocrata no mundo.
- Comunistas não são tão bem articulados do jeito que pensam para dominarem o Brasil e nem está no escopo de interesse deles.
- Metade dos comércios bizarros em creepy pasta que dizem que acontecem na deep web são mentira.
- Pablo Vittar não está realizando planos políticos com o PT.
- A Bandeira do Brasil não vai ser substituída pela japonesa e a bandeira japonesa não é um ode ao comunismo.
- Bolsonaro foi de fato esfaqueado e não jogada de marketing eleitoreira. Temos que reconhecer a gravidade da situação e não reproduzirmos o mecanismo de falsidades que foi utilizado para alavancar o extremismo personificado na própria imagem do candidato.
