Quando desisti de ser alguém.

Felipe Leão
Feb 1, 2017 · 3 min read

“Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer — eu sou eu?” Fernando Pessoa

Lembro-me vagamente de que minha maior aspiração quando criança era ser um engenheiro. Não um engenheiro qualquer, mas um engenheiro de LEGO. Montava o que viesse na minha mente e passava horas fazendo aquelas peças se tornarem aviões, castelos, dinossauros, carros com 9 rodas (sim, 9 rodas, pois colocava uma rodinha ímpar na frente para ficar MUITO MAIS DESCOLADO) e fazia o impossível com os pequenos tijolinhos.

Porém, como nem tudo na vida é feito de Lego, fui matriculado em uma escolinha para aprender a falar, ouvir, perguntar e brincar como se não houvesse amanhã — assim como a maioria das crianças. Mal sabíamos que nosso fim estava próximo. Talvez mais próximo do que imaginávamos.

Conforme crescemos, somos matriculados em escolas para aprendermos Matemática, História, Geografia e infinitas matérias para que possamos, algum dia, nos tornar alguém. Quem nunca quis ser alguém na vida? Qual pai e qual mãe nunca quiseram ver seus filhos se tornarem alguém?

À medida que os anos passam, sentimos cada vez mais a necessidade de ser alguém. Na adolescência, queremos ser influenciadores; na juventude, quando nossas vidas começam a tomar um caminho, optamos por nossas carreiras. Mesmo com inúmeras dúvidas sobre a vida, queremos ter certezas ao arriscar e, por fim, conseguir ser alguém.

A vontade de ser alguém nos alegra e deprime; gera dúvidas e nos põe em conflito interno. Existem épocas em que a necessidade de ser alguém se torna um inferno. Alguém sempre espera algo de alguém, certo?

Pessoas querem ser advogadas, engenheiras, cantoras, youtubers; pessoas buscam um corpo perfeito, querem receber mais likes nas redes sociais (mesmo que às vezes, alguns tenham que apelar para a troca de farpas e postagens de textos controversos). Mas isso não importa, desde que as outras pessoas saibam que somos alguém.

“Dá um joinha e se inscreva no meu canal”.
“Olha que MARA como ele a pediu em casamento descendo do helicóptero segurando velas em formato de coração com 200 pikachus fofos dizendo eu te amo em francês — Ai que lindo amiga! Um dia quero encontrar alguém assim”. Não importa, desde que as pessoas vejam que sou alguém.

“As crianças acham tudo em nada, os homens não acham nada em tudo.” Giacomo Leopardi

Crianças são sinceras: mostram quem são, suas vulnerabilidades, e deixam as máscaras e o orgulho de lado. Perguntam quando têm dúvida e, quando não entendem, fazem mais perguntas. Ostentar acontecimentos e buscar aceitação não é comum a elas. Fazem as coisas por instinto e aprendem caminhando, sem se preocuparem como as olham, são livres.

Li que só os puros, como uma criança, herdarão um reino de paz. Uma pessoa pura é livre em uma sociedade, mesmo que todos a julguem por não querer ser alguém como todos querem ser.

Quem sabe um dia todos nós desistamos da busca de ser alguém para sermos nós mesmos.

Quem sabe um dia todos nós possamos ajudar uns aos outros — cada um com seu respectivo talento.

Nossa carreira e grau de influência já não importam ao nos despirmos da necessidade de ser alguém. Precisamos ser esvaziados de tudo e deixar o orgulho de lado para obter ajuda quando estamos sem esperança, além de identificar oportunidades para ajudar alguém necessitado.

Lembro-me da paz que sentia antes de me tornar alguém. Por isso, desejo me despir de ser alguém para que todos saibam quem eu sou.

Obrigado pela leitura.
Espero ter ajudado em sua caminhada.

Felipe Leão

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