A piscina,a folha e o inseto
1. Em uma piscina, num dia ensolarado, encontram-se na água duas formas tão distintas e ao mesmo tempo tão semelhantes:A folha e o inseto.
2. A folha, com seu deslocar suave, transporta-se para todos os lugares delimitados pela margem, por meio do incessante vento que sopra, movimentando a todos, água, folha e inseto.Seu flutuar é típico daquele que sabe não ser possível afundar, permitindo-se então sentir e mover, determinada por margem e vento, ao longo de toda sua existência no fluido vital.
3. O inseto, pelo contrário, luta bravamente para nadar, pensa que se parar pode afundar, que se vacilar será engolido pelo mesmo local que o dá suporte no seu mover.Ele mexe suas patas incessantemente, até o completo cansaço, até uma aparente derrota.Morreria, então, pela sua ignorância, por não saber que pode flutuar?Por desconhecer a inutilidade de sua luta, já que as margens,limite físico, bem como o vento, que impede seu nadar, são impossíveis de serem controlados pela sua simples existência, capaz apenas de gastar energia inutilmente em um nado vão?
4. De súbito, sobe em meu coração uma vontade, segui-a.Libertei o inseto das amarras a que estava submetido pelas barreiras naturais dessa existência.No entanto, ao libertá-lo, ele sobe pela minha mão velozmente,com o mesmo ímpeto que o retirei de seu jugo, afastei-o de minha mão com um sopetão.Sua queda foi dura,mas não findou sua vida.
5. Por que afastei o inseto com tanta repulsa de minhas mãos?Pela ignorância, por não saber se ele era venenoso, por sua aparência não me agradar, pelo fato de ele apresentar uma ameaça instantânea, criada em minha mente devido ao meu medo do perigo.Talvez eu também seja um inseto, afinal.
6. Por que não ajudar também a folha?Seu flutuar pelas águas, em conformidade com as margens e o vento me fazem perceber que não existe nenhum problema em sua vida, mas sim conforto e estabilidade em sua caminhada, de margem a margem, eternamente, nas águas que a circunda.Ela faz parte da dinâmica da piscina, tornou-se um elemento contido no quadro existencial apresentado.Nesse caso não há nenhuma espécie de empatia, a ajuda não existe, não é possível.
7. Todos seremos engolidos pela água, limitados pelas margens e submetidos ao vento dessa grande piscina que é a existência humana.No final, o que importa é sabermos o que ser:folha ou inseto.Nos dois casos, talvez não exista alguém para nos retirar do nosso jugo existencial,somos condenados à humanidade.
