Cria — [Poesia]

Temos todos pelo menos um útero, nós humanos.

Todos.

Mulheres diferem por terem um a mais:

Um impressionante útero-órgão carne

Forte usina de matéria celular

que cultiva, nutre e matura

O bicho-humano mórula

Fruto fecundado do carinho entre dois

Aquele que é comum a todos nós, porém, é

O Útero-Idea

O meta-útero

O m e ( n ) t a-ú t e r o

Uma fértil metamatriz,

Fábrica primária de todo imaterial e abstrato em nós mesmos

Formoso órgão-fenômeno do mais refinado design(io)

cuidadosamente posicionado

No Espaço craniano

Cosmos infinito infra-ósseo

Somos, portanto, todas mães!

(mulheres o são em dobro, daí sua importância pro mundo!)

E há de se respeitar mais

Esse ofício maravilhoso

Que é dar a luz
(a abstrações)

Tenho meus filhos mentais.

Protejo-os.

Sou a suprema mãe de todo o meu universo

Intracrânio sideral

Concebo fertilmente criaturas-poesia coloridas, surreais,

tosquices amenas,

Cheguei já procriar imensidões

Turbulências belas de mim mesmo

Arrepios, e um trio de risadas

Há um mês pari gêmeos incoerentes

Eram pequenas entidades divagantes,

Abobalhadas e alegres, pequenas absurdezas com delírios de esperança aqui e ali

De forma esfinge e pele negra, saíram-me dos ovários-temporais aos pulos.
Acompanham-me, firmes.

Semana passada dei luz a um menino-mundo inteiro

Saiu-me duma vez, de susto

- ‘VRAAA!’

Era meio torto mas parecia feliz havia bichos estranhos nele viviam juntos e bem sorriam entre si e amavam-se havia harmonia e…

Nascem-me dos ovários da mente coisas, criaturas demais

- Talvez seja a hora de começar a tomar anticoncepcionais mentais:

Tenho este útero por demais fecundo

De ideias, de amor,

De sonhos,

De vida

Felipe Leão Leutewiler Balthazar

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Interessado em ciência de ponta, vivo dividido entre ciência e arte. Acredito no caminho do polímata. Médico.