Ano do Ovo

2015 foi um ano em que muito pouco escrevi. Meus textos antigos parecem páginas rasgadas de um diário alheio. Confissões de um estranho. Todos vilões, os erros, os dramas. Os amores, decepções e os julgamentos. Testamentos assinados sob ar rarefeito em língua estrangeira. As palavras encontraram um merecido repouso, e as mágoas também, enterradas como lixo nuclear.

Foi o ano do corpo, do couro. De contar as sardas, de perder os cabelos, encontrar as rugas que mal conheço, mas que já considero pra caramba. Achar graça do pelo loiro que nasce na sobrancelha, harmonia nas poucas e pequenas curvas do meu corpo e, por que não, me permitir seu objeto de desejo alheio. Mas mais importante, do meu também.

Deixamos as diferenças para trás e fizemos as pazes. Tiramos selfies — ele e eu — expondo nossa recém encontrada felicidade como fazem os apaixonados, testando a confiança desse novo trato e os limites da superexposição. Erramos, acertamos, mas tentamos o equilíbrio pendendo pro lado da balança que gerasse meu próprio like.

Sempre achei que meu corpo fosse foi minha maior frustração. Eu me sentia mal em rejeitá-lo, pois objetivamente não havia nada de errado com ele. Então escolhia o silêncio, as poucas fotos, as várias camadas de roupa. A olhada rápida no espelho.

Não era vergonha o que eu sentia, era medo de ser eu mesmo, por inteiro. O aspecto físico parecia ser a maneira mais difícil de controlar como os outros me viam. Até então, os textos e o blog faziam todo o trabalho por mim. Os likes, os comentários e os acessos abasteciam meu ego e me ajudavam a projetar a exata imagem que eu procurava ter. Mas são se pode viver a vida se escondendo atrás da própria sombra, uma mancha autoral que só existe em caracteres e links.

Neste ano, cada foto, publicada ou não, apresentou um capítulo, pontuou uma história. Possibilitou que eu pudesse olhar para esse cara aqui com um pouco mais de carinho, de solidariedade e cuidado. De ter a coragem e o orgulho de ocupar meu próprio espaço. Estamos em um relacionamento complicado, mas estável. Aberto, mas leal. 2015, pra mim, não foi o ano da casca, foi o ano do ovo.

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