Fila de mercado

Numa dessas banalidades da vida, numa fila de mercado que empaca, quando a fadiga acumulada de um dia inteiro finalmente se abate sobre nós, finalmente nos reencontramos.

Foi surpreendente e assustador o modo como você se aproximou de mim. Sem aviso, com um “Olá” à meia voz, quase tão incrédula quanto eu, um pacote de amendoins numa mão e uma garrafa de cerveja na outra.

Trazia aquele sorriso de iluminar as trevas, os olhos grandes, tal qual um cão sem dono, perdido e assustado.

Eu, uma cesta cheia de carnes, temperos e maças, o perfeito homem gourmet, boquiaberto e mudo diante daquele fantasma que era você.

A cena era quase cinematográfica. Entre o drama e comédia romântica. Talvez um daqueles encontros/conflitos de uma sitcom, o casal perfeito se reencontrando num final de temporada, aguardando a sequência da cena na temporada seguinte.

Seria aquela longa troca de olhares um prelúdio do beijo apaixonado e cheio de lágrimas e aplausos que encerram uma era televisiva?

Não. Aquele mutismo lacônico permaneceu pelos dez minutos que esperamos na fila do caixa, guardando assim o encanto daquele olhar pelas décadas que se seguiram.

Lembro-me de balbuciar um “Oi” em resposta; lembro-me de você tocar meu rosto recém-barbeado com a mão esquerda, aquela que ainda carregava o anel que eu te dei; lembro-me da sensação da sua pele roçando a minha naqueles três segundos infinitos; e seria capaz de reproduzir passo por passo seu até o caixa, tuas mãos recebendo o troco da compra, teu andar sensual e absolutamente natural até a rampa de acesso ao estacionamento.

Minha maldita memória fotográfica manteve para sempre intacta a imagem de seu olhar pra trás, despedindo-se com ternura de mim, deixando esta saudade cruel e impiedosa que ainda me consome.