De repente, repente.
~ Aconteceu em Ponta Negra ~

Era um sábado de inverno típico da capital potiguar, bem democrático, cada um com o seu sol. Havia acabado de nadar de Bald’s Hill ao Hotel Sehrs, e rumei em direção às barracas mais movimentadas da praia, ao encontro da minha proprietária.
Cervejas tão geladas quanto superfaturadas, caipirinhas, alho ao camarão e óleo, ostras frescas, giardíase, água de coco e outras iguarias praianas eram degustadas ao som de um CD de piadas mais repetidas que Lagoa Azul na Sessão da Tarde. Estas, porém, não eram as únicas atrações do nosso momento mágico.
Um espetáculo de vendedores itinerantes ofereciam desde penduricalhos confeccionados com resíduos de bolso de bermuda a seguros contra os ataques do Homem-centopéia, aquele sujeito que pede ajuda para comprar uma prótese de perna desde antes da invenção das próteses.
Em meio ao show de talentos tropical, bem na mesa ao lado, uma dupla de repentistas aborda um senhor aparentemente nativo.
Bom dia para o senhor
desculpe a intromissão
num dia sensacional
repleto de diversão
Estamos aqui cantando
pois somos necessitados
e vocês vão tá ajudando
com apenas uns trocaaaaados
A resposta veio em forma de um silêncio constrangedor. O ancião reagia como um poste de concreto ao som de “I will survive”.
Os artistas, no entanto, não se deram por vencidos.
Seu moço preste atenção
não querendo incomodar
não tamo aqui por opção
se o senhor puder ajudar
teremos muita gratidão ão ão
Risadas fake da piada do Zelezim. Voz gasguita da vendedora de jinga. Barulho das ondas. Nada do Senhor responder.
Os repentistas se entreolharam, um com semblante de tristeza, outro de revolta. O segundo puxou a melodia.
Se tu não quer ajudar
não tem nenhum problema não
tas me faça um favor
tenha mais educação
o senhor ignorou nossa apresentação
isso não é educado
pegue todo se trocado
e enrole e enfie no raaaaaaabo abo abo
A pisada forte na saída fez com que as chinelas de couro arremessassem uma quantidade desagradável de areia contra o vento forte.
O senhor ao lado continuou sentado por um tempo, enquanto o clima de perplexidade e constrangimento impregnava um raio de 15 metros do centro de nossa mesa, como um flato em um bunker anti-míssil.
Mais repentino que os próprios repentes, porém, ele se levantou, passou pela nossa mesa deixando um papel semelhante àqueles dos biscoitos da sorte e seguiu, de mesa em mesa. Pouco depois, ele retornaria para recolhe-los, junto com umas moedinhas.