Evolucão Post Mortem

~Aconteceu em Ponta Negra~

Não se come sushi na praia.

Prêmios e homenagens são fábricas de mentes obcecadas.

Oscars, Pulitzers, Lions e AVNs atraem hordas de workaholics e competidores compulsivos para o abismo da ortodoxia social.

O Prêmio Darwin, no entanto, está longe de pertencer ao hall dos mais desejados. É uma espécie de homenagem irônica e simbólica àqueles que involuntariamente cometem um ato de estupidez hiperbólico ao ponto de culminar em fatalidade.

Talvez fosse por isso que ninguém entendia Norberto — celebre morador da Vila de Ponta Negra — e sua ideia fixa de ser um vencedor do Prêmio Darwin ou morrer tentando. O que, no caso, dava no mesmo.

O fato é que o anseio por uma morte Kafkiana era a marca registrada de Norberto.

Nada de AVC, atropelamento, afogamento, ataque de tubarão, perfuração por arma branca, suicídio por asfixia auto-erótica, ingestão de sushi de churrascaria, choque anafilático ou leite com manga. Seu fim seria épico, ainda que excêntrico.

Tinha algumas ideias, mas eram apenas conceitos. Afinal, um dos únicos itens do sucinto regulamento do Darwin citava justamente o caráter acidental do óbito. Portanto, ele poderia no máximo planejar a situação que resultaria na conclusão de sua trajetória terrena, mas não o “gran finale” em si.

Foram anos e anos de testes práticos que envolviam desde a ingestão de quantidades absurdas de sorvete após seis xícaras de café quente até à prática de mergulho autônomo após se barbear com o facão de estimação do João dos cocos.

Nenhum ensaio, no entanto, o agradou como o que estava prestes a por em prática.

O sol, que há pouco saíra de trás do morro, projetava seu reflexo nos óculos exagerados das dondocas esculpidas a la Pitanguy. Era o grande dia do festival “Cross Fit in the Beach” que reuniria a nata da futilidade estética-esportiva potiguar nas proximidades do sopé de Bald’s Hill.

A camisa e a bandeira vermelhas de Norberto podiam ser vistas à centenas de metros de distância. Ele havia pedido a sua mãe que lavasse com aquele sabão que dá brilho extra e engomasse suficientemente bem para que a estrela branca e a sigla PT ficassem bem reluzentes.

E lá vinha Norberto. Marchando imponente e decidido com sua ornamentação suicida em maio à multidão cheirosa, brilhante e musculosa que odiava mais a heráldica representada em sua indumentária que a ausência de espelho em elevadores. Seu fim seria digno das grandes epopéias, se eles fossem escritas por Mel Brooks.

Dor. Dor. Dor. Mas, não havia agressão.

Nada de chutes, socos, arm-locks, voadoras ou gritos de “petralha bom é petralha morto”.

Triste. Norberto sofrera um infarto fulminante antes mesmo que a elite bronzeada pudesse notar sua presença ainda vivo.

O final é feliz, porém.

A descrição oficial da morte de Norberto ficou assim:

Norberto Cauam Pereira da Silva

“Morreu durante uma tentativa fracassada de conquistar o Prêmio Darwin. Portanto, conquistou, com honras e louros, o sonhado Prêmio Darwin”.