Vlad retro

~Aconteceu em Ponta Negra ~

Nada mal para uma despedida.

Os últimos vidros embaçados de suor em ebulição eram baixados, revelando casais com semblantes exaustos e satisfeitos. Enquanto os carros iam manobrando na ladeira de paralelepípedo ao lado do hotel e restaurante Manari — point obrigatório da elite perfeitinha potiguar -, Vladimyr recapitulava mentalmente o “The Best of” dos seus gloriosos dias de culto ao corpo. Queria aproveitar ao máximo cada fragmento de memória, como costumava fazer com os restos úmidos de Way Protein que ficavam grudados no fundo da coqueteleira, obrigando-o a tirar com o dedo para não desperdiçar nada.

Já podia sentir o teaser da aurora no horizonte. Os primeiros raios solares seriam responsáveis pela sua desintegração, fibra muscular, por fibra muscular. Não sobraria nem um pelo da barba bem delineada. Era melhor assim.

Apesar de nunca ter pedido para ser transformado em vampiro, Vladimyr tinha aproveitado bastante o lado bom da pseudo-imortalidade, levantando no supino reto 178kg de cada lado, mais uma instrutora de Spinning, 6 bolas de pilates e um iPhone.

A gringa do Pepper’s Hall era muito pálida e até um pouco flácida para o seu gosto. Porém, o importante é que ela se enquadrava em duas categorias praticamente inéditas no seu ranking pessoal de pegação: estrangeira e coroa. Foi justamente ela que sugou demais sua língua, a ponto de drenar todo o sangue do seu corpo, enquanto ele balbuciava “de… vol… va… meu wey”. Deu certo. Ou quase. Ela rasgou o próprio punho e fez com que ele bebesse.

Nas primeiras semanas, a impossibilidade e pegar sol foi o que mais o afligiu. O que ele faria com suas 17 sungas? E os Oakleys espelhados? A prancha de carregar debaixo do braço? Tantas jóias inutilizadas…

Procurou focar no lado bom, e logo foi descobrindo que compensava bastante. A capacidade de chamar a atenção da academia inteira era só uma das vantagens. Descobriu que regatas pretas salientavam ainda mais seus músculos. Que podia, através do poder de sugestão, convencer a funcionária do banco de sangue a separar pra ele as amostras dos atletas suspeitos de dopping. Também ficou bem feliz ao perceber que o morcego em que se transformava parecia mais um Condor dos Andes. Fazia 700 repetições de pula-corda em 4 segundos. Abria latas de Redbull com os dentes. Conquistava mulheres sem contrair os músculos. Contraindo também. Seu caixão era tunado.

As noites eram belas.

O sorriso aberto durou poucos segundos. E poucos segundos restavam para o fim. Queria partir com bons pensamentos, mas estes partiram antes, para dar lugar ao cruel flashback. Os sons nítidos e agradáveis das anilhas chocando-se contra as barras e o constante ronronar das esteiras elétricas formavam os acordes da marcha fúnebre. Via-se sorrindo, caminhando lentamente em direção ao espelho de melhor localização — ficava em frente o Banco Scott -, com o iPhone em mãos para uma selfie apoteótica pós levantamento de tudo. Os prós se esvaíram instantaneamente. Vampiro não tem reflexo.

Que saudade sentia do sol, pensou por uns 3 segundos, antes de se misturar à areia cinza próxima ao enrocamento da praia.