Pandora
Ele sente que a náusea começou depois do reencontro. Revolta, preguiça, desentendimento geral sobre a realidade, desânimo, apatia, como se finalmente compreendesse que sua luta está perdida e que sempre esteve do lado errado no campo de batalha. Com as infinitas realidades, era bem provável um reencontro, mas a sensação de que ele não deveria ter reencontrado C., foi a que mais se repetiu no ecoar do tempo.
Era uma noite quente de setembro e ele estava numa inquietação anormal. E graças ao intermédio de um amigo em comum houve o reencontro. Sem muitas cerimônias deram um beijo excitado na rua, fazia anos que não se viam, ele comprou algumas cervejas e a levou pra casa. Ele sabendo da efemeridade do encontro, ela se deixando usar, e depois do ápice, enquanto ele escrevia qualquer lixo no bloco de notas do Windows, ela massageava suas costas. Quando ela desapareceu, ele ainda cogitou revirar as praças e perguntar discretamente sobre ela a algum amigo. Só cogitou. No fim preferiu a segurança de casa.
Sempre precisou de alguém que lhe abrisse os olhos e agora C. tinha-os aberto para sua eterna mediocridade. “É um rapaz sem importância coletiva; é apenas um indivíduo”. Palavras impressas num livro que ele leu e que nunca terá com quem conversar sobre. Ele nunca teve foco para se especializar em algo que desse dinheiro e sempre inventa alguma ofício não lucrativo que aprende de forma espetacularmente mediana. Já agora, tem na cabeça a pífia ideia de ser escritor. Sim. Escritor. Ele, não sabendo nem as regras do seu idioma natal e morando num país que pouco lê. É um homem amaldiçoado por seus sonhos. Até que escreve algumas frases bonitas, mas é muito inconstante para ser excelente e muito esforçado para ser ruim. Mediano. Olhem de perto o que ele escreve nesse momento:
[…] E agora, pela janela imóvel, o vento tateia as cortinas, que vibram em tom de gargalhada.
E o vizinho briga com sua filha por conta do cachorro, eu penso que queria alguém para descontar minha cólera
Minha perna balança involuntariamente
“Agora, depois de velho, a gente pega uma porra de uma granada dessas”
Tive ataques de ansiedade o dia inteiro
“Ou essa porra vai embora ou eu vou”
Também estou parando de fumar, isso deve explicar alguma coisa
“Olha quantos buracos (no chão, pelo o que eu entendi) essa praga fez! Um, dois, três, quatro, cinco, seis…”
Não aguentei, pulei o muro do vizinho e roubei a cachorra.
Tive a impressão de ver o meu vizinho em pé, me vigiando pelos quadrados de vidro da porta de metal. Como se torcesse para que eu tirasse aquele animal de seu quintal.
E agora esse poodle preto está destruindo o interior da minha casa.
Eu nunca tive cachorro, mas sempre sonhei com aqueles cães que se comportam quase como humanos.
Não é o que vai acontecer agora, porque acabo de colocar ela pra dormir no fundo da minha piscina.
Preciso acordar cedo amanhã.
Mediano. E antes que alguém venha defender esse crápula, dizendo que estou extraindo uma parte fora de contexto blá-blá-blá… Digo isso, também, porque sei que ele vai parar por aí, esquecendo o arquivo na área de trabalho do seu computador, mas achando que, de alguma forma, foi produtivo. Coitado. Apesar do bom e extenso vocabulário que possui, já que seus pais são ricos e conseguem comprar livros desde muito cedo, não tem o dom da narrativa que hipnotiza e excita os leitores. É um eterno meia bomba em tudo que faz.
Em certa medida, não é o total responsável por esse eterno inferno astral. Em algum lugar da cidade, apesar de todos os tratores que reviram as ruas, está enterrado um bilhete.
Ela não tinha intenção de amaldiçoá-lo. No começo foi por puro ódio, após uma discussão torpe, escreveu com raiva e enterrou. Depois se arrependeu e quis desenterrar, mas não encontrou mais o papel, então pensou que se levasse o acontecido como piada o efeito seria anulado. Não contava que a terra que abraçava o papel tivesse sido molhada com chorume de fast-food e com o sangue de um pombo, parte interessante da história, que o próprio “pseudo escritor” tinha alvejado. Era tudo o que precisava para que a maldição urbana se efetivasse. Escrito com uma caneta bic azul, as letras marcavam o outro lado do papel devido a força da fúria momentânea.
F.
Tu és um megalomaníaco.
Nunca serás tão eloquente quanto os da torre de marfim
Nunca serás tão quente quanto o doce poeta
Nunca terás uma ereção com a mulher da tua vida
Nunca se materializará como em seus sonhos
Nunca se encontrarás no amor
Nunca se contentarás com a solidão
C.