Piora nas relações entre EUA e China leva à criação de uma nova “rota da seda”

Um dos maiores desafios para a China é a transição de uma economia essencialmente exportadora para uma economia mais voltada para o consumo interno. Isso tornaria o país menos vulnerável à guerra cambial entre a China e os Estados Unidos, de acordo com o professor Lanxin Xiang, professor de história internacional e política da Graduate Institute of International and Development Studies (IHED) em Genebra.

A aproximação da China e dos Estados Unidos data da década de 70, na época de Deng Xiaoping e Richard Nixon. No entanto, durante a administração Obama, os EUA passaram a ter uma postura mais incisiva na região do pacífico, piorando as relações com a China. O acordo de comércio Trans Pacífico (TPPA na sua sigla em inglês) não inclui a China, apesar de conter as principais economias da região do Oceano Pacífico. Tal postura levou a China a buscar direcionar sua política externa em direção ao ocidente, através de uma maior integração com a Ásia e a Europa. Hoje a relação entre China e EUA estão no pior nível desde a era Kissinger e a relação entre China e a Rússia está cada vez melhor, de acord com o professor Xiang.

Nesse sentido, a China propôs em 2013 a criação de uma nova rota da seda — o projeto One Belt, One Road — através da construção e melhoria da infraestrutura terrestre na Ásia Central e marítima no Oceano Índico. A ideia é ligar, através de ferrovias, a Turquia e a China e levar desenvolvimento às províncias ocidentais chinesas. Tais regiões ficam isoladas do resto do país, já que a atividade econômica é toda concentrada no oriente e o escoamento dos produtos é feito via Oceano Pacífico desde o período das grandes navegações no século XVI.

Vale ressaltar que a China não era simpática a acordos e projetos multilaterais entre países. Hoje é mais aberta a tais acordos e capitaneou a criação de instituições financeiras multilaterais para poder impulsionar o investimento na própria infraestrutura.

O país asiático capitaneou a criação do Asian Infraestructures Investment Bank, enfrentando a oposição dos EUA, mas com o apoio de países como Alemanha e Reino Unido. Também criou o Silk Road Fund, um Private Equity de 40 bilhões de dólares para impulsionar a estratégia “One Belt, One Road”. Por fim, vale ressaltar também o Banco dos Brics, que tem a China como seu grande patrocinador.

Viagem inaugural do trem que conecta o Afeganistão à China.

Um ponto de especial destaque é a relação entre Putin e Xi Jimping. O líder chinês entende a Rússia como uma economia complementar. Apesar das rusgas do passado e das disputas territoriais que persistiram mesmo durante o comunismo, a Rússia é uma grande exportadora de matéria prima necessária para a China. No sentido contrário flui produtos industrializados. Vale destacar também que a China não pode comprar armas de países ocidentais, tendo a Rússia como o principal e melhor fornecedor de material bélico. Um dos principais pontos negativos para o Ocidente da política externa americana para a Ásia foi o alinhamento da China e da Rússia.

As relações entre a China e o Japão e a Coréia do Sul são frias. Há um sentimento nacionalista crescente tanto na China quanto nesses países que leva a um afastamento mútuo. A relação da China com a América Latina é mais distante que a relação entre a China e os países africanos. A explicação se deve ao passado comunista revolucionário chinês, que impulsionou movimentos subversivos na África, permitindo um melhor conhecimento de tais países por parte da China.

Quando questionado sobre as eleições americanas, o professor disse preferir o candidato republicano Donald Trump à candidata Hilary Clinton. Na visão dele, Trump estaria mais disposto a negociar com a China que Hilary, que tem se mostrado dissimulada e até hostil quando foi secretária de estado na administração Barack Obama.

O professor Xiang é graduado pela Fundan University, em Xangai e é PhD pela Paul Nitze School of Advanced Internacional Studies, da Johns Hopkins University, além de outros títulos importantes na área de relações internacionais e política. Ele palestrou no seminário promovido pela fundação FHC sobre o governo de Xi Jimping. Eu também participei, a convite da fundação.