Como avaliar se um fundo de investimentos é bom: decompondo o Information Ratio

Alguns investidores me perguntaram o porquê de fundos de previdência que usam a estratégia multimercado terem uma volatilidade e eventuais perdas muito maiores que fundos multimercado macro similares. Vou tentar responder a essa indagação neste post.

Um critério importante para se avaliar fundos de gestão ativa, sejam fundos de ações ou fundos multimercado, é o information ratio. Quanto maior o valor deste índice, melhor.

Quando calculado ex post, o information ratio nada mais é do que a divisão da diferença entre o retorno do fundo de investimentos menos o retorno do benchmark pelo desvio padrão dessa diferença. A fórmula pode ser descrita desta forma:

Onde Rp é o retorno do portfolio (fundo), Ri é o retorno do índice (benchmark) e Sp-i é o desvio-padrão dessa diferença.

A parte mais interessante para o investidor é entender a decomposição desse índice em três fatores, também chamado de information ratio ex ante. O índice é o produto do transfer coefficient, information coefficient e a raiz quadrada do breadth.

Como o leitor pode observar, o Information Ratio é positivamente relacionado com cada um desses três elementos. Quanto maior cada um deles, maior o resultado final.

1 — Transfer coefficient

É um indicador das restrições do fundo. Quanto mais restrições tenha o fundo, menor o TC do fundo. Um fundo de previdência tem mais restrições, via de regra, que um fundo Multimercado Macro.

2 — Information coefficient

É um indicador da qualidade do gestor, de quem toma as decisões de investimento. O Luís Sthulberger, que está desde 1997 atuando como gestor do fundo Verde, provavelmente tem um IC maior que o da maioria dos gestores e outros profissionais de mercado financeiro que atuam no Brasil.

Quando um assessor de investimentos sugere uma alocação em um fundo ativo, ele provavelmente está pensando principalmente em aumentar o IC do portfólio do cliente, já que um gestor profissional é mais bem informado que um investidor amador.

3 — Breadth

É o número de “apostas” que o fundo faz. Um fundo Multimercado Macro pode operar em mais mercados e fazer mais apostas que um fundo de renda fixa ou um fundo que só faça alocação em ações. Isso não significa que o cliente não deva ter aplicações ações ou um fundo de renda fixa no seu portfólio. Mas significa que o investidor deve esperar que um fundo macro traga mais retornos que esses outros tipos de aplicação por permitir fazer mais apostas em mais mercados.

Aplicação do conceito: Adam Macro vs Adam Previdência

“Ok Felipe, mas como eu aplico essa teoria toda no meu portfólio? Qual a utilidade disso?” perguntaria o investidor amador.

Com um pouco de estudo do fundo que se pretende aplicar é possível comparar cada um desses elementos. Hoje no Brasil muitos gestores de fundos multimercado optaram por implementar suas estratégias em fundos de previdência. É o caso da gestora Verde AM, Adam, Ibiúna, Quest, dentre outras. Nesses casos, o gestor é o mesmo tanto no fundo macro quanto no fundo de previdência. Portanto, o information coefficient é igual em ambos os portfólios. O Breadth também tende a ser muito parecido, já que ambos portfólios são classificados como multimercado. Mas a diferença fundamental está no transfer coefficient.

Como os fundos de previdência possuem mais restrições em termos de regulação, o transfer coefficiente, via de regra, é menor que em fundos macro análogos. Um exemplo dessa diferença de information ratio se deu com a gestora Adam Capital. No dia da divulgação das acusações do dono da JBS contra o presidente Temer, o fundo de previdência teve uma perda muito maior que o fundo macro. (Ver foto abaixo. Dados da CVM/XP Investimentos.)

Adam Macro (azul) vs Adam Previdência (verde)

Dadas as limitações dos fundos de previdência, o gestor não conseguiu colocar todas as ferramentas de hedge (seguro) no fundo previdenciário, evidenciando uma pior relação de risco/retorno se comparado ao fundo macro.