Inflação e IPCA — como analisar

O mês de setembro teve a menor variação do índice de inflação — o Índice de Preços ao Consumidor Amplo — desde 1998 para o mês. Muitos amigos liberais comemoraram, atribuindo tal feito ao novo governo. 
Porém ainda é cedo para comemorar. Há certas particularidades entre os indicadores macroeconômicos que demandam uma análise mais cuidadosa. É comum ver certos equívocos de interpretação quando se trata de indicadores de inflação e desemprego. 
A inflação está diretamente relacionada ao tamanho da base monetária. De maneira geral, quanto menor o valor do dinheiro, maior a inflação. Não quero me estender em temas de teoria da moeda. No site do Instituto Mises existe bastante conteúdo que explica de maneira didática e detalhada os principais aspectos da teoria sobre a moeda. 
No Brasil o órgão responsável pela emissão de dinheiro é o Banco Central do Brasil. Cabe a ele também cuidar da inflação, por meio de mecanismos de política monetária — taxa de juros, taxa de depósito compulsório e taxa de redesconto bancário. Teoricamente a atuação do Banco Central do Brasil é independente da atuação do Poder Executivo, de modo que o único mérito de um presidente com relação à inflação é cumprir com seu papel legal deixando o Banco Central trabalhar de maneira independente. Portanto não há mérito nenhum, apenas demérito em casos de interferência política no Banco Central. 
O IPCA é um índice que procura mensurar a valorização ou desvalorização do dinheiro, através de pesquisa com amostras da variação de preços de alguns ativos com relação à moeda. Porém tal índice está sujeito a efeitos sazonais e à variação do valor dos próprios ativos em si. 
Se num determinado mês a safra de feijão é prejudicada pelas chuvas, então tal produto torna-se escasso e pressiona a inflação. Se, por outro lado, o setor agrícola consegue ser mais eficiente e entregar um feijão mais barato, o IPCA indicará uma variação menor da inflação, independente da variação do valor da moeda. 
A análise do índice só faz sentido se vista com uma certa distância, livre dos efeitos sazonais microeconômicos. Da mesma forma se há um reajuste maior de um determinado produto num mês, é de se esperar que no mês seguinte os preços se mantenham estáveis. Os salários, um insumo importante da economia, tendem a ser reajustados anualmente por conta de regras de indexação. Já a desvalorização da moeda impacta todo o conjunto de ativos de maneira persistente ao longo do tempo. 
Uma forma de mensurar, então, o valor do seu dinheiro, é observar séries do IPCA em períodos de doze meses. Então a pergunta correta é: a variação dos preços entre setembro de 2015 e setembro de 2016 foi menor que a variação entre os meses de agosto? E com relação a variação de setembro de 2014 e setembro de 2015?

As estatística podem ter vários significados a depender de como são analisadas e de como os dados são apresentados. Como diria Sir Winston Churchill, “eu só confio nas estatísticas que eu mesmo manipulo”.

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