10 dias em silêncio — minha experiência num retiro de meditação

imagine-se chegando num sítio com outras cem pessoas desconhecidas. passaria com elas os próximos 10 dias em completo silêncio, meditando em média 10 horas por dia, acordando às 4h da manhã, sem atividades físicas, sem poder ler, escutar música ou tocar um instrumento, nem mesmo escrever, alimentando-se pouco (o necessário), em isolamento total, sem contato com o mundo exterior.

“pra que diabos imaginar isso?” você pode pensar.

eu fui. e voltei há pouco. ainda meio zonzo com o bruto contraste de realidades. afinal, não sou nenhum monge. tenho uma vida bastante diferente (antagônica até) da que vivi naqueles dias. decidi contar um pouco dos aprendizados tirados desses dias, alguns casos , curiosidades e pra quem tem mais interesse no assunto, a parte de horários, normas, links sobre o tema e o que é a técnica.

“afinal, o que foi procurar lá? viajar quase 800km (ida e volta), mal fazer contato ocular com as pessoas e outras tantas restrições. onde encontrar motivação pra isso?”

bom, anos atrás conheci um camarada num churrasco. sabe o amigo de um amigo? era amigo desse. ele tinha acabado de voltar desse retiro e me contou sua experiência. mergulhei no assunto e seguimos num longo papo. desde então, fiquei com o tema na cabeça. anotei o nome do tal curso/retiro pra não esquecer: vipassana. quem sabe um dia…

hora e outra surgia aquela ideia maluca na cabeça. eu repensava, calculava: mas isso não faz sentido, é muito incomum. será!? de novo a inquietação chamava e inevitavelmente a ideia cresceu. decidi à serio reservar 10 dias e dedicar ao curso. pesquisei um monte sobre o tema, decidi a data e consegui fazer a inscrição (é concorrido, vai entender..). mas a hora chegou, estava agendado.

voltando à parte sobre chegar num sítio, tais normas etc.. dia zero: depois das formalidades de chegada, repassados os avisos, horários e o funcionamento geral do curso, todos são encaminhados pra sala de meditação (enorme) e apresentados à seus respectivos lugares. pouco mais de cem pessoas ali reunidas, inicia-se o silêncio. o próximo contato verbal seria após 10 dias. estava agora — mentalmente — por minha conta. foi ali que comecei a conviver à fundo com a companheira solidão (que concebi a mim mesmo). primeiras horas desconfiado, tateando, mas sem esperar nada, só observando. o mood geral não era dos melhores, acho que a turma toda também estava cabreira.

lá não se fala em dias de semana, mas dia 1, 2, 3 etc.. tudo começa na noite 0 e finaliza na manhã do dia 11. são dez dias inteiros, mais uns quebrados.

primeira noite e já descobri alguns novos desafios:

- um dos parceiros de quarto (éramos 3) era roncador master.

- eu tinha esquecido minha lanterna e blusa de frio no carro. (tava escuro e frio pacas).

- não tinha capa ou guarda-chuva. (os caminhos para refeitório e sala de meditação são abertos e distantes do quarto. chovia muito).

logo no dia 1, resolvi pular da cama e tomar banho. começar com determinação. quatro e pouco da matina e me surge um personagem na cuca (do nada. no estilo ‘anjinho e diabinho’ nas cabeças dos desenhos animados) com seus incessantes pitacos. seriam táticas da mente para operar livre em terceira pessoa? foi encorpando aos poucos (um tipo crítico, engraçado, observador, julgador, cara de pau pra toda obra) mas já nasceu batizado: ruthz-zera.

ali, no chuveiro, ruthz entrou em ação. já que tomar banho era estratégia pra começar forte, que fosse gelado, ao menos no minuto final, como costumo fazer (em horários decentes!). liguei a torneira fria e fui desligando a quente aos poucos, o tal maluco se apresentou: “vamo no roots, vai tê moleza aqui não!”. desliguei a água sacando o frio lá fora e a loucura que tinha acabado de fazer, fui congelando aos poucos. nenhum outro ser habitava o vestiário (quem se arriscaria assim logo na primeira manhã?) burro! esse era o modo ruthz de ser. o modo zueira, ou zera, se manifestaria em breve. a dupla se mostrou oportuna companhia. ruthz desbravando e zera distraindo a senhora máquina 7x24, a mente.

meus pensamentos foram invadidos logo nas primeiras tentativas de meditação. não que eu fosse completo novato na modalidade de sentar e ficar quieto. já praticava há um tempo, sem muita consistência ou técnica específica, mas sempre aqui e ali. no final de 2017, já com a inscrição feita, me propus a manter diariamente esse hábito. até pra já ir ensaiando, sabia que ficaria muitas horas ao longo daqueles dias. comecei com 20min toda manhã, fui acrescentando de 10 em 10min e cheguei a ficar um mês inteiro praticando 1 hora todo dia. mas quando chegou a hora, fail. não conseguia me manter por sequer 15 minutos na mesma posição (e almofada. levei meu zafu— presente da minha querida irmã) conforme eu estava acostumado. inquietação, cãibra, perrengue geral. fiquei assim, pelejando, até a tarde daquele dia, quando decidi me render à sala de almofadas e testar outras posições (desapega). já tinha ouvido depoimentos de pessoas comentando sobre a tal sala, com enorme acervo, vários tipos e formatos de almofadas. era possível pegar emprestado. à medida que o curso avançava, as almofadas iam sumindo, uma a uma até o fim, literal (é muito engraçado reparar a engenharia que a turma foi arrumando ao longo dos dias pra se manter estável. criatividade não faltou). zera: “lá vai, primeira de quantas almofadas?” não dei ouvidos, arranjei uma espuma rígida em formato de tijolo. seria bom colocar ali atrás do zafu só pra dar um apoio. foi um pouco melhor, mas não resolveu. frustração por não conseguir fluir na meditação e quase medo de pensar que ainda nem atingira um décimo do tempo total e eu mal conseguia parar no lugar.

deitei naquela segunda noite com toda a roupa de frio que eu tinha disponível: calça de moletom, meia, blusa de manga cumprida, virol (faz uma diferença que você não acredita!) e fleece. não adiantou muito, tava realmente frio. temperatura, primeira impressão e outras intempéries venceram o primeiro round.

no dia 2 acordei na friaca e ruthz não veio. fui direto pra sala de meditação, sem banho. visitei outras almofadas com zera na espreita e descolei outra arma. reparei discreto nas artimanhas alheias e concebi uma nova posição, ousada. encaixei! primeiro êxito. motivo de ostentação pra ruthz-zera, que logo sugeriu que eu estava montado num cavalo (a posição é bem semelhante). felipe, amigo dos cavalos. pretendia tratar aquele como meu fiel aliado. “olha lá aqueles míseros, vão à pé. estamos em vantagem”. ruthz-zera, mal sabendo que inimigos externos era o de menos por ali. tratava-se apenas de superação interior (pareciam se divertir apoiando-se na fraqueza dos outros pra se vangloriarem nas horas de bonança. e também em momentos de tormenta, pra se sentirem abatidos, mero coitados).

a chuva permanecia à toda. eu era dos poucos ali sem capa ou guarda-chuva. fui no banheiro, peguei um saco de lixo, daqueles grandes. furei um buraco calculando a região do rosto e me travesti de fantasma, dando prato cheio pra imaginação. eu ali embaixo do saco preto, percorrendo os caminhos entre dormitório — sala de meditação — refeitório enquanto a dulpa fazia a festa. não poder me comunicar e ainda ficar invisível durante os trajetos foi a maior onda, surgia todo tipo gozação. “além de possuir meu próprio cavalo, agora também sou invisível. essa guerra tá ganha”; “ali vai um pobre desarmado, coitado, passo triiiste.. “; “e aquele todo inquieto?.. quando acabar o silêncio vai explodir na falastragem”. avaliavam um a um.

o tempo frio não deu trégua e precisei falar com o professor assistente. expliquei que minha blusa e lanterna haviam ficado no carro. ele informou que não era permitido sair dos limites do curso (o estacionamento estava fora) mas que alunos antigos doavam roupas e outros itens, e eu poderia ficar à vontade pra visitar a sala e pegar emprestado o que quisesse. aceitei e levei um xale e uma daquelas blusas de vovô, de lã.

matei dois coelhos nesse dia: a postura na meditação e o frio. continuava pegando carona na luz (da lanterna) dos outros, mas já estava me adaptando ao terreno. me sentia ainda muito disperso na prática, e exausto. a dificuldade pra dormir era tremenda. ao fator ronco, foi somado a umidade por causa da chuva. sentia que o colchão, daqueles finos, de sentir o estrado da cama, estava molhado (exageraaado). mais uma vez dormi com toda roupa que levara, além agora da blusa de lã, cobrindo os pés.

acordei dia 3 meio baqueado. fui, ainda trôpego, para sala de meditação e topei com uma cobra no caminho. daquelas prateadas, longas e finas (sei lá o nome). gelei e deixei que ela passasse no seu ritmo, segui no meu.

calculando as perdas e ganhos até o momento, o balanço não estava positivo. aprenderia de formas diversas durante todo o curso que isso não é motivo pra abatimento. mas ali, diante do desafio de levantar na madruga, com o tempo frio, sem concentração pra meditar (a cabeça vagara a noite toda), não via como aquilo poderia estar funcionando. o dia correu assim, lento e sem progressos. outros combatentes devem ter sentido o mesmo. houve duas baixas naquela noite, menos dois no barco. realmente o dia três é muito forte, desafiador. um dos caras que deixou o grupo parecia não se conformar em ir sozinho, esperava desestabilizar os outros e de repente descolar uma companhia. disse alto, enquanto recolhia suas coisas, pouco antes de sair: “vou ali comer um bife acebolado!” (a comida lá era vegetariana, ou vegana + leite). cambalhotas nas internas. segue o jogo!

quem tivesse alguma dúvida podia solicitar uma entrevista particular com o professor. percebi que a lista nesses primeiros dias só crescia. imaginei que aquela parecia mesmo uma boa oportunidade pra falar com alguém. sei lá, inventar uma dúvida pra dar uma desabafada, ouvir um incentivo. o silêncio era co(nfo)rtante. só observei.

dia quatro, a chuva cessou. nada de sol ainda, mas pelo menos o fantasminha do saco de lixo podia sair de cena. o espírito brincalhão se manteve, quase me jogando pro buraco algumas vezes. em momentos importantes de concentração na sala de meditação o diabinho vinha à tona. “ihh o cabra atrás montou na garupa. e parece estar de espora. segura filho, esse cavalinho não guenta dois não.” piadinhas desse tipo e mil outras distrações eram agora desculpas para desconcentração, e a meditação não encaixava. de olhos fechados, montado no cavalo, num quadrado de 0,75x0,75m, me senti meio perdido. à minha frente, mesmo com toda a chuva e caminhadas de um local a outro, um camarada insistia em usar a mesma roupa, dia após dia (e acredite, seguiria assim até o final!) não posso dizer que o cheiro estava de todo agradável; do companheiro de trás (o da garupa), surgiam diversos efeitos sonoros, barulhinhos com a boca, arrotinhos e longas respiradas; por dentro, festa! risadas (presas) foram inevitáveis, por vezes indomáveis. confesso que cooperei para a agitação do ambiente. plenitude zero no salão. nesse cenário, aprenderíamos a técnica vipassana em si. até então vínhamos praticando anapana, que basicamente é a observação atenta da respiração. imagine três dias e meio (durante dez horas ou mais ) só observando ar entrando, ar saindo…

quando enfim foi ensinada a base de todo o trabalho que faríamos nos próximos seis dias, um novo baque: já tinha lido sobre a tal técnica num livro anos antes (com outro nome e algumas variações). era super simples, porém requeria foco, atenção e muita paciência. havia praticado algumas vezes na época mas não persisti. rolou um desgosto e quebra de expectativa por descobrir que a técnica não era novidade nenhuma pra mim. ensaiei tanto, simplesmente pra ser apresentado à algo que eu já conhecia(e abortara)? mas agora eu teria a oportunidade certa para praticar, num ambiente super propício, pensei. não vi outra saída se não entrar de all in. e mais, era a segunda vez na vida que estava diante daquilo. seria ilógico não dar atenção devida e uma boa chance à técnica.

acordei determinado no dia 5, o sol veio comigo (here comes the sun na cabeça). dali em diante tudo melhoraria bastante. os constantes altos e baixos se manteriam, claro, mas o ritmo já era bem melhor. concentrei muito e entendi na prática o lance da equanimidade. agora, quando estava na baixa, por exemplo, já me sentia mais animado que na alta dos primeiros dias. a barra tava subindo. tratei de aproveitar cada instante, sem amaciar. trabalhei forte, o quanto pude (retiro de meditação não é spa, acredite!). usei o tempo com inteligência. nas meditações mais longas, quando alcançavam até duas horas e meia, eu trabalhava uma hora, levantava e caminhava 15 minutos e voltava pra fechar a sessão. esse intervalo se mostrou essencial pro corpo e mente. calculava os minutos pelos relógios que haviam na parede do banheiro e próximo ao quadro de horários (confira no final). nem relógio eu tinha levado.

nesse dia foi inserido um novo conceito: adhiṭṭhāna, ou determinação consciente. consiste em ficar imóvel durante a meditação. agora, ao menos três vezes por dia, precisaríamos nos comprometer a ficar plantados, sem mover nenhuma parte do corpo, durante uma hora inteira. exige um grande esforço e melhora o entendimento de impermanência das coisas. dor, aconchego ou o que quer que surja durante a meditação são inconstantes, não duram por muito tempo. é preciso permanecer equânime, no papel de observador, sem reagir com aversão ou avidez. pera aí: “se tem um ser observador e outro sendo observado, quem é quem afinal?” é meio louco, mas com a prática vem a assimilação.

no dia 6, solicitei um papo com o professor, a tal entrevista particular. precisava falar sobre o fato de eu não conseguir dormir. ele disse que quando meditamos por muitas horas, não precisamos necessariamente apagar, só fechar os olhos e praticar anapana. assim, corpo e mente descansam. fiquei convencido e experimentei, propriamente. durante o dia me sentia renovado. não às 4 da matina, mas por volta de 8h já estava à todo vapor. é preciso dizer que pelas 21h eu já estava completamente exausto de novo. a última sessão de meditação de cada dia era penosa, requeria um esforço excepcional. depois ia pra cama e… (meditava mais algumas horas). fui assim até o fim, dormindo poucas horas por noite, umas três ou quatro.

me chamou atenção a falta de sonhos, pra minha decepção. há bastante tempo sou admirador desses. registro-os regularmente. dediquei um bom tempo da vida aos estudos de sonhos lúcidos e interpretação. depois que comecei a meditar com mais frequência, a qualidade e clareza dos meus sonhos melhorou radicalmente, inclusive dando um grande incentivo pra eu continuar nessa busca. suspeitei que lá seria o paraíso nesse sentido. não foi, mas depois que voltei.. esse assunto daria um livro, facilmente. melhor parar por aqui.

continuei praticando com afinco e aprimorando a técnica. tive sessões hipnotizantes, que eu saia da sala de meditação com os sentidos tão aflorados que a natureza parecia gritar, saltava aos olhos, uma coisa linda. fui ficando mais atento aos detalhes, andando mais lentamente. não havia motivo pra pressa. a simplicidade das coisas me encantava cada dia mais. via magia em todo lugar, no básico. desde a estradinha de pedras até o canto dos bichos (e insetos) à noite, no mato. o calor do sol batendo na pele, o céu repleto de estrelas. presenciava uma legítima paz (quando se enxerga a beleza no simples, tudo fica lindo). não havia o que parecesse errado ou fora do lugar. o ritmo quem dá é a natureza e eu estava integrado e de total acordo com a cadência, só admirava. isso tudo pode soar bobagem, mais um clichê, repetitivo. e realmente é, porque quem experimenta esse estado, nessa intensidade, procura transmiti-lo de alguma forma. há um desejo enorme de traduzir esse sentimento em palavras, passar adiante. mas não há meios viáveis, apenas tentativas. nesses momentos não existe distorções da mente ou ego. talvez tenha muito disso, a ausência completa do ego, um lampejo de compreensão do todo, da simplicidade que é a vida. não há mistério ou segredo algum. fica claro que o ‘aqui e agora’ realmente é o que existe, nada mais. vivenciava essas sensações maravilhosas, mas como tudo na vida, fugazes. lembrei de jack kerouac e sua eterna busca pelo retrato dessa realidade inconstante. da sua febre pelo que é divino, natural. e da loucura que hora e outra lhe acometia, pela falta de onde apoiar- se.

várias ideias, histórias, lembranças das pessoas queridas, coincidências surreais e outras gracejos surgiam na mente pra em seguida irem embora. senti sensações que nunca havia imaginado existir e muitas provavelmente não voltarei a fruir. varias vezes fiquei pesaroso por não poder registrar, talvez por isso faço agora. às vezes, sentia meu corpo como um céu em noite de verão, completamente estrelado e sem moldura. cada sensação era uma estrela e o todo, infinito. senti-me desfazendo e recompondo, desintegrando, petrificando. testemunhei luzes, sentimentos diversos. vivi intensamente, no interior e além da casca. estava completamente sozinho e à salvo. não havia com quem dividir tamanha beleza e dor.

com os inconvenientes surgindo e sem o diálogo pra tentar reverter qualquer situação, fui aprendendo a não permitir que nada atrapalhasse minha experiência. chuva, frio, desconforto, fome, exaustão, sono e até ronco alheio deveriam ser tratados como meros antagonistas. não havia mesmo espaço para inimigos externos. afinal, está tudo em nossa capacidade de transformar os obstáculos em aprendizado.

de fato. o silêncio, a comida e o tempo me ensinaram muito.

o silêncio me ajudou a encontrar alternativas dentro de mim. se não conseguia dormir por algum barulho ao entorno, que eu desenvolvesse uma técnica pra ao menos descansar. seria ingênuo tentar eliminar o incômodo ou simplesmente desejar que aliviasse. uma das primeiras sugestões, by ruthz-zera: “bixo, balança a cama do roncador!”

sobre a comida, outro grande desafio (nessa vida, cada um com suas pelejas!). somente de uns quatro anos pra cá, graças principalmente à convivência diária com minha querida companheira (que se alimenta com uma determinação exemplar) passei a explorar uma alimentação mais saudável. ainda longe do ideal (me faltava coragem pra experimentar certos tipos de alimentos) mas já tinha avançado bastante em relação ao passado quando ainda resistia no básico: feijão, arroz, bife e batata frita (tá bom, uma salada aqui e ali mas nada demais). aliás, comeria qualquer coisa, desde que estivesse devidamente empanada e frita. é preciso equilibrar a balança, alguns itens do velho cardápio persistem (a preferência ainda mora no boteco) mas há muita beleza e vida nas novas cores.

lá no retiro, de um certo dia pra frente (acho que sétimo) me propus a comer absolutamente tudo que fosse apresentado em cada refeição, sem restrições. ao menos uma porção pequena de cada iguaria. passei a utilizar a técnica além da meditação, me desafiando no refeitório. fui descobrindo as manhas da mente pra escapar de problemas que ela mesmo cria e decidi desmistificar um a um. a estratégia foi a seguinte: dava uma garfada numa porção de um alimento que jamais comeria antes (muitos não consegui nem decifrar), fechava os olhos e mastigava, prestando muita atenção às sensações. percebia uma palpitação, a boca enchendo de saliva, a garganta fechando, aquela cara de poucos amigos.. tudo em modo automático (condicionamentos da mente). repetia o processo bem lentamente, demorando com cada alimento dentro da boca, tentando neutralizar essas reações grosseiras. avançava para um plano mais sutil e identificava outras sensações. outra garfada, e de novo, até perceber que estava comendo qualquer coisa sem esses vícios, sem rejeição inconsciente, apenas explorando mais uma possibilidade.

outro ganho importante: melhor percepção sobre tempo. depois de uma jornada dessas, fica-se mais atento pra reconhecer o que de fato é tempo de qualidade! pra reflexão: ‘onde e com quem você emprega seus esforços?’ além do plano físico. sabe aqueles loops mentais, diálogos internos, visitas frequentes à diálogos passados que por vezes ficamos envoltos? talvez seja o maior desperdício de tempo e consumidor de energia. o trabalho pra eliminá-los é constante mas quando nos vemos livres é o famoso ‘tirar o peso das costas’, a vida fica leve. a cabeça desanuvia e podemos pensar em coisas que nos interessa e dedicar nosso bem mais precioso ao que realmente nos importa.

além dessas, várias outras experiências marcaram minha passagem no retiro. algumas:

. pouco depois que o nobre silêncio foi rompido, um dos caras que estava na nossa ala veio falando: “alguém percebeu que um cara esteve com a mesma roupa todos os dias?” sim, respondi. (como esquecer o trabalho que me deu o camarada que meditava na minha frente?) “então, ele é da argentina e teve sua mochila roubada horas antes de vir pro curso.” senti aquela porrada ino estômago (ahh.. os pré julgamentos). se tava difícil pra mim, imagina pra ele? fizemos uma vaquinha geral pra aliviar sua situação. ele já tinha passagem de volta comprada e por sorte um dos alunos era dono de um hostel no rio de janeiro, de onde ele sairia daí a dois dias. menos mal..

. fui descobrir, só lá pro oitavo dia, que um dos caras que dividia o quarto comigo era gringo. mais de sete dias convivendo juntos, mas sem comunicação alguma. não houve o que diferenciasse a nacionalidade. a raça é a mesma: seres humanos. descobri ao ver ele saindo de uma sala onde o curso era ministrado em outra língua. isso foi muito louco na minha cabeça, desencadeou uma série de pensamentos relacionados a conceitos e pré conceitos. no fim conheci melhor o sujeito, um colombiano super animado! rimos uma tonelada juntos…

. durante todo o curso, um sujeito incomodava geral. foi o antagonista perfeito. era preciso muito trabalho pra ignorar suas atitudes. não podia falar, mas dançou, bocejou alto, chorou horrores e arrotou o quanto pode em todos os lugares e chegou até a tirar a camisa dentro da sala de meditação. foi chamado atenção várias vezes pelo professor assistente. ninguém acreditava que com aquele perfil ele seguiria por muito tempo no curso. ao final, descobriu-se que ele era hiperativo, num grau altíssimo. se tínhamos dificuldade pra nos concentrar e avançar na técnica, pra esse a parada ainda era mais hard. (olha os julgamentos de novo!)

. teve outro argentino fazendo o curso e servindo voluntariamente (na cozinha) repetidas vezes, na sequência. já era a sexta rodada do camarada. todos achando super pesado fazer um curso de 10 dias, o cara já estava ali há meses. não só porque estava querendo aprimorar na técnica; não tinha grana pra seguir seu mochilão e encontrara abrigo ali. presenteei o hermano com minha camiseta ‘just breathe’, que usei simbolicamente no último dia.

. no final, trocando ideias e conhecendo um pouco das pessoas e suas experiências particulares, várias disseram ter tido lembranças vívidas de infância, memórias enterradas. durante a meditação, ao passo que iam penetrando camadas mais profundas do subconsciente, essas imagens surgiam. tive uma infância muito rica, a maior parte do tempo na rua, descalço, com primos e amigos, da maneira mais natural e analógica possível, sem muito videogame ou telas digitais. também tive vontade de resgatar algumas memórias perdidas, não me ocorreram lá. mas, desde que voltei, como no caso dos sonhos, tenho tido diversas lembranças apuradas, lapsos à partir de gatilhos de sabores, sons ou aromas. muito louco como, ao acessar o chamado inconsciente, resgatamos essas memórias e trazemos luz à outras áreas do cérebro. outro ganho enorme!

a maioria dos participantes se emocionou muito durante o curso. quase todos que conversei choraram (muito) em algum momento. o caso mais legal foi do meu carona, o cara da garupa. quando anunciaram o tal adhiṭṭhāna, onde precisaríamos manter a postura ereta durante uma hora, o sujeito congelou. meditar já estava sendo uma grande novidade pra ele, quando foi somado esse desafio ele determinou que seguiria o plano. primeiras tentativas e nada, acabava mudando a posição, bem suave pra não desconcentrar a turma, que agora também já estava num outro patamar (o progresso geral é nítido no decorrer do curso). cada dia, ele tinha três oportunidades pra vencer aquele obstáculo. o tempo já estava esgotando (nada de sucesso ainda) quando numa das sessões ele resolveu que ficaria cravado na posição (custasse o que custasse). “pela minha filha de 3 anos, senhor. agora vai” ele contou emocionado. os minutos passavam e a única referência que tínhamos era um cântico que se iniciava faltando 5 min pra fechar cada sessão. ele já não aguentava mais, nada da voz do goenka (o professor indiano que resgatou a técnica vipassana — escutávamos diariamente as gravações em áudio, tanto das palestrar, quanto das instruções e cânticos). “me perdoa senhor, ainda não vai ser dessa vez. não aguento mais, de verdade.” pensou, já quase trocando a posição. eis que a esperada voz invade o salão. “meu irmão, uma força brotou dentro de mim. não sei de onde, mas ganhei um poder absurdo aquela hora. travei o corpo onde estava, apertava forte as mãos e os olhos e só rezava praquilo tudo acabar. 5 minutos pareceu uma eternidade mas na hora que acabou (sadhu, sadhu, sadhu — quem já fez vipassana entenderá), a lágrima corria no rosto. senti uma felicidade de outro mundo, estava encharcado, de alma lavada”. a turma que teve o privilégio de ouvir isso naquele último dia sabe a intensidade do momento. ríamos feito criança, com olhos marejados pela comoção da história e por nos reconhecer naquela mesma situação.

pra finalizar, foi feito um mutirão pra deixar o centro como havíamos recebido: limpo, organizado e preparado pra receber a nova turma, que chegaria ainda naquela semana. foram formados grupos, onde cada um seria responsável por um setor no sítio. fiquei com a turma do salão de meditação e sala de almofadas. boa oportunidade pra despedir daquele espaço, tão físico quanto qualquer outro, mas que ser tonara mágico naqueles últimos dias. ruthz-zera na espreita para um confere na sala de almofadas, que estava totalmente vazia, e aos poucos, ia sendo preenchida novamente, completamente.

durante toda a estada cada um fazia sua parte, desde limpar o banheiro até lavar os pratos. tudo era auto gerido pelos próprios alunos, à consciência de cada um. interessante observar o caos do início se arranjando com o crescente envolvimento das pessoas nessas faxinas, feitas nos horários de descanso.

antes de ir, pensava sobre o que gostaria de conquistar fazendo esse curso. entre outros, me vinha o desejo de resgatar a essência, de ouvir claramente aquele eu que nasce com a gente e nunca nos abandona (apenas se ofusca). ansiava lustrar o cerne, alcançar a autenticidade natural, a raíz da minha identidade pessoal. incrível como podemos alterar nosso comportamento, aprender novas habilidades, refinar outras já existentes, desapegar de alguns hábitos e lá no âmago reencontrar aquele sujeito de impressões digitais únicas no mundo, com seus próprios defeitos e qualidades. ruthz-zera me mostrou muito dessa essência. diversão, não importa os trancos e barrancos. leveza sempre foi valor fundamental na minha vida. me diverti de verdade com essas engrenagens da mente. foi uma experiência realmente intensa, inimaginável tudo que viveria naqueles dez dias.

mas afinal, para que participar de um curso desse?

além dos ensinamentos, alcance de estados que dificilmente se acessa, lidar com desconforto, transpor dificuldades, se ver livre de qualquer apego, viver momentos inesquecíveis de amor puro, de simplicidade extrema, de humildade raíz, oportunidade pra rever e reforçar os valores pessoais.. além da busca por: auto conhecimento, expansão de consciência, desejo de olhar a vida por outro ângulo, conhecer-se melhor, tornar-se um pouco melhor? sinceramente não sei. mas tenho que admitir, sabia que nada disso duraria mais do que deveria. logo a neblina encobriria aquele céu, somente para depois voltar a abrir e mudar, mudar, sempre! como na canção de george harrison “all things must pass”.

vejo que todo desconforto parece agora coisa à toa. mas foi preciso viver na prática para chegar a esse desfecho e enfim transformar a experiência em conhecimento implícito, como uma cicatriz.

fecho aqui esse capítulo agradecendo a todos que estiveram no dhama santi em miguel pereira — rj entre os dias 07 e 18/03/2018, principalmente os servidores que tornaram nossa experiência a mais confortável possível.

*certas palavras no texto foram marcadas com links externos para ilustrar e contextualizar melhor algumas passagens. basta clicar em cima dessas palavras sublinhadas pra seguir as referências.

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o quadro de horários do vipassana era assim:

4:00 // sino para despertar
4:30–6:30 // meditação na sala de meditação ou em seu quarto
6:30–8:00 // café da manhã
8:00–9:00 // sessão de meditação em grupo na sala de meditação
9:00–11:00 // meditação na sala de meditação ou em seu quarto segundo instruções do professor
11:00–12:00 // intervalo almoço
12:00–13:00 // descanso e entrevistas com o professor
13:00–14:30 // meditação na sala de meditação ou em seu quarto
14:30–15:30 // sessão de meditação em grupo na sala de meditação
15:30–17:00 // meditação na sala de meditação ou em seu quarto segundo instruções do professor
17:00–18:00 // pausa para o chá
18:00–19:00 // sessão de meditação em grupo na sala de meditação
19:00–20:15 // palestra do professor na sala de meditação
20:15–21:00 // sessão de meditação em grupo na sala de meditação
21:00–21:30 // horário para perguntas na sala de meditação
21:30 // hora de se recolher– apagam-se as luzes

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mais alguns causos, agora sobre design de camisetas (uma das minhas atividades). tenho uma marca de camisetas conceituais (Volver) com meu irmão, desde 2009. empreendimento de uma vida inteira:

· no dia 9 à noite, um dos companheiros de quarto quebrou o silêncio comigo (culpa do gustavo ziller). eu estava vestindo a camiseta aconcágua, elaborada para o projeto 7 cumes, quando o ouço uma voz: você já escalou o cume? tentei não dar moral mas ele insistiu, respondi seco que ainda não. trocamos mais umas palavras e pedi pra ele segurar até o dia seguinte. faltava pouco pro final e logo poderíamos trocar ideia.

· essa mesma camiseta me fez conhecer o tal carlos, argentino, que citei lá em cima. logo na chegada, dia zero, ele me chamou pra sentar do lado dele e comentou que nascera perto de mendoza. também perguntou se eu já tinha escalado o aconcágua e desenrolamos um papo.

· quando foi quebrado o nobre silêncio, várias pessoas (umas 5 ou 6) comentaram que repararam nas camisetas que eu tinha usado. que gostaram dessa ou daquela (e lembravam o tema) sem ter nem ideia de que eram todas da volver, elaboradas pela nossa empresa.

· quando conversando sobre a atividade de cada um e eu falava sobre as camisetas, vários ressaltavam as estampas. tinha gente de floripa, brasília, curitiba, bh, são paulo, argentina, noruega, colômbia, rio de janeiro (a maioria).. pessoas de vários backgrounds diferentes destacando as camisetas. isso reforçou minha convicção de pensá-las como mensageiras (e que bom que eram notórias!). talvez a gente faça alguma sobre o tema vipassana.

· conheci um camarada, contador de causos, sessenta e poucos anos que vestiu (num dia de silêncio) uma camiseta com os dizeres: ‘im not old. im a recycled teenager’. comentei que tinha curtido. ele disse que comprara na califórnia, que seu filho mora e trabalha no vale do silício “é desses loucos aí.. da área de t.i, o maior nerd.” e ia todo ano visitá-lo. perguntei, entre várias coisas, como ele tinha ido parar ali: disse que é trilheiro de final de semana. que gosta de andar no mato, mpra por perto e um dia, olhando o google maps viu uma construção no meio do nada. não tinha percurso planejado praquele dia e resolveu ir lá ver. o local estava em reforma e perguntou o que funcionava ali. “um curso de meditação? interessante, bota meu nome aí pra próxima turma.” explicaram tudo, ele insistiu que queria participar e ali estava, no último dia, dando seu depoimento. nem pra ele tinha sido fácil, fez analogias e contou suas histórias da época de exército. foi todo preparado. sujeito descomplicado (e prevenido), curtidor da vida. ele disse: camiseta era o único meio de nos comunicar, de passar uma mensagem. disse que tinha levado aquela de propósito. sujeito espirituoso, muito bacana.

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pra quem quiser conhecer mais sobre a meditação vipassana e outros cursos: https://www.dhamma.org/

não é uma prática espiritual, mística ou algo relacionado à religião. é ciência, autoconhecimento através da prática de uma técnica específica muito simples. segue um vídeo legal sobre meditação vipassana, neurociência e estados emocionais: https://www.youtube.com/watch?v=urm9n8m6hd4

se eu fosse gravar um depoimento sobre minha experiência pessoal, certamente repetiria muito do que foi dito nesses:

https://www.youtube.com/watch?v=j5mvfjgiiqw (grande renato! já o acompanho há uns dois anos e tive o prazer de bater um papo com ele antes de ir pro retiro. ele tem uma visão de mundo bem parecida com a minha e tem cursos on e offline incríveis. vale a pena conhecer melhor seu trabalho com o hacklife. brigado pelo suporte velho!)

https://www.youtube.com/watch?v=skqbtp7x_vo (só assisti esse vídeo dele. me identifiquei com a percepção.)

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