A linguagem como arma na guerra cultural

N. C. Wyeth, “The death of Arthur and Mordred” (1922)

Palavras têm poder. Elas podem nos conduzir a lugares fantásticos, ajudar a construir imagens, transmitir experiências e determinar, de certa forma, o alcance da nossa visão de mundo. Elas podem ser utilizadas como portais para universos alternativos, chaves para o elevado mundo das idéias, ou instrumentos de controle e manipulação. Não à toa, as ideologias revolucionárias e regimes opressivos concentraram, ao longo da história, um grande esforço em torno da linguagem — especialmente em comunicação, educação e artes — ou para fazer avançar seus objetivos, ou para manter o status quo.

Um exemplo literário de como isso acontece pode ser visto na obra “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell. Após elencar os mandamentos de sua revolução, os porcos Napoleão e Bola-de-Neve condensam os postulados de sua revolta em uma sentença bastante simples: “Quatro patas bom, duas patas ruim”. Esse slogan era repetido ad nauseam pelos animais menos inteligentes da fazenda, especialmente as ovelhas, e servia como um excelente elemento de aglutinação dos bichos. À medida que os porcos se tornavam cada vez mais parecidos com seus inimigos, os humanos, o slogan mudou para que pudessem se justificar diante dos outros animais: “Quatro patas bom, duas patas melhor”.

Justamente por serem reconhecidas como dotadas de um poder peculiar, as palavras são objeto de disputa. Essa disputa pode tomar formas variadas dependendo do contexto em que se vive, e, portanto, não apresenta uma forma rígida; todavia, sempre há de girar em torno da formulação (ou alteração) de conceitos junto à sociedade como um todo. No caso brasileiro, essa disputa se apresenta em duas frentes: primeira, a reivindicação de exclusividade sobre alguns conceitos sócio-políticos, investindo-os de um caráter ideológico que, originalmente, não possuem; segunda, a descaracterização de conceitos que são fundamentais aos adversários ideológicos. Os termos “justiça social” e “conservador”, respectivamente, ajudam-nos a ver com mais clareza como isso acontece.

A expressão “justiça social” é abundante no linguajar de grupos e movimentos de caráter revolucionário — ou, no dizer deles mesmos, “progressistas e de esquerda”. Na construção do discurso progressista, está sempre presente a idéia de que vivemos em um modelo de sociedade irremediavelmente injusto (capitalismo), que aprofunda a pobreza dos pobres e agiganta a riqueza dos ricos em uma lógica perversa a se perpetuar num ciclo vicioso. Por ser intrinsecamente perverso, esse sistema não pode ser reformado ou incrementado. A única maneira, portanto, de erradicar a injustiça social é através da destruição do modelo de sociedade que a sustenta. Destruindo esse modelo de sociedade, um outro mundo poderá ser construído, e uma de suas características marcantes é a justiça social. Assim sendo, a justiça social só pode ser alcançada com a destruição progressista do capitalismo e, portanto, os inimigos progressistas do capitalismo estão em um patamar moral superior.

Por outro lado, o termo “conservador” parece não ter cores tão bonitas. Como adjetivo, “conservador” significa apenas alguém que quer conservar as coisas; como conceito político, “conservador” remete, grosso modo, a um indivíduo cujas convicções políticas encontram na preservação da tradição o seu ponto aglutinador. No entanto, uma bem-sucedida desconstrução do termo “conservador” fez com que, no contexto brasileiro, tivesse significado totalmente diverso. Sempre que alguém é rotulado de conservador por algum dos abundantes grupos progressistas, dentro ou fora do Estado, o que se quer dizer é que se trata de um sujeito preconceituoso, tacanho, embrutecido, racista, machista, ignorante e religiosamente fundamentalista. Quase se pode imaginar o conservador como uma criatura escamosa que vive nas profundezas da terra, espalha suas maldades nas sombras da noite e conspira, dia e noite, por transformar o mundo em um lugar pior. O próprio termo “conservador” se converteu em uma espécie de xingamento, uma ofensa que destrói instantaneamente a credibilidade da pessoa contra quem se lança, tornando-a indigna até mesmo de ser vista como um ser humano.

A desumanização pela imagem. Carlos Latuff, cartunista e ativista político de extrema-esquerda, trabalha com a representação visual do discurso de perversão do imaginário.

Aqueles que conseguem enxergar a baixeza do jogo de palavras na deformação de conceitos tendem a reagir quando essa terminologia adulterada é utilizada, sendo ou não conservadores. Mas essa reação nem sempre é ponderada, ou bem embasada. É justamente o que acontece com o termo “justiça social”.

O conceito de justiça social não é algo novo no Ocidente, e suas origens não poderiam ser mais avessas ao espírito que anima os grupos “progressistas e de esquerda”. Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica, diz que uma sociedade só pode ser justa quando nela se encontram três bases: a justiça comutativa, que ordena as relações entre os indivíduos; a justiça legal, que ordena as relações dos indivíduos com a comunidade; e a justiça distributiva, que ordena as relações da comunidade com cada um de seus membros. O que diferencia essas bases da justiça é a “coisa devida”. Mas o que pode a comunidade dever a um de seus indivíduos? O filósofo alemão Josef Pieper responde:

Porém, o que é devido à pessoa singular situada na esfera da justiça distributiva? Não é aquilo que com exclusividade lhe pertence, non id quod est proprium, mas a parte do que pertence a todos, id quod est commune. […]
Faz parte do condicionalismo político-espiritual do nosso tempo o facto de uma tal reacção nos deixar quase paralisados. A ideia de que haja um organismo responsável pelo bem comum apto a decidir por direito próprio o quê e quanto me pertence — esta ideia associa-se inevitavelmente à outra ideia da supressão dos direitos e escravidão da pessoa humana, enquanto, por outro lado, como única possibilidade que ainda restasse, se orientam as atenções para uma concepção de «democracia» que não deixa o mínimo lugar a uma autoridade autêntica, e com isso significa ou deixa antever de novo o domínio da força. Em presença desta alternativa nem mais nem menos que mortal, é absolutamente decisivo que se conheça e se concretize na sua verdadeira expressão o conceito de justiça distributiva. E neste conceito conciliam-se as duas coisas: a afirmação da verdadeira autoridade com o reconhecimento da pessoa singular, detentora de direitos invioláveis por parte do todo social.

A distorção do termo se encontra justamente no que “justiça social” realmente significa dentro da lógica progressista: “a sociedade tem a obrigação de se curvar aos meus caprichos”. Não se trata de uma responsabilidade objetiva da comunidade, representada pela autoridade constituída em direito, para com seus membros, mas a satisfação de egoísmos subjetivos. Ao esvaziar o termo “justiça social” de seu significado original e usá-lo como uma agradável camuflagem para puro egoísmo, o discurso progressista embasa boa parte de sua fundamentação numa perversão semântica e ideológica.

O termo foi usado tantas e tantas vezes por adeptos de ideologias revolucionárias e progressistas que há muitas pessoas no meio liberal e conservador que não suportam ouvi-lo: ao encontrá-lo em um artigo de opinião, ou num discurso, ou numa entrevista, consideram-no uma prova contundente de que quem o empregou é um revolucionário. Essa reação costuma ser instintiva, automática, e esse automatismo demonstra quão bem seqüestrado esse termo para ter sido. Isso é um sinal de capitulação ao discurso adversário, uma aceitação implícita de seus termos, o que inviabiliza uma reação ordenada e bem-sucedida.

Mas, como disse no começo, assim como as palavras podem aprisionar, elas também podem libertar. E podem, inclusive, fornecer remédios muito bons para se combater tanto a deformação de conceitos, quanto a reação desmedida a essa deformação. E não há outro princípio ativo para esse remédio que não seja a imaginação moral.