Uma Igreja que não tem salvação

Jean-Léon Gérôme, “A eminência parda” (detalhe, 1873)

Conversava esses dias com uma amiga a respeito da ignorância invencível. Explico rapidamente: para a doutrina católica, aqueles que morrem sem nunca ter professado a fé cristã por uma ignorância que não se pode contornar, mas que se esforçam por seguir os ditames da razão natural e buscam a Verdade com sinceridade, podem ser salvos. Acabamos conversando também a respeito de como a sobrecarga de informações hoje tem conduzido a uma confusão generalizada.

Uma das características dessa confusão generalizada é o afã por saber tudo sobre tudo, o que acaba nos impedindo de saber realmente qualquer coisa. Isso é muito visível em redes sociais, por exemplo. Quantas correntes de WhatsApp recebemos, e que nós mesmos passamos adiante, sem que haja nenhuma checagem de veracidade? É automático — o celular apita, a gente lê e, ato contínuo, encaminha para dezenas de amigos, conhecidos e familiares. A ironia dos mal-entendidos gerados por isso reside justamente na facilidade que temos hoje em conferir se as informações são mesmo verídicas.

Isso mostra um aspecto dos nossos tempos que tem se exacerbado: a credulidade. Se vemos em uma informação qualquer coisa que nos arranque a concordância, ou que se mostre minimamente acertada (por critérios completamente subjetivos e não-racionais), acreditamos que seja verdade. E essa credulidade não se mostra apenas no uso das redes sociais, em que as correntes e notícias falsas se espalham mais facilmente do que fogo em palha.

Um bom exemplo disso é o Papa Francisco. Sim, é verdade que a secretaria de imprensa do Vaticano tem tido bastante trabalho nos últimos anos — isso é ponto pacífico. No entanto, é igualmente verdade que muitas, muitas informações equivocadas a respeito do Santo Padre têm sido espalhadas aos quatro ventos por boa gente católica. Por quê? Ou porque Francisco não é o Papa que elas queriam, ou porque muitas das coisas ditas por ele em entrevistas não desceram bem, ou porque ele tem (em sua opinião) uma linguagem ambígua e pouco clara. Essa pré-disposição a desconfiar do Santo Padre é suficiente para dar crédito a notícias que, analisadas de maneira fria, não fariam o menor sentido — como o falso diálogo digno de dramalhão mexicano que o Papa Francisco teria tido com o Cardeal Gerhard Müller, antigo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, antes de demiti-lo.

Isso tem sido, aliás, bastante recorrente no seio da Igreja, mesmo entre pessoas muito eruditas e que, à sua maneira, têm se esforçado por viver a fé católica de maneira honesta. Basta a combinação entre uma má pré-disposição com relação a uma pessoa, paróquia ou movimento para que qualquer informação “bombástica” ou uma mera insinuação de revelação de “segredos ocultos” seja tomada como verdade. Não há verificação das informações, nem de quem as escreveu, nem de que tipo de relação tem com o objeto de sua análise, nada. O que essa atitude mostra não é tanto um esforço por compreender o mundo tal qual é, mas apenas uma busca irrefreada, mais ou menos inconsciente, por reforçar convicções pré-existentes.

Idolatria é cometida não apenas através da criação de falsos deuses, mas também através da criação de falsos demônios”, escreveu o grande Chesterton. E esse perigoso concerto entre curiosidade, credulidade e irredutibilidade tem feito multiplicar a quantidade de falsos demônios entre os católicos. Isso se manifesta na visão de que a Igreja é moldada e guiada apenas por tramóias urdidas nos bastidores, em intrigas palacianas dignas de Game of Thrones, em jogos de interesse e poder travados entre partidos eclesiásticos que usam de todos os meios à sua disposição para fazer crescer sua força sobre o timão da Barca de Cristo. Outras vezes, os cardeais são tomados como senhores feudais montando e desmontando alianças, cada bando trabalhando para guiar o Papa, um monarca decadente e confuso, no rumo que acha mais conveniente. E, nesse ínterim, podemos tomar para nós mesmos a missão de “salvar” a Igreja.

A Igreja militante padece de muitos dos pecados de seus filhos. Sempre foi assim, e não deixará de ser assim até a consumação dos tempos. Mas a Igreja militante, essa que está sobre a terra caminhando rumo ao Céu, é um pedaço pequeno da Igreja Católica. Todo católico deveria ter em mente que, sustentando-nos, está a Igreja triunfante — a Santíssima Trindade, a Virgem Maria, os anjos e a multidão inumerável de santos que serviram a Cristo com fidelidade. Isso deveria animar profundamente a todos os fiéis.

Cristo prometeu que a portas do inferno não prevaleceriam contra Sua Igreja. Que a Igreja Católica esteja ainda de pé, depois de tantos séculos e apesar de tantos erros de seus filhos, é prova cabal de que quem a sustenta é Cristo, não nós. Não se trata aqui de um fideísmo tosco e irracional, mas de confiança sobrenatural. E, para ter confiança sobrenatural, é preciso ter vida interior: fazer oração, freqüentar os sacramentos, examinar a própria consciência, combater o bom combate da conquista das virtudes.

Não podemos ter a pretensão de pensar que podemos salvar a Igreja. Ela já tem um Salvador. Que tal começarmos a imitá-Lo de verdade?