Debater monodissidência não é fácil

Bandeiras do orgulho pan e bi no ato Creating Change no Trump Hotel.

Caso você seja bi ou pan, você provavelmente já participou de pelo menos uma discussão sobre diferenças entre bi e pan.

Não vi apenas duas versões para essa discussão, foram várias, e parece nunca haver um fim, um consenso.

Resumidamente, a comunidade pan defende que a pansexualidade, e somente ela, significa atração por todos os gêneros. Já a comunidade bi defende que bissexualidade é a atração por dois ou mais gêneros, podendo também ser todos.

Dentro de debates sobre esse tema, vi algumas pessoas dizendo que bissexualidade é um termo guarda-chuva (e discordo desse ponto, isso está ultrapassado), outras dizendo que são pan e consequentemente bi por uma pertencer à outra ou por serem “a mesma coisa” (discordo dos motivos, mas é a identidade de cada um, então não cabe a mim opinar). Uma pessoa que conheci disse que bissexual é atração por apenas dois gêneros por causa do prefixo (mesmo que o prefixo ou a palavra em si fossem o mais importante, a língua é viva, e palavras podem mudar de forma e/ou significado). Você provavelmente também tem uma visão sobre esse ponto, seja um dos que citei ou não. A questão é que não parece haver uma única verdade, e isso me incomoda, mesmo que eu goste sempre de mais de uma opção. Primeiro vou explicar um pouco sobre pansexualidade.

Baseio-me em postagens, conversas e textos de pessoas pansexuais que presenciei. Eu não sou pan e não tenho propriedade para falar em nome da galera, mas posso passar a frente o que sei (correndo o risco de estar distorcendo ou esquecendo algo).

O anti-herói fictício Deadpool da Marvel é oficialmente pansexual.

Diferentemente do que muitas pessoas acreditam, pansexualidade não é “também gostar de pessoas trans", isso não tem nada a ver com pansexualidade. Homens trans são homens tanto quanto os cis, e mulheres trans são mulheres tanto quanto as cis. Então, quem gosta de homem, gosta de homem cis e trans, e quem gosta de mulher, gosta de cis e trans. O que define a pansexualidade é a atração por, além de homens e mulheres (cis ou trans), pessoas não-binárias, ou seja, cujo gênero não está no binário homem-mulher. Podendo ser agênero, gênero neutro, gênero fluido, bigênero e outros. Pansexuais se atraem por todos os gêneros (e pessoas panromânticas podem se apaixonar por pessoas de qualquer gênero), sejam eles binários (homem e mulher) ou não-binários (outros). Muitos costumam dizer que pan não distingue gênero, ou seja, pansexuais podem sentir atração por pessoas independentemente dos gêneros delas. Para alguns, tanto faz, para outros, não.

Mas então, se pansexuais sentem atração por todos os gêneros, e os bissexuais?

Definições simples de orientações sexuais pela página Assexualidade Brasil.

Não importa quem veio antes ou depois, bissexualidade um dia já significou atração por dois gêneros, e também já significou “pelo mesmo gênero e por outros". Atualmente bissexualidade significa atração por dois ou mais gêneros, independentemente do que qualquer pessoa pense.

“Ah, Felipe, mas por quê?”

Não sou eu quem está dizendo, é o mundo, são as pessoas, as comunidades bi internacionais e nacionais, os coletivos, os grupos, as páginas, os dicionários, todo mundo. Porém, desde que tive discussões com amigos pan por causa disso, parei de reivindicar e lutar por essa definição, para não machucar ninguém, porém trazê-la para cá é vital para esse debate. Não significa que todas as pessoas bi sentem atração por mais de dois gêneros, existem bis que só gostam de homem e mulher, outros não. Aliás, tenho um amigo que é bi, mas não sente muita atração por binários, então lembre-se: gostar de homem e mulher não é regra para bissexual. Mas se alguém bi se atrai só por homens e mulheres, tudo bem, não tem problema, você não está sendo preconceituoso ou binarista, é só sua atração, quem você é, sua identidade. Mas toda essa informação leva a muitas perguntas, e a que eu mais ouço/leio é:

“Mas se bissexual pode se atrair por homem, mulher e não-binário, qual é a diferença entre bi e pan?”

Bandeiras do orgulho bissexual e do orgulho pansexual cruzadas.

E essa pergunta é o motivo de eu estar escrevendo esse texto. Não existe uma resposta só, mas todos querem que só uma prevaleça. Eu só quero que as pessoas parem de se xingar e sofrer por causa disso. Tenho amigos que eram bi e se descobriram pan, outros que voltaram a ser bi depois de serem pan, outros indecisos. E isso me fez buscar por mais respostas e frases que me guiassem a entender melhor todos esses casos.

Vamos às diferentes respostas que já encontrei, e minha réplica com minha opinião pessoal sobre elas:

1. “Pessoas pan sentem atração por todos os gêneros, bi é só dois.”

Eu, Felipe, poderia concordar facilmente com essa frase se não houvesse pelo menos 200 pessoas (incluindo pessoas bissexuais não-binárias) que eu conheço + dicionários, livros, páginas e pessoas que simplesmente provam que têm atração por mais de dois gêneros e continuam sendo bi. Quem diz isso está sugerindo que são todos pansexuais no armário, incluindo eu? Não vejo um problema se for isso, é uma possibilidade mesmo, que também está presente na próxima resposta.

2. “Eu me descobri bi e lutei para me aceitar e me assumir como tal, não vou mudar minha identidade agora que conheço a palavra.”

Sério? Existe uma palavra específica para a atração que você sente, mas você prefere continuar em outra?

Tudo bem, não tem problema, eu também estou nessa. Não sou pan, e apesar de já terem me “acusado” de ser pan no armário (por sentir atração por gente não-binária), não consigo me imaginar mudando minha identidade. Os motivos? Na próxima resposta.

3. “Todo mundo sabe o que é bi, é mais fácil explicar, minha avó não sabe o que é pan.”

Tudo mundo mesmo? Eu duvido um pouco, mas vamos lá.

Poxa, que chato, imagina como deve ser para quem passa por isso e não pode contar com o fato de que a avó, a tia ou o pai vão entender simplesmente porque a pessoa é pan? Como será que é? O que você pode fazer sobre isso?

Se as pessoas à sua volta e/ou o mundo em geral não sabem o que é pansexualidade, se sua avó não sabe o que é pan, por que não explica a ela? Por que não faz o protagonista da sua ficção ser pan? Por que não compartilha no Facebook um cartaz de alguma página LGBTQIAP+ onde haja a definição de pan? Por que não lê o textão sobre panfobia que o amigo da tua amiga postou e apareceu no seu newsfeed?

Você não precisa ser pan para absolutamente nada disso. Se seu medo é falar que é pan e as pessoas não entenderem, tudo bem. Você continua sendo uma pessoa bi, ninguém vai cassar sua carteirinha, mas por que mesmo assim você não explica às pessoas o que é pan, mesmo você sendo bi? O que te custa? (se houver custo, tudo bem, você não precisa se por em perigo)

Mas sabe, a gente fica tão preocupado com “se isso acontecer comigo, vai ser um caos”, mas parece não mover um dedo para mudar as coisas para quem já está no caos. É possível, cara, mesmo fazendo bem pouco. Só de ouvir ou ler pessoas pan, já ajuda.

Quem sabe um dia, você se descobre pan e, graças ao seu apoio, as coisas ficaram mais fáceis para o seu lado também?

4. “Bi e pan são a mesma coisa, são só dois nomes diferentes para a mesma orientação"

Olha, você tem que ter mais do que coragem para afirmar isso. Gostaria que tivesse pelo menos fatos, alguma base ou alguma explicação sensata que não seja uma teoria de linguística.

Eu tenho noção de que existem muitas pessoas que são bi E pan, as duas identidades ao mesmo tempo. Isso acontece de várias formas. Algumas porque acreditam que as definições são iguais, então “dá no mesmo", outras porque acreditam no guarda-chuva bissexual, que colocaria bissexuais, pansexuais, polissexuais, pessoas heteroflexíveis, homoflexíveis e outras pessoas que se relacionam com mais de um gênero debaixo do “guarda-chuva” da bissexualidade, no que parece uma versão bem confusa da música da Rihanna.

Por que o guarda-chuva bi é uma falha?

Ele apaga identidades poli e pan, exatamente porque, mesmo que existam pessoas confortáveis em se identificarem com duas orientações sexuais, existem muitas outras que não, pessoas que simplesmente são pansexuais e não toleram ser chamadas de bi, até porque não são, e insistindo nisso você pode acabar sendo panfóbico.

5. “Pessoas não-binárias não têm leitura social, por isso não tem como saber quem é n-b e quem não é. Bi vai olhar e sentir atração, achando que é homem ou mulher."

Imagem explicativa sobre as diferenças entre identidade de gênero, expressão de gênero, sexualidade e genital, citando respeitosamente pessoas cis, trans binárias e não-binárias, pessoas heterossexuais, gays, lésbicas, bissexuais, pansexuais, assexuais e pessoas intersexo, utilizando cores e o desenho de um corpo para didaticamente expressar onde cada tópico se apresenta.

Você está usando o reflexo do binarismo da sociedade para justificar sua dúvida, e isso não é muito legal. Mas entendo que você quer dizer que nem sempre dá para saber o gênero da pessoa, e isso não impede a atração. Só que falar que sente atração por alguém não-binário por acidente meio que só reforça a ideia de que bi só sente atração por homem e mulher. Afinal, mesmo não havendo um padrão, pessoas não-binárias têm, sim, suas expressões de gênero, e nem sempre são lidos como homem ou mulher, muitas vezes a ideia é exatamente não ser, mesmo que isso gere ataques, rejeição e muito preconceito. Isso depende de cada pessoa, tem gente nb que é vista como monstro na rua, de um jeito que nenhum homem ou mulher são vistos. Então não saber que a pessoa é nb não é desculpa pra dizer que se atrair por ela define sua sexualidade (se quiser insistir nisso, é contigo). Lembrando que pessoas nb podem ser bi, pan ou qualquer outra sexualidade.

6. “Bi e pan são só rótulos, temos que parar de nos rotular e sermos só seres humanos.”

Bom, eu estou vivendo a minha vida e sendo humano de boa, e isso não me impede de ser bi nem de me relacionar com pessoas. O que eu menos gosto sobre essa história de chamar identidades de “rótulos” e dizer que não devemos utilizá-los é que nunca me perguntaram se eu quero ou não, ou tentaram imaginar se eu seria feliz sem me rotular. Eu já vivi sem rótulos e não era feliz, era confuso, tinha crises de identidade, não sabia quem eu era, me sentia vazio, e explico mais sobre isso no meu texto sobre como eu me descobri bissexual. Ter um nome para sua sexualidade me faz bem, faz você sentir que existem outros além de você, me ajuda a pesquisar por pessoas, personagens, ajuda médica, textos e mais coisas que me contemplem. Ter uma palavra para si faz bem. Posso falar mais sobre isso em outro texto.

7. “Pans são mais evoluí-”

Não.

8. “Pan é bi gourm-”

Não ouse.

“Mas e você, como pessoa bissexual, o que pensa sobre tudo isso?”

Imagem bonitinha com um rapaz criando um arco-íris nas cores da bandeira bi, reforçando que a bissexualidade é válida (em inglês).

Como já deixei claro, eu confesso que não tenho uma opinião formada sobre esse debate, e me irrita e me estressa entrar nisso e ver amigos meus brigando e se xingando por discordarem uns dos outros e pela visão de um fazer mal à saúde mental do outro. Eu me sinto pressionado a tomar uma decisão e lutar por uma definição (no meu caso, a que a comunidade bi abraça, ou simplesmente virar pan), porém existem pessoas literalmente GRITANDO pra mim sobre o quanto isso faz mal a elas, e eu não consigo ignorar isso. O que eu realmente gostaria é que não houvesse estresse por causa disso, e que o único problema nessa discussão fosse ela ser repetida demais. Não vou mentir e dizer que nunca vi uma pessoa bi apagando pessoas pan nessa discussão, porque já vi, sim! Já vi gente bi dizendo que o único motivo da existência do ativismo pan é contrariar bi nisso. Já vi gente bi usando falas de pessoas pan pra serem panfóbicos, dizendo que pan é sexualidade de Tumblr, e outras coisas absurdas. Tomem vergonhas nessas caras e sejam honestos, debatam com sensatez e bom senso. Se uma pessoa pan falou a maior merda do mundo, julgue a porcaria que ela falou, não a orientação dela. Não mexe com meus amigos.

Caras pessoas pan, eu vejo o seu sofrimento e eu o entendo, mas definir que bi é só dois e ponto final não é a saída, me desculpem. Gostaria que fosse algo fácil assim, mas não importa o quanto vocês gritem ou eu grite “daqui de dentro”, isso não vai acontecer, as pessoas bi não vão aceitar isso. Infelizmente, ou não, vocês precisam aceitar que pessoas bi eventualmente podem se sentir atraídas por mais gêneros do que dois. Saiba que isso não significa que nós ignoramos a existência, a validade ou a história da pansexualidade. Pansexualidade é a atração por todos os gêneros e independentemente de gênero, não importa o que outras pessoas digam, é real, existente e válida. E a possibilidade de existir uma outra sexualidade com uma definição capaz de abranger as mesmas atrações que a sua não significa que os indivíduos que a utilizam ignoram a sua, é só que é nossa identidade, é quem nós somos, e seja para quem conhece ou para quem não conhece a pansexualidade, é quem queremos continuar sendo. Não estamos apagando vocês, ou não é nossa intenção, queremos exatamente dar visibilidade a vocês, mas se nossa existência os apaga, algo está errado. Não podemos e não vamos (ou eventualmente vamos, quem sabe?) mudar nossos termos, mas realmente temos o que melhorar.

Trabalhar no uso da palavra “monodissidente” (a nova palavra para não-monossexual, lembra?) parece ser um bom caminho. Porque mesmo eu entendendo que para vocês isso é pior, lidar com isso também adoece a mim e a outras pessoas bi, e por isso acho que esse texto é necessário, pois estou sendo o mais imparcial que consigo ser. Eu apoio “bi ser dois” tanto quanto eu apoio não ser, mas infelizmente não é uma decisão que eu possa tomar sozinho por milhões de pessoas. Se para vocês é impossível entender que bi pode ser todos, quero que pelo menos entendam a mim, pois estou me esforçando bastante para isso, e agradeço a quem me entender. E eu entendo que existam pessoas monossexuais que usam a bissexualidade para serem escrotas com vocês, mas peço que não joguem a culpa disso sobre nós, pois estamos tão interessados em destruir esses discursos quanto vocês.

Bandeira do orgulho polissexual.

Até porque, se fosse o caso, também estaríamos apagando pessoas poli, e porque atração por mais de dois gêneros, mas não sendo todos, seria polissexualidade, então será que, mesmo sendo falho, o guarda-chuva bissexual não tem algum sentido? Será que bi realmente não deveria ser só dois? O que de fato acontece na nossa realidade, no nosso mundo, no nosso país? De que forma as pessoas poderiam mudar para não apagar pessoas pan ou poli sem terem que deixar de serem quem são? Eu preciso me definir como pan ou poli para ser quem eu realmente sou? Pedir para um bi se assumir como pan não é tão absurdo quanto o contrário (não ignoro os privilégios de pessoa bi nesse caso)? Será que continuar ignorando minha atração por pessoas não-binárias é a chave para eu ter tranquilidade e menos peso na consciência ao discutir com pessoas pan? Eu não consigo achar uma resposta para essas perguntas.

Se um homem gay diz que gosta de mulheres, realmente tem um monte de gente bi querendo “convertê-lo”, mas será que elas estão certas? Será que ele não é realmente gay? Será que ele é pan? ou poli? ou bi? Será que quem diz que não precisamos de rótulos realmente está certo? Será que só responder “sabe que eu não sei?” quando alguém me perguntar a diferença entre bi e pan é o melhor para ser feliz? Como ter paz com os meus amigos, minha comunidade e comigo mesmo? Na minha resolução para 2018 está conseguir resolver todas essas questões, mas sinto que não vou conseguir sozinho, e sinto que tentar abraçar tanta responsabilidade é machucar muita gente ao mesmo tempo por algo que talvez seja melhor continuar como está, cinza e confuso. Porém, desse jeito, é assim que eu também estou. Eu preciso de ajuda. Pensem, e me ajudem a pensar, pra ver se conseguimos ir a algum lugar que não seja a guerra. Nós já sofremos demais com nossas batalhas diárias, depressão, ansiedade, pânico, ideação suicida, bifobia, panfobia. Sofrer com mais essa não é nada saudável, e estou determinado a encontrar uma solução.

Meu nome é Felipe Pereira e eu sou contra as pessoas usarem de extremos para definirem e/ou apagarem as sexualidades dos outros, sejam elas bi ou pan. Espero ter deixado meu posicionamento claro.

Descobrir a diferença entre bi e pan não deve ser a maior preocupação das pessoas. Em uma conversa com meu amigo Paulo Cesar Góis, ele me disse “Essa discussão toda me cansa porque, ao mesmo tempo que eu sou a favor de cada pessoa poder se definir como quiser, eu considero quase no nível da irrelevância essa discussão toda. A nível estrutural essa questão semântica não ajuda em nada a diminuir violência real contra quem se atrai e relaciona com pessoas de mais de um gênero, é mais uma questão de sentimentos e individualidade mesmo”. E eu acredito que existem questões muito mais importantes do que essa para pararmos de sermos oprimidos pelo monossexismo, só é uma discussão muito sobre identidades individuais

Como esse texto ficou grande demais, as ideias que tive sobre o lugar das pessoas monodissidentes no movimento e na militância LGBTQIAP+ficarão para outro texto. Abração a todes.