Notas de um solitário

“Os deuses me deram um lago e uma canoa.”

A solitude foi o dom que os deuses me deram. eu morria mais cedo que todos os seres viventes. aqui na dimensão terrena descansava o meu corpo. acolá numa dimensão paralela descansava a minha alma. o descanso era verossímil. diferente do sono trivial. a paz era a sensação que me encontrava num libído infinito. e no meu despertar, renascia cada vez mais revigorado.

Quando me ocorria os maiores descontentamentos, a foz para a beatitude fora a minha imaginação. me despusera numa canoa em meio ao nada sob um lago. e fazia do meu sequioso choro a minha paz. mas ora ou outra, quando não fora suficiente o meu autoflagelo (motivado pela solidão), a metamorfose logo me extirpava o torpor e a minha essência ficava presa num mar de lembranças revoltas.

Meu autoflagelo me dera desde então o vigor do libído. para que posteriormente um único choro seco vertesse mais lágrimas que mil choros diluídos. culminando então em graça. e na celebração dos deuses.

Quando ao quê o despertar matinal aplaudia um silêncio perpétuo. e a natureza aguardava a minha chegada para que pudesse me presentear com o momento. Senão, quando ao quê o despertar fora no meio das noites, todas as atrocidades do mundo terreno escorriam dentro de um fino copo. e com os deuses, eu brindava quantas doses de vinho fossem necessárias. dávamos gargalhadas sem razão. e então a noite ficava pequena demais para caber em nossos copos.

Sábido era que na ausência de um lago eu me tinha desnorteado. o lago não me era mais um lago. a canoa ainda me era uma canoa. minha frenesi pelo lago tornara-me alienado da canoa. eu insistidamente a carregava sobre as minhas costas magras na esperança de poder alcançar o meu descanço. até que a fadiga me concedesse esmolas. para que exatamente neste intervalo entre a perseverança e a desistência eu me encontrasse sobre uma simples canoa descanssando em minhas lágrimas.

Felipe Dantas em “Notas de um Solitário”