Poesias

Felipe Dantas

Inverno:

Oh inverno!

Estes galhos secos

cheios de goteiras

dispersaram o absoluto

de uma rosa

Tantas pétalas se espalharam

em um só outono

e hoje me pergunto

quando é que irá chegar o verão?


Borboletas:

Houve um naufrágio

de borboletas que guerrilhavam

na barriga de uma sereia

que de boca para o céu

desejava os teus lábios.

Que ao escurecer

saia da água à terra

para ver a lua brotar

os teus olhos de cara para o mar.

Mas o naufrágio de uma borboleta

foi mais intensa que a de um navio.


Velas:

A fogueira esfarela.

Isqueiros se perdem.

Lamparinas quebram.

Fósforos acabam.

As velas apagam.

E derretem escamas

que deslizam a fervura

até que esfria

e nada mais, nada

tem emoção. É sem graça.

é dia de inverno

soprando meus ouvidos,

congelando corações,

a espera de um fim

fim desse vendaval a fim

de poder reascender novamente.

Mas não me dei conta

que um dia tudo apaga.


Coisas extatas:

Às vezes vivemos coisas.

Não muitas coisas exatas

ou muitas coisas erradas.

A escolha é limitada

enquanto está dividida.

Não há caminho que o faça!

As lágrimas se desdobram,

ora rojam ramos de flores,

ora rojam penas de flores.

Não há caminho que o faça!

As coisas exatas se estampam

em cada lágrima derramada

e enquanto não secá-la

as escolhas erradas

sempre serão exatas.


Andarilho campestre:

Seu andarilho campestre

é livre de exatidão.

vago em meio a sua natureza.

Teu instinto ardor

leva-te a instigar a fragrância das rosas.

Em corações soa teu encantar.

Sua alma voa feito pássaro.

E tu me trazes aos céus

e me deixas piedade

para pedir-te que me inunde

pois estou seco como uma folha anciã.

E teu simples toque

criam-se devaneios abstratos

contornando o arco-íris de minhas verdades.


Conotação estética:

Ética é a conotação estética.

Onde aparências são as que prevalecem.

O status que não envelhece.

E para com isso o prazer padecer,

o fazer e desfazer para se refazer

e amanhã poder-se-ia reconhecer.

Mas não existem muitos espelhos

e estes poucos o são por status.

Será que ainda existem humanistas

ou seremos apenas relativos ao status ativista ?


Incondicional:

Se o amor é destinado

somos feito um ao outro.

Se for por livre-arbítrio

escolheremos constantemente um ao outro.

Se fomos enviados pelo divino

teremos fé em nosso amor.

Senão estes, não há problemas.

É amor incondicional.


Pérola:

Havia uma bela

pérola

com a sua formosura

brancura

e iluminava tanto

que ao te ver

cegava-me

a ponto de cair

aos teus pés

e beijá-los por

discórdia.

Sem pérola

não havia inspiração

e sem isso

eu não mais vivia.

Era a minha essência

em jogo.

Porém,

a perdi de meu bolso

e não encontro sequer

a mim mesmo.


Café sem leite:

As manhãs de Mariana

era café sem leite.

Ela sabia de não haver,

mas era teimosa.

Degustava seu biscoito

sempre guardando um pouco

caso seu café estivesse com leite

pudesse molhar e saborear de novo.

Mas um dia Mariana virou a xícara

e derrubou tudo o que tinha.

Era café sem leite.

Agora, café sem café e nem leite.


Verdemais:

Na viela

eu vi e ela

era aquela

coisa aquarela

que brilhava

e se molhava

ao se avistar

meu brilho luar

que de quão escuro

encobria teu verde mar.

Mas ela nadava

de olhos fechados

até que então

seu encontro

foi com o verde mar.

Era aquarela dela

ela e verdemais.

Agora é ela

e verde mar.


Algoritmo:

Algo,

ritmo,

algoritmo.

Meus dias

de rotina

sem rotina

comovia

como via

só se tinha

isso

ou aquilo

algo,

ritmo,

algoritmo.

Como via

só se não tinha

quando tinha

algoritmo.


Violeta:

Violeta

de violeta

a vi na violenta

cidade violeta

e toquei a violeta

para não violar

a lei contra violetas:

“rosas vermelhas”.

Rosa, toda vermelha

comovida e com vida

era ela, a violeta.

Tinha trocado de gente

e de sobrenome

e foi ser gente.


Caçador de sonhos:

Eu tinha um sonho

dentro de um sonho:

o colecionador de sonhos.

Este era meu venerado amigo

que guardava seus sonhos

para colecionar comigo.

Porém, houve um dia

onde choveu tanto

que alagou meus olhos

e eu acordei desesperado

procurando os saquinhos

cheios de sonhos.

Demorei, demorei para

a minha consciência voltar

e eu me dar conta

que nem sonhar

eu sonhava mais

pois havia virado

caçador de sonhos.


Encruzilhada:

A idealização

era a legitimação

de nossas condutas

para com o amar demais.

A moça das encruzilhadas

que vigiava as ideias

e simpatizava todas

as minhas análogas

as tuas, pois ela

estava em muros

e labirintos

de coração partido

de outrora

e sentia-se bem

amando alguém

feito como ela

para que fosse vista

compreendida

e saísse de suas

próprias encruzilhadas.


Calçados:

O calcanhar de Aquiles do homem está na mudança.

Nas mudanças perdemos os nossos sapatos

e nos apropriamos de novos.

Se ao menos pudéssemos andar pela vida descalços.

Não perderíamos tempo procurando-os.

Estaríamos preocupados em brincar.

Seríamos crianças outra vez.

Seríamos DEUSES.


Carrinhos podem ser aviões:

Eu havia ganhado os meus primeiros carrinhos de brinquedo.

Me era divertido poder brincar com os meus novos carrinhos de brinquedo.

Mas não tinha um amigo que pudesse dirigir o outro carrinho de brinquedo.

Eu tinha de aprender a dirigir dois carrinhos de brinquedo.

Meu pai estava longe demais para me ajudar a dirigi-los.

E a minha mãe estava longe demais para me dizer que estava tudo bem o fato de não poder dirigi-los facilmente.

Então tive que usar a imaginação para que eu pudesse me divertir.

Peguei os dois carrinhos e os transformei num avião.


Vinho para um não solitário:

Bebereis do vinho de um solitário.

E na solidão terás o teu regozijo.

Encontrarás monstros com vida.

Ama-lo-os nos infortúnios.

Descansareis nos fortúnios.

E sereis eterno.

Se isole em um quarto pequeno para 
que não se engrandeça.

Não ceda para a exteriorização da loucura 
das dores mais viscerais.

Até que os monstros sucumbem e 
você possa realmente viver.

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