Prosas

Felipe Dantas em “Notas de um solitário”

Sempre me pego trocando de roupas.

Vou até o meu armário, penduro no cabide uma roupa já usada e me visto com outra.

Talvez esteja fadado a trocar de roupas — até mesmo quando me desencarnar em vida.

Meu coração jaz enquanto troca de roupa.

E talvez o antiquado seja o caminho para o verdadeiro amor.

Como quando não pensamos em usar mais roupas deleitadas de sentimentos 
adversos e condizemos com aquela pela qual um dia nos vestimos.

Se assim for, prefira eu não trocar mais de roupa e ficar mal cheiroso, largado, sujo, antiquado.

Já que o amar seja uma peça suja em meio a variadas outras limpas 
e charmosas.


Nosso amor dependia da distância.

A aproximação era o holocausto de um corpo: potência.

Sem esta potência não nos amaríamos mais. Esfacelaríamos o desejo e 
mataríamos o tempo.

Ademais, o desejo só se é enfadonho quando mal usado em seu 
tempo.

Então nos tornávamos meia lua para que num dia pudéssemos deixá-la 
cheia — cheia de potência.

E assim, poder-se-ia nos tornar num só corpo o sol — e com ele gastarmos toda a nossa energia.