O programador brasileiro e as oportunidades no exterior

Felipe Ribeiro
Apr 18, 2014 · 5 min read

Há quatro anos* deixei o Brasil para me aventurar no velho mundo.
Update: Esse artigo voltou a ser muito visitado, então atualizando: "Há seis anos…"

Fui embora assim que terminei a universidade e sequer tive a experiência de ter um emprego formal como desenvolvedor no Brasil. Mas mantenho contato com vários desenvolvedores brazucas e tenho uma noção de como está o mercado de TI no país.

Estive em entrevistas de trabalho com brasileiros, mas do outro lado da mesa, como entrevistador. E ao observar algumas características comuns entre eles, pude aprender um pouco mais sobre o perfil de uma grande parcela dos profissionais.

No final do ano passado eu visitei a universidade onde estudei, a UFCG, e tive uma conversa muito produtiva com alguns alunos sobre como é o mercado de trabalho na indústria de software aqui na Europa. O interesse e feedback deles foi extremamente positivo e há algum tempo eu vinha pensando em escrever um pouco sobre isso para uma audiência maior. Não me sinto na posição de dar conselho a ninguém, mas acho que posso emitir opiniões que podem ajudar algumas pessoas a refletir.

O mercado de TI é extremamente globalizado e conseguir um emprego que lhe ofereça todo o suporte para a questão de visto, mudança e etc. é bastante comum hoje em dia. Alguns países têm uma política mais aberta com relação a isso, outros nem tanto, mas em geral os profissionais com qualificação na área de TI têm um certo privilégio devido à grande demanda do mercado e o grande impacto que esse mercado tem na economia atual.

O recente crescimento e desenvolvimento tecnológico do Brasil tem chamado a atenção de empresas de TI e agências de recrutamento que vêem o país como uma fonte de talentos com enorme potencial e as oportunidades são muitas. Mas será que os brazucas estão prontos para aproveitar essas oportunidades?

Existem alguns pontos que poderiam ser melhor trabalhados para que o programador brasileiro estivesse melhor preparado:

Problema #1 — Existem poucos programadores “completos” no Brasil.

Mas antes, o que eu quero dizer com programador “completo”? Pra mim é um programador que tem um bom background de Ciência da Computação (independente de ter ou não um diploma), mas em sintonia com as tendências do mercado.

Basicamente o que se vê em geral são dois conjuntos, quase disjuntos, de desenvolvedores: os acadêmicos e os micreiros. E ambos se desprezam.

Os acadêmicos acham que sua função é única e exclusivamente resolver problemas “importantes” e filosóficos, e consideram uma perda de tempo dedicar-se a coisas banais e mundanas como desenvolvimento Web, interfaces de usuário e etc.

Já os micreiros se prendem a determinada ferramenta ou linguagem de programação e consideram uma perda de tempo estar em uma sala de aula aprendendo coisas que acham que nunca vão usar como notação Big O ou teoria dos grafos.

E no final das contas, ambos saem perdendo.

As empresas estão buscando profissionais com um perfil equilibrado, onde o conhecimento teórico é fundamental para o desenvolvimento de sistemas escaláveis, com boas abstrações dos problemas e com código de alta qualidade, ao mesmo tempo que é importante pensar out of the box, estar antenado às tecnologias e tendências do momento e ter a iniciativa de ser um auto-didata.

Problema #2 — No Brasil não se aprende inglês na escola

Se você não consegue se comunicar em inglês as suas chances de trabalhar no exterior são bem pequenas.

Esse é realmente um problema, tendo em vista que o nível de inglês ensinado na grade curricular das escolas brasileiras é risível e pessoas que não têm acesso a um curso de inglês dificilmente conseguem ter alguma fluência.

E essa deficiência dos programadores brasileiros ficou bem evidente recentemente, quando o Stack Overflow lançou o seu primeiro fork traduzido, justamente em Português. Embora a intenção deles de incluir a imensa comunidade brasileira seja boa, o resultado seria ainda melhor e a troca de conhecimento maior caso essa comunidade estivesse apta a participar com a mesma eficiência no Stack Overflow internacional.

Problema #3 — A cultura brasileira do concurseiro e da acomodação

E chegou a hora de falar da parte mais dolorosa, a da questão cultural.

A mentalidade do profissional brasileiro está mudando, a geração atual não tem mais a mesma mentalidade dos nossos pais que almejavam um emprego público com estabilidade onde poderiam se acomodar e ter um salário decente. Existe uma nova mentalidade de querer construir algo e fazer a diferença. E isso é muito bom.

Mas para alguns o ideal concurseiro ainda é a realidade e essa mentalidade pode ser extremamente limitadora para o crescimento pessoal e profissional, porém não se aplica apenas aos empregos no setor público. No setor privado também há pessoas acomodadas que não amam o que fazem mas que fazem o mínimo suficiente para garantir o salário no fim do mês. Ou mesmo para os empresários que criam suas startups apenas almejando receber algum dinheiro de programas do governo.

Essa zona de conforto tão desejada é o principal fator inibidor da inovação e do empreendedorismo no país.

Então, o que fazer?

Nem tudo está perdido, ainda há tempo de correr atrás do prejuízo!

Quanto ao conhecimento necessário, como falei anteriormente, a indústria procura profissionais com conhecimento teórico aprofundado mas com os pés no chão para a realidade prática do mercado. Então se você tem um background universitário, dê uma olhada ao seu redor, veja o que as pessoas estão usando, tenha os pés no chão e caia na real. Já se você acha que tudo que precisa saber é como desenvolver um sisteminha em Rails ou Node.js, procure se aprofundar mais e entender os porquês das coisas e leia livros — não esses “Aprenda X em 21 dias”, mas algo que apresente conceitos mais profundos e atemporais (Programming Pearls é um dos meus favoritos).

Em alguns países o visto para profissionais qualificados requer ensino superior completo enquanto em outros a experiência de trabalho, caso possa ser comprovada, também vale como substituição ao diploma universitário. Então verifique isso caso esteja planejando tentar algo fora para evitar frustrações.

Se o inglês não é seu forte, nunca é tarde para começar a aprender. Com a internet o acesso ao conteúdo — técnico e não técnico — é instantâneo e existem cursos de idiomas online que você pode fazer. Além disso a documentação de linguagens de programação e ferramentas está disponível primeiramente em inglês, existe um imenso acervo de palestras técnicas no YouTube em inglês, e a maior base de conhecimento sobre programação, o Stack Overflow, tem maior parte do seu conteúdo também em inglês… Então não há desculpa para não praticar. Basta força de vontade e dedicação.

Corra atrás e faça sua parte, existe um ditado em inglês que diz que “Luck is what happens when preparation meets opportunity” (em tradução livre: “Sorte é o que acontece quando a preparação encontra a oportunidade”), então tenha certeza que você está preparado e faça por onde a oportunidade aparecer!

    Felipe Ribeiro

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    Senior Software Engineer @ Netflix, previously Staff Engineer @ Spotify. And when singularity comes, I’ll probably be on _their_ side 🤖.

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