Como um racista disseminador de ódio liderou a Guerra às Drogas dos EUA

Harry Anslinger misturou usuários de droga, raça e música para criminalizar não-brancos e criar um complexo industrial-prisional

O Comissário de Narcóticos Harry J. Anslinger anuncia uma série de ataques nas grandes cidades do país, com o objetivo de enfraquecer o tráfico de drogas em Nova York em 4 de janeiro de 1958. (AP)

Publicado originalmente por Laura Smith em Timeline, traduzido por Felipe Santos com revisão de Bárbara Moura

Em 1931, Henry Smith Williams entrou no escritório de Harry Anslinger em Washington, D.C [Distrito Federal] para pedir pela vida do irmão. Anslinger e seus agentes tinham prendido todos os usuários de droga que conseguiram encontrar, incluindo o irmão de Williams, Edgar. Williams era médico e tinha escrito extensivamente sobre a necessidade de tratamento humanizado aos viciados[sic]. Ele falava veementemente contra as táticas brutais de Anslinger, mas em frente ao homem – cabelo preto para trás, com um semblante de falcão, pescoço grosso e porte imponente – Williams de repente murchou. Ele teceu algumas críticas, sem entusiasmo, sobre o irmão não receber aquele tratamento; e se foi. Depois que ele saiu da sala, Anslinger zombou dele, chamando-o de histérico. “Médicos”, ele disse com prepotência, “não podem tratar viciados nem se eles quisessem”. Ao invés disso pediu que “juízes durões não tenham medo de jogar os assassinos na cadeia e jogar a chave fora”.

Com essa mentalidade implacável, Anslinger comandou o Federal Narcotics Buerau [Departamento Federal de Narcóticos] (um precurssor do DEA [Drug Enforcement Administration – Administração de Repressão às Drogas – departamento de combate às drogas norte-americano]) por mais de três décadas – um período de formação que moldou a política de drogas nos anos que viriam. Como John C. McWilliams explicou no seu livro sobre Anslinger, The Protectors, “Anslinger era o Federal Narcotics Bureau. ” Durante sua administração ele implementou rigorosas leis anti-drogas e irracionalmente longas sentenças de prisão que dariam origem ao complexo industrial-prisional Americano. Por causa de Anslinger milhões de vidas foram varridas no arrastão da guerra às drogas, se não foram completamente acabadas. Mas a guerra de Anslinger não era uma guerra ás drogas, era uma guerra contra a cultura, uma tentativa de sufocar a liberdade radical da Era do Jazz para as pessoas de cor. Anslinger era um xenófobo sem capacidade de nuances intelectuais, e suas visões racistas afetavam seu trabalho de maneira devastadora. Mas ele não conseguiria fazer o que fez, reinado longamente como reinou, sem um elenco de políticos que compartilhavam sua visão intolerante de como a América deveria ser.

Louis Armstrong se apresentando no Brooklyn College em 1941. O músico de jazz que promoveu o uso da maconha como um relaxante que "faz esquecer todas as coisas ruins que acontecem com um negro" foi preso por posse em 1930. Grande parte da cruzada de Harry Anslinger contra a maconha foi baseada sobre o medo racista de que as drogas nas mãos dos negros representassem um perigo para mulheres brancas e crianças. (AP / Arquivo)

O zelo de Anslinger pela lei e ordem se manifestou cedo. Ele nasceu em Altoona, Pensilvânia, em 1892 de pais Suiço-Germânicos. Seu pai lutou para encontrar emprego como barbeiro e foi contratado pela Pennsylvania Railroad, que foi o primeiro trabalho de Anslinger na oitava série. Ele, eventualmente, subiu de cargo investigando mortes por negligência. Seu trabalho foi caracterizado pelo desgosto à qualquer coisa extra-judicial e um faro para fraude. Essa atitude se provou útil quando ele se voltou à aplicação da Lei Seca [nos Estados Unidos vigorou, de 1920 a 1933, uma lei que proibiu a fabricação, transporte e venda de bebidas alcóolicas em todo o território nacional]. No início dos anos 1920 ele trabalhou para o governo, perseguindo contrabandistas [sic] de rum nas Bahamas. Em 1930 ele foi nomeado para dirigir o recém-criado Federal Narcotics Bureau pelo presidente Hoover. Um astuto dos caminhos de Washington, ele rapidamente se alinhou com políticos influentes, pessoas de dentro de Washington e a indústria farmacêutica, cujo apoio o ajudou a passar (incólume) por uma série de escândalos nos anos seguintes. O senador do Missouri John Cochran [não confundir com Johnnie Cochran, advogado de O.J Simpson no caso do assassinato de sua mulher] o homenageou dizendo que ele “merecia uma medalha de honra”.

Durante o começo de sua carreira, Anslinger parecia ligar pouco para a marijuana [maconha em espanhol], conhecida como Cannabis. Mas quando a Lei Seca acabou pareceu que Anslinger podia ficar desempregado, então ele buscou uma nova ameaça ao American Way, essencialmente fabricando uma guerra às drogas. Como Johann Hari explica no seu livro Chasing the scream: The First and The Last Days of the War on Drugs, o gabinete de Anslinger estava focado em heroína e cocaína, mas haviam relativamente poucos usuários. Para assegurar um futuro promissor ao seu departamento “ele precisava de mais”, escreve Hari. A marijuana foi o bilhete premiado de Anslinger. Ele usou seu gabinete para divulgar a associação entre marijuana e violência, para que fosse criminalizada. “Você fuma um baseado e provavelmente irá matar seu irmão”, ele era conhecido por dizer. McWilliams explica que nesse esforço, “Anslinger apelou para várias organizações cujos membros eram predominantemente protestantes brancos. ”

Desde o começo Anslinger misturou o uso de drogas, raça e música. “O baseado faz com que os escuros achem que são tão bons quanto os homens brancos”, disse ele. “Há 100.000 fumantes de marijuana nos EUA, e a maioria deles são negros, hispânicos, filipinos e artistas. Sua música Satânica, jazz e swing, resultam do uso de maconha. Essa marijuana faz com que mulheres brancas busquem relações sexuais com negros, artistas e outros. ”

Como Hari escreve “Jazz era o oposto de tudo que Harry Anslinger acreditava. Era improvisado, relaxante, livre. Seguia seu próprio ritmo. Pior de tudo, era uma música mestiça de ecos europeus, caribenhos e africanos, todos acasalando nas costas americanas. Para Anslinger isso era uma anarquia musical e evidência de uma recorrência dos impulsos primitivos que se escondem nos negros, esperando para emergir. “Parecia”, diziam seus memorandos internos, “com selvas na calada da noite. ”

Quando chegou a notícia, no final da década de 1930, de que Anslinger havia se referido a um negro como “ginger-colored nigger” [o termo não é traduzível, mas é uma ofensa] , o senador da Pensilvânia Joseph Guffrey pediu a demissão de Anslinger. Mas esses pedidos foram ignorados, provavelmente pela sua rede de influências em Washington.

Em 1937 Aslinger escreveu um artigo sobre o flagelo da erva intitulado “Marijuana, assassina da juventude”, publicado na The American Magazine. Ele começou com o senso comum supremacista branco, dando a ideia de que a mulher e criança brancas estavam em perigo. “Não muito tempo atrás, o corpo de uma jovem garota estava esmagado na calçada depois de um mergulho em uma janela de apartamento em Chicago. Todos a chamavam de suicídio, mas na verdade era assassinato. O assassino era um narcótico conhecido na América como marijuana, e na história como haxixe ”. Ele também escreveu sobre um “viciado em maconha” enforcado pelo ataque a uma menina de dez anos de idade. Anslinger explicou:

“Aqueles que espalharam seu uso primeiro foram os músicos. Eles trouxeram o hábito para o norte com a onda da música “quente” demandando músicos com habilidade excepcional, especialmente em improvisação. Ao longo da fronteira mexicana e nas cidades portuárias do sul há muito se sabia que a droga tem um efeito estranhamente estimulante sobre as sensibilidades musicais. O músico que o usa acha que a batida musical aparentemente chega a ele bem devagar, permitindo assim que ele interpole notas improvisadas com relativa facilidade. Ele não percebe que está teclando com uma velocidade furiosa impossível para alguém em um estado normal”.

Anslinger encontrou vários casos em que pessoas cometeram crimes violentos supostamente “chapados” e os apresentou ao Congresso. O caso que parecia encerrar o assunto foi o de Victor Licata, um jovem italiano que havia matado sua família. Anslinger consultou 30 médicos para confirmar sua alegação de que a erva estava ligada a crimes violentos. Desses, 29 disseram que não havia conexão, então ele espalhou a mensagem do único médico dissidente para quem quisesse ouvir.

O apelo de Anslinger pelo medo parecia estar funcionando. Artigos propagando os perigos da maconha saiam em papers por todo o país. Foi nesse período que os fanáticos anti-drogas trocaram o termo “Cannabis” por “marijuana”, esperando que a palavra espanhola causasse sentimentos anti-mexicanos. Os jornais, quer acreditassem ou não, participaram, publicando manchetes como “Assassinatos causados ​​pela ‘droga assassina’ maconha (marijuana) que varre os Estados Unidos”. Os esforços de Anslinger culminaram na aprovação do Marijuana Tax Act em 1937, que efetivamente tornou a maconha ilegal.

Começando em 1939, imediatamente após a apresentação de “Strange Fruit”, de Billie Holiday, Anslinger iniciou um ataque implacável a cantora por seu suposto vício em heroína. Devido ao seu inegável racismo, é difícil acreditar que o timing da campanha, logo após o lançamento da assombrosa canção de protesto contra a justiça racial, tenha sido uma coincidência. Daquele dia em diante, os agentes de Anslinger perseguiram Holiday. Enquanto estava sendo transportada para o hospital por uma combinação de uso de drogas e álcool, ela disse: “Eles vão me prender nesta maldita cama”. Holiday morreu pouco depois, e seus amigos culparam o estresse da campanha de Anslinger por sua morte.

Nove anos depois, Anslinger foi novamente atrás de músicos condenados por delitos ligados as drogas impedindo-os de se sindicalizar. A vida dos jazzistas, disse ele, “cheira a sujeira”. “As prisões envolvendo um certo tipo de músico em casos de maconha estão aumentando”, escreveu ele em um rascunho ao presidente da Federação Americana de Músicos. Em uma audiência com o Ways and Means Comittee, Anslinger repetiu este refrão: “Não estou falando dos bons músicos, mas dos de Jazz.”

Nos próximos anos, Anslinger teria uma participação decisiva em toda a legislação antidrogas do país, incluindo a Boggs Act de 1951, que exigia a condenação obrigatória e várias leis estaduais que criminalizam ainda mais o uso de drogas. Segundo McWilliams, Anslinger era considerado o mais proeminente especialista em drogas na América. Ele permaneceu no comando do Departamento Federal de Narcóticos até o governo Kennedy, mas suas ideias foram rapidamente adotadas por sucessivas administrações – sempre desproporcionalmente em detrimento das pessoas de cor.

Em 1971, Nixon declarou sua “guerra às drogas”. Seu assessor e co-conspirador do Watergate, John Ehrlichman, mais tarde revelou as motivações nefastas do esforço na Harper’s:

“A campanha de Nixon [ Richard Nixon, presidente estado-unidense de 1969 a 1974] em 1968, e a Casa Branca de Nixon depois disso, tinha dois inimigos: a esquerda anti-guerra e os negros … sabíamos que não podíamos tornar ilegal ser contra a guerra ou negros, mas fazer com que o público se associasse os hippies com maconha e negros com heroína, e depois criminalizando ambos fortemente, poderíamos desmantelar essas comunidades.”

Durante os anos 80, a campanha “Just Say No” de Nancy Reagan [primeira-dama estado-unidense entre 1981 e 1989] foi combinada com a histeria da mídia, baseada em raça, sobre o crack. Ao longo dos próximos 20 anos, o número de infratores da legislação antidrogas nas prisões norte-americanas multiplicou-se por doze. Este manto draconiano foi recolhido por George H.W. Bush e Bill Clinton e continuaram sendo o status quo até Barack Obama, que começou a perdoar ou comutar as sentenças dos infratores da legislação antidrogas e encarar a crise dos opiáceos como um problema de saúde pública, em vez de uma questão prisional. Mas com a eleição de Donald Trump e a nomeação de Jeff Sessions como procurador-geral, o legado de Anslinger aparece vivo e bem. Este governo tentou barrar a legalização e a descriminalização da maconha, instou a polícia a ser dura com os crimes relacionados as drogas e pediu sentenças mais severas. Como disse nas eleições em 2016, “pessoas boas não fumam maconha.”