Conversa fiada

Para lá do mundo que conhecemos existe outro, extenso, com dimensões que se perdem em cada pessoa. Mas a necessidade agora é passar o café.
Enquanto reparo as plantas no quintal, o verde existindo, os gatos na atenção dos pássaros inalcançáveis, vou passando o café. Estando num mundo que me permite, da forma que me cabe, da maneira que me faz continuar vivendo. Descrevo o que vejo:
O pé de mangueira está banhado de sol. Já passa das quatro da tarde e a estrela maior se derrama em descanso. O céu não tem nuvens, é de um azul dominante e ampara os olhares menos compromissados com o chão.
Tenho um sentimento saudoso, trespassado pela memória de um cheiro, o de fim das tardes: mistura de perfumes que irradiam no agora aquilo que nunca deixou de ser. Como se voltasse para quando o tempo a favor do vento não queria saber de pressa ou de resposta.
Os galhos abertos da mangueira anunciam casa para pássaros cansados. Ouço a voz e vejo o bater das asas no agasalho azul-celeste, sendo conduzido de volta àquilo que em mim, de quando em vez, teima fugir. Contudo sinto o estômago dos dias digerir ambições, ruminar infinitamente o tempo, cravando-lhe as presas e sorvendo a matéria que lhe dá sentido, juízo, razão. Sobram os restos, suco de coisa alguma. Que fazer com essa sede?
É urgente. A urgência é desenvolver escudos contra o embrutecimento iminente. Pouco importa, que agora o café já está ali. Verso mesmo de conhecimentos sobre quintais, que podem dimensionar tudo de sentido que empregamos às coisas. É uma ilha resistente ao desmoronar do mundo inteiro.
Na capa do caderno onde escrevo este texto, a frase ‘’ama como a estrada começa’’, de Mário Cesariny. Penso nos inícios e nas largadas em anúncio de que podemos caminhar sobre o chão sem o risco de ruir em queda. E então a coordenação concedendo passagem, as pernas respeitando vontades de um caminhar a ser traçado, pois começo.
E a palavra é mesmo um tecido. Farda da civilização. Aquecer pele, florear vaidades, conduzir ao profundo. Tem quem as utiliza para desnudar o espírito alheio. Mas a teimosia da gata fez com que a rosa caísse, bem ali em frente, no quintal. Um descuido, nunca fatal, a me registrar os passos em memória que não desejo esquecer.
Na verdade, acredito estar… peço desculpas, me escapa o raciocínio. Soube que meu sofá está a caminho e estou indo montar.
