São Paulo: Urbi et Orbi

[Fotografia: Felipe Schuermann; Junho, 2019]
Lembro-me bem da primeira visita, aos 11 anos. Não sei se posso chamar de fascínio ou qualquer outro conceito que represente um grande impacto sensorial; o fato é que, logo ao primeiro contato, prometi a mim mesmo que um dia moraria ali.
Se pudesse fragmentar e mostrar minhas emoções de outrora em slow motion — o momento do encanto, do apaixonar-se perdidamente, do coração sendo acelerado pelo sangue do espírito — , colocaria a Avenida Paulista como palco definitivo de tal curta-metragem.
São Paulo, a cidade das contradições. O vilarejo fundado pelos padres Manuel da Nóbrega e Anchieta com o intuito original de ser um rincão livre de vícios e pecados, longe da influência dos João Ramalho da vida. São Paulo das taipas.
São Paulo, habitada e abandonada continuamente por quase três séculos; primeiro por bandeirantes que subiam e desciam o sertão em busca de índios, depois pela corrida da descoberta do ouro em Minas, e por último, pela febre do café já no século XIX.
São Paulo, que nos idos de 1870, ainda era diversas vezes menor que o Rio de Janeiro, e também ‘perdia’ para outras cidades como Belém, Porto Alegre, Salvador, Recife, e Cuiabá.
São Paulo, uma das últimas a conhecer a tipografia; o primeiro vestígio de imprensa tendo sido o manuscrito O Paulista, fundado em 1823.
São Paulo, cujos bailes Álvares de Azevedo chamou de “a monotonia do tédio” de uma cidade caipira.
Saltemos no tempo um pouco e ei-la: desgrenhada e bela, impávida e furiosa, cinza e irradiante! São Paulo, a quem o Brasil insiste em chamar selva de pedra, a mim sempre teve outro gosto: a inventividade transformada em grandiosidade, convertida em poder, desabrochada em beleza.
Quando lá cheguei em 2003, um sulista quase-provinciano, havia apenas aquele choque inicial da Avenida Paulista — que, por sinal, continua sendo um dos pontos mais admiráveis do país — somado ao recém deslumbre ante a Rua da Consolação, e nada mais. Eu não sabia por onde começar a expandir minha visão daquele monstro de cidade, e, sendo honesto, não tive o ímpeto inicial para fazê-lo; sentia pasmo e sentia medo, e os dois me gelavam o estômago.
Tão difícil quanto foi o convívio com o paulistano: povo que conversa com todos e se relaciona com ninguém; gente que, em primeira instância, parece ser emocionalmente frígida. O paulistano sorri e te convida para eventos com a mesma leveza e intenção de um ‘bom dia’ no elevador. Se puxa uma cadeira para que você possa sentar-se com ele no bar, lembrará no dia seguinte da cadeira, nunca de você; em resumo, ele aparenta ser naturalmente indiferente a tudo — até a si mesmo. Mas, como disse, São Paulo é terra contraditória.
Por debaixo do véu do automatismo frio, o paulistano carrega no sangue a história de um povo insubmisso ao longo dos séculos. Desde a recusa em depreciar a própria moeda por ordem da Coroa em 1690, passando pelas súplicas publicadas no jornal A Província de S. Paulo por independência junto ao “Brasil Bragantino”, chegando à Revolução Constitucionalista de 1932. Non Dvcor Dvco.
Contudo, se é o caso de fazer-se uma menção mais moderna e mais desgarrada da História, pode-se citar o comportamento local quando a Seleção Brasileira faz seus jogos lá. Em 2000, no Estádio do Morumbi, a indignação pela má atuação era tanta, que o paulistano lançou suas bandeirinhas ao ar como se dizendo: “Aqui não se sorri sem motivo!”.
São Paulo parece ser — e novamente o forasteiro cairá num emaranhado de enganos à primeira vista — apátrida. Na melhor das hipóteses, o nordeste do Brasil em uma cidade italiana; a quilômetros de distância de ambos.
A verdade é que o paulistano não precisa de arroubos para amar sua terra, e também não dificulta aproximação ou distância de quem quer que seja. Ele critica e gosta, quer ficar, mas não faz questão. Pão na chapa e um pingado na padoca porque ‘correria, né meu?!’
O paulistano é a maior e talvez única objetividade do Brasil; não crê em contos mitológicos como alma e coração. Ou então, se crê, não pratica. Gente que não é de amor grudento. Gente que nem a tristeza faz parar. Pessoas que, passados tantos e tantos anos, viriam a ser meus melhores amigos e um bom pedaço de minha própria identidade.
Eu poderia gastar diversos parágrafos descrevendo como fui descobrindo os principais lugares da cidade, ou como alguns cantos específicos vieram a ser especiais para mim. Viaduto do Chá, Sé, Ibirapuera, Luz, Largo São Francisco, Teatro Municipal, Higienópolis & Avenida Angélica, e até o Hospital Santa Isabel (para onde corria sempre que era preciso); tudo misturado. Mas não tenho porquê. Basta dizer que, com o tempo, tudo foi ficando cada vez mais natural para mim. Falar bem ou falar mal, todos os caminhos levam a São Paulo; minha SP.
Porto Alegre é minha terra natalis; São Paulo, minha terra mater.
Bibliografias:
A Capital da Solidão: Uma História de São Paulo das origens a 1900; Roberto Pompeu de Toledo; Ed. Objetiva.
A Cabra Vadia; Nelson Rodrigues; Ed. Nova Fronteira