Sobre o Cais, o lucro e a fragmentação
Às vezes eu fico triste, cabisbaixo, taciturno com os rumos e os entornos do debate acerca da revitalização do Cais Mauá em Porto Alegre. Fico assim por não gostar de ver um debate tão importante cair em algumas generalizações intelectuais por vezes agressivas e não raro nada construtivas. Mas aí eu me lembro que isso faz parte do processo, e que o mais saudável que nós como cidade é viver essa aparente aporia do modo mais profundo possível.
Tecida essa desculpa prolegômena e em vista dos últimos desenvolvimentos da coisa nesse final de setembro de 2015, gostaria tão somente de comentar dois pontos nevrálgicos deste debate.
O primeiro é a ideia de “lucro”, que tão frequentemente pulula na ágora gaucha. A proposição de que “um negócio precisa dar lucro”, talvez nem ela mesma um postulado de Adam Smith, é repetida a rodo pelos defensores deste atual projeto de revitalização. E à parte a virtual verdade universal capitalista de que a obra no Cais precise dar um retorno financeiro, da qual eu discordo amplamente em essência (embora não completamente), ela se me apresenta, antes de mais nada, como uma mesquinha projeção nossa de o que é, afinal, “lucro”.
Poderíamos aqui divagar sobre “lucro financeiro” ou “lucro social”, o que seria uma questão sociológica das mais escolares, mas na verdade o buraco é ainda mais em fundo. Quando vejo os empresários defendendo que o empreendimento precisa dar lucro e parte da sociedade aceitando isso com furor revitalizador, penso que a construção de um shopping com lojas e automóveis pode representar, sim, lucro; é, não obstante, o tipo mais insustentável e fugaz de lucro que a sociedade capitalista possui.
O “lucro” de lojas do tipo de um shopping e envolvido na circulação de automóveis em um estacionamento é um tipo de lucro que, se faz girar a moeda e impostos para o governo, pouco ou nada constrói em termos de sociedade — inclusive sendo ela capitalista. Em um Estado que pena para pagar seus servidores, não conseguimos notar que talvez vivamos uma crise de criação de valor e riquezas que nada tem a ver com a falta de lucro de espaços públicos?
Esses empresários — se são capitalistas, liberais e progressistas de fato — talvez tivessem que estar preocupados em criar ambientes que estimulassem a criatividade e a construção social conjunta do conhecimento. Sei que isso soa utópico, mas realmente acredito que não é tanto. Por exemplo: por que não organizar algum tipo de parceria com uma universidade e instalar no Cais uma espécie de oficina de engenharia e ciências naturais para as crianças aprenderem coisas que no futuro possam ser usadas em suas vidas profissionais “empreendedoras”? Por que não criar ali uma biblioteca (ou livraria mesmo, vá lá, para vender e) para circular livros com ideias modernas para incentivar a “produtividade” das pessoas?
Em suma: o “lucro” de que tanto precisamos não são esses alguns milhões de reais que podem circular em um mês num shopping, mas se encontra no desenvolvimento de uma matriz industrial mais inteligente, produtiva e criativa, e isso se consegue justamente incentivando as pessoas a conviverem uma com as outras, pensando ideias novas. E isso ocorre, por excelência, em espaços públicos.
A segunda coisa assustadora deste papo recai sobre a fragmentação do debate. Atualmente, o debate está como que inteiramente centrado na revitalização do Cais, sendo que ao lado dele há uma imensa e belíssima área pública: o Gasômetro e a orla do Guaíba que vai pelo Teatro Pôr-do-Sol até o Estaleiro. Falando sério mesmo: eu sinceramente não entendo como o funcionamento e a dinâmica da orla do Guaíba da área do Gasômetro não entram nessa discussão.
Mais especificamente, realmente não entendo por que não debater conjuntamente a revitalização do Cais e do Estaleiro. Eles representam o mesmo impasse social e, juntos com a orla da região do Gasômetro, compõem uma área sensacional da cidade. É uma área única, em vários sentidos. Já imaginaram como seria conseguir unificar o debate e construir um projeto social comum para o Cais e o Estaleiro, criando uma ampla área pública contínua do centro ao início da Zona Sul?
Está aí, temos que discutir.