Orçamento pessoal, o método

As 4 regras básicas do YNAB

Você freelancer, CLTista, PJotinha, você precisa de um orçamento. É um esforço cotidiano (que eu já me peguei várias vezes desrespeitando, mas) que serve como algo que eu posso revisitar sempre que estiver vacilando com a maneira como gasto meu dinheiro.

Imagem de propriedade de youneedabudget.com

A real é que na equação Receitas - Despesas, a variável que a gente tenta alterar primeiro é a das Receitas: "como eu ganho mais dinheiro?" Mas a mudança mais prática fica na variável das Despesas: "como eu vivo dentro do que eu ganho?" Gastar menos do que se ganha é a resposta mais "fácil" pra guardar dinheiro, se livrar de dívidas, ter uma relação mais saudável com a bufunfa e fazer com que ela trabalhe pra você, não o contrário.

AVISO: esse é um método que me ajudou a guardar dinheiro e administrar melhor o meu patrimônio, mas ele é baseado num aplicativo pago. Ainda não conheci nenhuma alternativa gratuita que se compare, mas desde que adotei a plataforma há uns 4 anos, tem me custado menos do que o benefício percebido. Sim, dá pra fazer tudo o que se faz no aplicativo com uma planilha parruda no Excel. Já tentei, te juro. Mas no final das contas ele me economizou o suficiente pra pagar feliz pelo trabalho sensacional dos desenvolvedores, algo que não consegui justificar refazer gastando meu precioso tempo. Se você manja muito de excel e faria uma planilha igual com o pé nas costas, manda ver! (E se você for super legal, compartilhe!)

O aplicativo se chama You Need a Budget, YNAB (link) e ele gira em torno de 4 regras básicas que você deve seguir ciclicamente e que se retroalimentam, especialmente quando você recebe alguma entrada de dinheiro (seja qual for a fonte, desde salário até rendimento de poupança). Em termos gerais, a ideia é parar de olhar pra sua conta bancária pra tirar conclusões se há dinheiro ou não pra um gasto real, mas desenvolver um papel mais ativo na definição dos recursos disponíveis e finalidades. Além disso, ele funciona com uma lógica totalmente invertida dos aplicativos financeiros tradicionais, nos quais você anota seus gastos dia a dia e só vai ver o resultado no final do mês, o que, convenhamos, não é lá muito útil pra conseguir se planejar.

As regras são as seguintes:

1. Dê uma função para cada centavo

"To be budgeted" é o centro do orçamento e precisa sempre ser zerado quando há entradas de $. Quando está negativo significa que você orçou mais do que você realmente tem. Quando está positivo significa que você ainda precisa dar um destino praquele dinheiro.

É aí que você vai "gastar" todo o seu dinheiro de antemão, alocando-0 em todas as categorias (que você definiu de acordo com suas necessidades) e que servirá de orientação na hora de você gastar seu dinheiro. Essa técnica é frequentemente descrita como a técnica dos envelopes, em que você coloca uma quantia específica de dinheiro em cada envelope (categoria) que considera necessário para aquela função. Quando você vai gastar, você "abre o envelope", vê quanto tem de saldo naquela categoria e toma uma decisão.

Esse é você ativamente dando uma função praquele dinheiro cumprir. Aí entra todo tipo de gasto, desde o aluguel, água, luz e internet do mês corrente até os presentes de natal, o seguro do carro, o IPVA que só vence ano que vem, a viagem que você pretende fazer daqui a uns anos, priorizando conforme faça sentido na sua vida e no seu momento financeiro.

2. Reconheça seus gastos reais

Divida os gastos substanciais (nesse exemplo é o seguro da minha moto) em parcelas menores que cabem no seu orçamento

Em vez de ser pego de surpresa pelo pagamento do seguro do carro em janeiro, você divide esse tipo de gasto em várias parcelas (digamos, 12 parcelas menores em vez de uma paulada) desde já e quando o dia D chegar, a grana tá todinha lá no envelope, separada e pronta pra cumprir sua função e pra usar aquele desconto pelo pagamento à vista.

É normal ver essa regra com um certo ceticismo e ansiedade, ainda mais se você vai começar seu primeiro ciclo de orçamento faltando pouco tempo pra esse tipo de gasto, visto que seria preciso guardar uma quantia maior num período mais curto de tempo. Mas é uma maneira de já se deixar levar pelo método e racionalizar esses gastos, pra entrar no próximo ciclo com mais tranquilidade.

3. Saiba aceitar as porradas

É normal não conseguir seguir o que você se propôs a orçar 100% do tempo. Muito normal. Digamos que você separou menos grana pra gasolina esse mês e se propôs a ir de bike pro trabalho alguns dias, pra economizar, mas nesse mês choveu todo dia e você foi de carro mais do que planejou. Era algo fora do seu controle, você fez o que pôde e tudo bem.

Quando há um gasto excessivo em uma categoria específica, como nesse exemplo, basta fazer ajustes. Se você planejasse ir à praia num feriado e uma onda de ar frio baixa as temperaturas pra 7ºC, você desencana e ajusta seus planos, certo? É o mesmo princípio. Nesse caso, você libera dinheiro que enxerga como disponível em outras categorias, cobre o gasto excessivo e segue o barco. Pronto!

Meu orçamento me diz que eu gastei a mais nesse mês na categoria de Tarifa bancária, mas que eu tenho uma sobra em Manutenção da casa. Como não tenho nenhuma manutenção planejada esse mês, consigo realocar o saldo superavitário de uma categoria pra cobrir a que teve gastos excessivos

4. Envelheça seu dinheiro

Com a ajuda das outras três regras você já vai desenvolver outra visão de como sua grana precisa trabalhar. Melhorando seu planejamento, você tende a gastar menos do que ganha e com o tempo e o acúmulo dessa sobra mês a mês, vai chegar um momento em que você vai conseguir custear os gastos do mês corrente com a grana que entrou mês passado. Ou seja, o dinheiro que você está gastando hoje está na sua conta há pelo menos 30 dias, ele envelheceu.

Gaste o dinheiro ganho há mais tempo

Essa é uma das regras mais importantes, porque te ajuda a quebrar o ciclo esperar até que o próximo salário caia na conta pra poder viver. Você para de viver de salário em salário e fica com vários envelopes recheados esperando pra cumprir sua função, se prepara pra planejar a próxima viagem ou seus investimentos, com tranquilidade.

Recapitulando:

Você começa dando uma função pra cada centavo de dinheiro que entra na sua conta; se prepara pros gastos reais, não só pros do mês; se ajusta quando deixa de seguir seu orçamento, independente do motivo, persistindo; e finalmente envelhece seu dinheiro pra ter mais tranquilidade no futuro.

A frequência com que você aplica as regras depende do grau de controle que você quer ter, mas boa parte do tempo você vai inserir as transações do dia a dia e esperar. Esperar pra orçar quando houver alguma entrada, pra enxergar seu dinheiro ficando cada vez mais velho. Já bati os 90 dias no YNAB, ou seja, estava gastando hoje um dinheiro de 3 meses atrás. Hoje estou nos 63 dias, mas a meta não é que esse número seja enorme, mas sim que você consiga enxergar seus gastos e suas receitas como maneiras de viver melhor, ajustando o que achar necessário nessa jornada. E tudo bem se você precisar usar a grana envelhecida e diminuir esse número, é pra isso que você andou poupando, afinal de contas.

Finalmente, recomendo estudar como o aplicativo funciona e assistir os recursos que os próprios desenvolvedores já publicaram para ajudar seus usuários. Já ajudei várias pessoas a começar dando curso presencial e via teleconferência, então não se acanhe e me mande uma mensagem se estiver com alguma dificuldade com ele.

Esse artigo faz parte de uma série (LINK) na qual pretendo ensinar tudo sobre o YNAB e como criar seu orçamento pessoal.