E a Faca Entrou

É um erro supor que todos os homens, ou ao menos todos os ingleses, queiram ser livre. Ao contrário, se a liberdade acarretar responsabilidade, muito não querem nenhuma das duas. Felizes, trocariam a liberdade por uma segurança modesta (ainda que ilusória). Mesmo aqueles que dizem apreciar a liberdade ficam muito pouco entusiasmados quando se trata de aceitar as consequências dos atos. O propósito oculto em milhões de pessoas é ser livre para fazer, sem mais nem menos, o que quiserem e ter alguém para assumir quando as coisas derem errado.

Nas últimas décadas uma psicologia particular e característica surgiu na Inglaterra. Há muito se foram a civilidade, a independência firme e o admirável estoicismo que conduziram os ingleses ao longo dos anos de guerra. Isso foi substituído por uma lamúria acusatória constante, queixas e alegações especiais. O colapso do caráter britânico foi rápido e completo, assim como o colapso do poderio da Grã-Bretanha.

Ao ouvir o relato que as pessoas fazem das próprias vidas, como faço todos os dias, fico tomado de surpresa pela pequeníssima parte que atribuem aos próprios esforços, escolhas e ações. Implicitamente discordam da famosa máxima de Francis Bacon de que “o molde da fortuna dos homens está, principalmente, nas mãos deles”. Em vez disso, veem-se como massa nas mãos do destino.

É instrutivo ouvir a linguagem que utilizam para descrever suas vidas. A linguagem dos prisioneiros, em especial, nos ensina muito a respeito do fatalismo desonesto com que as pessoas buscam explicar-se para os outros, especialmente quando os outros estão em posição de ajudá-las de alguma maneira. Como médico que assiste pacientes uma ou duas vezes por semana, fico fascinado com o uso da voz passiva e de outros tipos de discursos utilizados pelos prisioneiros para indicar o suposto desamparo.. Descrevem-se como marionetes do acaso.

Não faz muito tempo, um assassino foi ao meu consultório na penitenciária logo após ser preso para buscar uma receita de metadona, droga em que era viciado. Disse-lhe que prescreveria uma dose menor, e que num espaço de tempo relativamente curto deixaria de receitá-la. Não iria receitar uma dose de manutenção para um homem condenado à prisão perpétua.

É — ele disse — ,sorte a minha de ter vindo para cá nessa acusação. 
Sorte? Já havia cumprido uma dezena de sentenças prisionais, muitas por violência, e, na noite em questão, trazia consigo uma faca, que deveria saber, por experiência, estar disposto a utilizar. A vítima do esfaqueamento, no entanto, é que foi o verdadeiro autor da ação homicida: se ela não estivesse lá, ele não a teria matado.

Meu assassino, de modo algum, está sozinho ao explicar seu feito como algo que se deveu a circunstâncias além do controle. Por coincidência, agora existem três esfaqueadores na prisão (dois deles em prisão perpétua) que utilizaram exatamente a mesma expressão ao me descrever o que aconteceu. “A faca entrou”, disseram, quando pressionados a recuperar a memória supostamente perdida dos acontecimentos.

A faca entrou, aparentemente, não guiada por mão humana. As tão odiadas vítimas eram encontradas pela faca, e facas levadas às cenas dos crimes não eram nada, se comparadas à força de vontade dos próprios objetos inanimados que determinaram o desfecho infeliz.

Psicólogos poderiam objetar, é claro, que as façanhas desses homens são tão abomináveis que seria natural e, talvez necessária, uma defesa psíquica para imputar a morte das vítimas a força fora do controle deles: um reconhecimento de responsabilidade muito rápido poderia resultar no colapso total de seus ânimos e, possivelmente, levaria ao suicídio. A evasão mental da própria responsabilidade pelos atos cometidos, contudo, não é de maneira alguma diferente da apresentada por criminosos de menos periculosidade: os que perpetram crimes contra a propriedade ou, mais especificamente, contra os possuidores de propriedade.

Bastam poucos exemplos. Um prisioneiro recém-encarcerado pela enésima vez veio a mim para reclamar que estava deprimido desde que o problema começara novamente. E qual era, perguntei, o problema que se iniciava periodicamente? Arrombar e invadir igrejas, roubar as peças de valor, incendiá-las e destruir as provas. E porque igrejas? Era porque fora arrastado quando criança a cerimônias tediosas por pais hipócritas e talvez quisesse vingar-se da religião? De jeito nenhum; era porque igrejas no geral tem uma segurança pobre, são fáceis de invadir e tinham objetos de prata valiosos.

Curiosamente, dessa explicação pragmática, razoável e honesta não inferiu a escolha pelo roubo de igrejas como uma carreira e que, por isso mesmo, ele era responsável pelo problema que misteriosamente o tomava cada vez que era solto: culpava as autoridades eclesiásticas pela segurança débil que lhe permitiu roubar pela primeira vez, e que depois só reforçou sua compulsão pelo roubo. Repetindo a polícia, que casa vez mais culpa os proprietários pelos roubos — por deixarem de tomar precauções devidas contra a malversação dos bens — em vez de culpar aqueles que verdadeiramente executaram o roubo, o ladrão de igrejas disse que as autoridades eclesiásticas deveriam saber de suas propensões e tomas as medidas necessárias para evitar que ele pudesse agir contra as igrejas.

Outro assaltante pediu para que eu lhe explicasse por que ele repetidamente invadia casas e roubava videocassetes. Perguntou-me agressivamente, como se “o sistema” o tivesse desapontado por não lhe oferecer essa resposta; como se fosse meu dever, como médico, proporcionar-lhe o segredo psicológico oculto que, uma vez revelado, poderia levá-lo, infalivelmente ao caminho da virtude. Até lá, continuaria invadindo as casas e roubando videocassetes (quando estivesse livre para fazê-lo), e a culpa seria minha.

Quando me recusei a examinar o seu passado, exclamou:
- Mas alguma coisa me obriga a fazer isso!
- Que tal sua ganância, preguiça e ânsia por excitação? — sugeri.
- Que tal a minha infância? — perguntou.
- Não tem nenhuma relação com isso — respondi firme.

Olhou para mim como se o tivesse atacado. Na verdade, pensei que o assunto era mais complexo do que admitira, mas não queria que compreendesse errado a minha mensagem principal: ele era o responsável pelos próprios atos.

Outro prisioneiro alegou sentir uma compulsão tão forte por roubar carro que era irresistível — um vício, disse-me. Roubou uns quarenta veículos em uma semana, mas, apesar disso, considerava ser, no fundo, uma boa pessoa porque nunca fora violento com ninguém, todos os veículos roubados tinham seguro e, portanto, seus donos não perdiam nada. Independente de qualquer incentivo financeiro para agir assim, afirmava, roubava carros pela excitação que isso lhe trazia: se evitasse fazê-lo por alguns dias, ficava inquieto, depressivo e aflito. Era um verdadeiro vício, repetia em intervalos frequentes, caso eu estivesse esquecido disso nesse meio tempo.

Hoje a concepção prevalecente de vício, em geral, é a de uma doença caracterizada por um ímpeto irresistível (mediado neuroquimicamente e hereditário por natureza) para consumir uma droga ou outra substância, ou para se comportar de maneira autodestrutiva ou antissocial. Um viciado não tem culpa e, por seu comportamento ser a manifestação de uma doença, possui tanto conteúdo moral quando as condições meteorológicas.

Portanto, o efeito de que o ladrão de carros dizia-me era: o furto compulsivo por automóveis não era somente culpa sua, mas a responsabilidade por impedi-lo de apresentar aquele comportamento, neste caro, era minha, já que eu era o médico que o tratava. E até que a profissão médica encontrasse o equivalente comportamental de um antibiótico no tratamento da pneumonia, ele continuaria a causar um enorme sofrimento inconveniente para os proprietários de carros e, ainda assim, considerar-se-ia, fundamentalmente, uma pessoa decente.

O fato de os criminosos sempre transferirem a responsabilidade de seus atos para outro local é ilustrada por algumas expressões que utilizam com mais frequência nas consultas. Ao descrever, por exemplo, a perda de equilíbrio para os levar a agredir quem quer que os desagrade suficientemente, dizem, “tenho cabeça quente”, “perdi a cabeça”.

O que exatamente querem dizer com isso? Querem dizer que consideram sofrer de uma forma de epilepsia ou outra patologia cerebral cuja única manifestação é a fúria involuntária, e que é dever do médico curá-los. Muitas vezes, põem-me de sobreaviso dizendo que até que ache a cura para tal comportamento, ou ao menos prescreva as drogas que solicitam, matarão ou mutilarão alguém. A responsabilidade, quando o fizerem, será minha e não deles, pois sei o que farão e terei fracassado em tentar evitar. Assim, suas doenças putativas não somente explicam e absolvem as más condutas anteriores, como também exoneram de qualquer conduta imprópria no futuro.

Além disso, por me advertirem das intenções de efetuarem futuros ataques, colocam-se como vítimas e não como perpetradores. Dizem às autoridades (no caso, eu) o que farão, e mesmo assim as autoridades (eu, de novo) nada fazem. Então, quando voltarem à prisão após cometer outro crime horroroso, sentir-se-ão prejudicados pois “o sistema”, representado pela minha pessoa, mais uma vez os decepcionou.

Se, no entanto, eu tomasse a direção oposta e sugerisse a detenção preventiva até que consigam controlar os temperamentos, sentir-se-iam ultrajados pela injustiça da medida. Que tal um habeas corpus? Que dizer da inocência té que provem a culpa? E nada deduzem do fato de que geralmente podem controlar os ânimos na presença de uma força suficientemente antagônica.

Criminosos violentos muitas vezes usam uma expressão auxiliar a “perder a cabeça” ao explicar seus atos: “não estava em mim”. Eis o “psicologuês” dos bairros pobres, eis como a doutrina do “verdadeiro eu” é refletida pelas lentes da degradação humana. O “verdadeiro eu” não guarda relação alguma com o “eu fenomênico”, quele “eu” que toma as bolsas das senhoras, entra nas casas das pessoas, espanca a mulher e filhos ou que bebe demais frequentemente e s envolve em brigas. Não, o “verdadeiro eu” é uma concepção imaculada, intocada pela conduta humana: é aquele núcleo inexpugnável de virtude que permite manter o respeito próprio, não importando o que faça. O que sou não é, de modo algum, determinado pelo que faço, e enquanto aquilo que fizer não tiver nenhum significado moral, caberá aos outros garantir que o meu “eu fenomênico” aja conforme o “verdadeiro eu”.

Por isso os detentos amiúde usam outra expressão: “preciso pôr a cabeça em ordem”. A imagem visual que têm de suas mentes, suspeito, é a de blocos de montar, empilhados de maneira desordenada, que o médico, ao remexê-los dentro do crânio, tem a capacidade e o dever de por em completa ordem assegurando que, dali em diante, toda a conduta será honesta, obediente À lei e economicamente vantajosa. Até que essa arrumação seja feita, sugestões construtivas — aprenda um ofício, matricule-se num curso por correspondência — esbarram no refrão: “Farei, quando tiver posto minha cabeça em ordem”.

No centro de toda a passividade e recusa de responsabilidade está uma profunda desonestidade — o que Sartre teria chamado de má fé. Muito embora os criminosos violentos possam tentar culpar outras pessoas, e mesmo que consigam transmitir qualquer aparência de sinceridade, sabem, ao menos por um tempo, que o que dizem é falso.

Isso fica claro no habito do viciado em drogas de, reiteradamente, alterar a linguagem segundo o interlocutor. Com médicos, assistentes sociais e agende de liberdade condicional, com todos os que possam se mostrar úteis, por receitar ou por ter capacidade de dar testemunho — , eles enfatizam o desejo esmagador e irresistível pela droga, a intolerabilidade dos efeitos da abstinência, os efeitos deletérios que a droga tem sobre o seu caráter, sobre a capacidade de julgamento e o comportamento. Entre os viciados, no entanto, a linguagem é bem diferente, otimista, em vez de abjeta: versa sobre onde se pode conseguir uma droga de melhor qualidade, onde a droga é mais barata e como aumentar os efeitos.

Suspeito (embora não possa provar, a não ser pro breves relatos) que o mesmo aconteça entre detentos. Creio que não é nova a observação de que a prisão são universidades do crime. Os prisioneiros, contudo, invariavelmente descrevem aos médicos e aos psicólogos as dificuldades de infância (que apresentam, na ocasião, como se fossem relíquias de família), os pais violentos ou ausente, a pobreza e todas as dificuldades e desvantagens que são herança da raça urbana. Entre ele, no entanto, qual será o discurso quando estabelecem contatos, aprendem novas técnicas e zombam dos pobre tolos que ganham a vida honestamente, mas nunca ficam ricos?

A perspectiva desonesta e interesseira fica aparente na postura que tratam aqueles que acreditam ter-lhe feito mal. Por exemplo, sobre os policiais que supões (volta e meia, de maneira razoável) que os tenham espancado não dizem: “Pobre policiais! Foram criados em lares autoritários e agora projetam sua raiva em mim, mas, na verdade, ela é dirigida aos pais que os maltrataram”. Ao contrário, dizem com força e emoções explosivas: “os imbecis!”. Pressupõem que a polícia age por livre-arbítrio, para não dizer por uma vontade malévola.

O modo de o prisioneiro apresentar-se ao público muitas vezes guarda curiosa semelhança com o retrato que deles fazem os progressistas. É como se dissessem: “Vocês querem que eu pareça uma vítima das circunstâncias? Pois bem, para você serei vítima”. Ao repetir essa história, começa a acreditar nela, ao menos acredita por certo tempo e com uma parcela de sua inteligência. A negação da culpa — tanto jurídica quanto moral — se torna, dessa maneira, possível frente à lembranças das menores circunstâncias do crime.

O homem sempre teve a capacidade de enganar os outros e, é claro, de autoengano. Foi Friedrich Nietzsche quem fez a famosa observação de que o orgulho e o amor-próprio não têm dificuldade de superar a memória, ecada mecanismo mental de defesa conhecido pelo psicólogo moderno aparece em alguma parte da obra de William Shakespeare. A impressão que fica, no entanto, é a de facilidade com que as pessoas rejeitam a responsabilidade por aquilo que fizeram — a desonestidade intelectual e emocional sobre as próprias ações — que aumentou enormemente nas últimas décadas.

Por que isso acontece exatamente quando, objetivamente falando, a liberdade e a oportunidade para o indivíduo jamais foram tão grandes?

Em primeiro lugar, existe hoje um eleitorado muito ampliado para as visões progressistas: legiões de voluntários e cuidadores, assistentes sociais e terapeutas, cujas carreiras e receitas dependem da suposta incapacidade de um grande número de pessoas de se defenderem ou de se comportar razoavelmente. Sem os drogados, os assaltantes, e outros supostamente impotentes que se deparam com as próprias inclinações indesejáveis, esses redentores profissionais não teriam ocupação. Tais pessoas têm grande interesse em psicopatologias e sua visão terapêutica é a do paciente passivo, vítima desamparada de males que legitimam o próprio comportamento do qual pretendem redimi-lo. De fato, as vantagens para o malfeitor de parecer desemparado são, hoje, tão evidentes que quase não precisa ser encorajado a fazê-lo.

Em segundo lugar, há uma ampla disseminação dos conceitos psicoterapêuticos, ainda que de forma adulterada ou mal interpretada. Esses conceitos se tornaram lugar comum, mesmo para os ignorantes. Assim, foi incutida a ideia de que, se a pessoa não conhece ou compreende os motivos inconscientes dos próprios atos, não é verdadeiramente responsável por eles. Isso se aplica, é claro, àqueles atos que podem ser tidos como indesejávaies; não há dúvidas quanto aos próprios méritos. Uma vez que não exista uma única explicação derradeira para alguma coisa, a pessoas sempre pode alegar ignorância dos próprios motivos. Essa é uma escapatória perpétua.

Terceiro, a anuência geral do determinismo sociológico, em especial, pelas classes médias abarrotadas de culpa. Associações estatísticas têm sido utilizadas indiscriminadamente como prova do nexo causal. Assim, se o comportamento criminoso é mais comum entre as classes pobres, deve ser a pobreza que causa o crime.

Ninguém, é claro, se sente sociologicamente determinado — certamente, não o sociólogo, e poucos progressistas que apoiam tais princípios reconhecem suas consequências profundamente desumanizadoras. Se a pobreza é a causa do crime, os assaltante não decidem invadir as casas mais do que as amebas decidem mover seus pseudópodos para pegar uma partícula de alimento. São autômatos — e, talvez, devam ser tratados como tais.

Eis que vem à tona a influência subliminar da filosofia marxista: a noção de que não é a consciência do homem que determina a existência, mas, ao contrário, a existência social que determina a consciência. Se é assim, os homens ainda deveriam morar em cavernas, mas é bastante verossímil para abalar a confiança das classes médias que o crime é um problema moral e não um problema de disposição de ânimo.

Nessa rica mistura de incerteza e equívoco. os historiadores sociais tendem a acrescentar uma pitada de provocação, assinalando que as classes médias viam o crime como um problema moral desde o século XVIII, quando para muitos malfeitores a situação era realmente outra, já que, nessa época, muitas vezes o único modo de conseguir alimento era roubar. Afirmar isso, é claro, é negligenciar a mudança fundamental nas oportunidades da vida que ocorrem desde então. Na Londres georgiana, por exemplo, a expectativa de vida ao nascer estava em torno de 25 anos, ao passo que hoje esta em 75 anos. No auge das era vitoriana, a expectativa da vida da família real era 50% mais baixa que a das parcelas mais pobres da população de hoje. Certamente, agarrar-se a explicações que podem ter tido certa força, mas que não são mais plausíveis, no sentido mais literal, é ser reacionário.

O próprio modo de explicação oferecido pelos progressistas para o crime moderno — que parte das condições sociais direto para o comportamento, sem passar pela mente humana — oferece aos criminosos uma desculpa perfeita; desculpa cuja falsidade é percebida pela parcela de inteligência que possuem mas que, no entanto, é útil e conveniente para lidar com a burocracia.

Por fim, consideramos o efeito popular da constante repetição das injustiças realizadas pelos meios de comunicação. As pessoas, longe de se acharem extremamente afortunadas se comparadas a todas as populações anteriores, passam a acreditar que vivem nos dias atuais na pior das épocas e sob o mais injustos regimes. Cada convicção errônea, cada exemplo de conduta ilegal da polícia são tão alardeados que até os criminosos profissionais, mesmo aqueles que cometeram os atos mais horrorosos, devem aprioristicamente sentir que podem ter sido tratados com injustiça ou hipocrisia.

E a noção disseminada de que a desigualdade material é, em si, uma si, um símbolo de injustiça institucionalizada também ajuda a fomentar o crime. Se a propriedade é um roubo, logo, o roubo é uma forma de justa retribuição. Isso leva ao desenvolvimento de um fenômeno extremamente curiosos: o ladrão ético. Esse ladrão orgulha-se de roubar somente daqueles que, a seu ver, podem suportar a perda. Assim, vi muitos assaltantes dizerem, num ardor de satisfação pessoal, que não roubam idosos, crianças e pobres, pois isso seria errado.

Na verdade, você rouba pessoas como eu — disse a ele. 
( Por acaso, a casa defronte da minha foi assaltada quatro vezes em dois anos.)
Eles concordam; e por mais estranho que pareça, esperam que eu aprove essa criminalidade contida. As coisas já chegaram a esse ponto.

Theodore Dalrymple, 1994.


Fonte: City Journal

Pode ser encontrado no livro A vida na Sarjeta
Em inglês Life At The Bottom

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