Um Preconceito Sempre Será Substituído por Outro

Derrubar determinado preconceito não significa destruir determinado preconceito enquanto tal. Na verdade, implica inculcar outro preconceito. O preconceito que afirma ser errado criar um filho fora do casamento foi substituído por outro que diz que não há absolutamente nada de errado com isso. Curiosamente, a classe que primeiramente se opôs em em bases intelectuais contra o preconceito original, isto é, a bem-educada classe média alta, é a que menos, de fato, se comporta como se o preconceito original fosse injustificável. Em outra palavras, para essa classe, trata-se de mero exercício retórico e de exibicionismo intelectual, no sentido de conferir ao sujeito uma aura de ousadia, generosidade, sagacidade, sugerindo a presença de uma mente independente aos olhos de seus pares, em vez de ser uma real questão de conduta prática. Quando George Bernard Shaw caracterizou o casamento como uma forma legalizada de prostituição, ele não estava preocupado em assim exigir justiça e igualdade para as mulheres, mas muito mais em encorajar a dissolução, como um ideal, dos laços permanentes entre um homem e uma mulher. Infelizmente, a bastardia em massa não promove qualquer liberdade às mulheres.
Mas que isso prova, podemos perguntar? O problema não seria uma ressaca de um preconceito original?
Um vislumbre de um importante aspecto da realidade da bastardia em massa (ao menos na Grã Bretanha) pode ser apreendido a partir de um relatório recentemente publicado pela fundação Joseph Rowntree, uma instituição de caridade dedicada ao estudo e à eliminação da pobreza urbana. Os pesquisadores entrevistaram 41 adolescentes, alguns de até 13 anos de idade, as quais decidiram ter um bebê. (Os autores do relatório esqueceram-se de salientar que a maior parte das entrevistadas tinham sido, aos olhos da lei, vitimas de crime sexual, uma omissão um tanto quanto esquisita numa sociedade histericamente obsessiva no tocante aos perigos da pedofilia.)
O relatório faz citações literais de testemunhos das garotas, e a primeira coisa que chama a atenção do leitor é a incoerência verbal no uso da própria língua nativa. O vocabulário é bastante pobre, e a sua sintaxe abominável. Essas meninas lutam para se fazer compreender e, como se fossem vítimas de um derrame, veem-se desprovidas de vocabulário suficiente para articular os seus sentimentos e pensamentos. Talvez, isso não seja de todo uma surpresa, pois uma das coisas que têm em comum é o seu desdém pela escola e pela educação (admitidamente não se trata da mesma coisa, e parece não haver mais de fato a menor relação entre elas no mundo em que essas garotas são criadas).
O efeito intergeracional torna-se evidente:
Podia ter me dado melhor […] Não acho que minha mãe… Meu pai [ausente], tipo, ele diria… tipo… é isso… “quero o melhor para você” […] Minha mãe, não, era tipo só “vai pra escola”. Ela não perguntava da lição, essas coisas… pra vê se tava pronta. Tipo, ela não perguntava da lição se tava feita, coisa do tipo.
(Podemos imaginar se não seria melhor para o seu futuro não ter crescido num lugar onde havia preconceito social contra a educação, em vez de o inverso)
Essas moças entrevistadas têm uma profunda percepção da própria autoridade social — na verdade, um preconceito que elas não derivaram de uma reflexão pessoal baseada em princípios filosóficos, mas a partir de uma aceitação irrefletida de hábitos sociais em meio aos quais nasceram. Uma garota de 14 anos de idade disse: “Alguns professores eram ok, outros eu xingava. Não gostava deles”.
A ideia de que não gostar de alguém não constitui base suficiente para xingar esse alguém, o fato de relação sociais toleráveis requerem auto-controle, de viver em sociedade implicar o dever de se submeter a limites não foram noções inculcadas nessa garota como um preconceito, e agora parecia muito improvável que ela aprendesse essas coisas, e muito menos provável ainda que fosse conformar o seu comportamento a tais padrões. A consequência pouco encorajadora seria ela continuar a interpretas todas as relações humanas como uma luta de poder, e da qual provavelmente, na maioria das ocasiões, sairá como perdedora, dada suas condições de pobreza relativa, falta de educação, vulnerabilidade e fragilidade para ser explorada por ser mãe solteira, e absolutamente dependente, para o seu sustento, de uma burocracia estatal para a qual não passa de um número, com toda frustração, vitimização e miséria resultantes e decorrentes de uma posição como essa.
Outra garota, ao explicar para o entrevistador por que não gostava da escola, disse:
Todos os professores fazem você se levantar quando entram na sala. Porque devo me levantar? Não me levanto para os meus pais [separados], então porque devo me levantar para eles? É como se… muito assim, você é criança, eu sou o professor.
Contida na passagem está a suposição de que, uma vez que todas as pessoas são criadas iguais, todas as relações sociais devem ser então conduzidas sob as mesmas bases, ou seja, que aquilo que é apropriado em relação aos pais (descontando-se, é claro, honra e obediência) será apropriado para todo o resto, em todas as circunstâncias. A autoridade é derivada do mero fato de se estar respirando, por meio do equivalente secular da divina providência — isso quer dizer, por direito natural. Consequentemente, será difícil para essas pessoas aceitarem o fato de o mundo não estar tão interessado nelas quanto estão as pessoas que compreendem o seu círculo familiar. E uma vez que essa atitude inerente de autoridade já tenha entrado no tecido das pressuposições de todos à sua volta, não será surpresa alguma constatar que, ao informar os seus pais sobre o mau comportamento de seus filhos, os professores tenham de lidar com pais que tomam esse tipo de advertência como insulto pessoal e jamais culpem os seus filhos, os quais constituem os limites externos de seus próprios egos, embora no passado teriam agido de forma diferente, mas agora culpam os professores e a escola, os quais cometeram o crime de lesa majestade. Um preconceito cego a favor da autoridade constituída foi substituído por outro preconceito cego, o que vê em qualquer autoridade, exceto aquela que emana da própria pessoas, algo inerentemente ilegítimo.
Ninguém aqui quer sugerir que os pais devam ter uma inflexível fé nos professores, uma que seja insensível à evidência de malignidade pessoal; mas um preconceito que entende que, quando os professores reclamam da conduta de uma criança, eles provavelmente estarão mais vezes certos do que errados, conduziria a uma melhoria geral, em vez de uma deterioração, nessa conduta infantil.
Podemos nos esquivar de tomar posição diante de qualquer questão dada, sem dúvida, mas não podemos nos furtar de ter alguma atitude, seja lá qual for, em relação à questão.
Theodore Dalrymple.
Pode ser encontrado no livro Em Defesa do Preconceito
Em inglês In Praise of Prejudice