Adeus Forno de Microondas

Esses dias eu tava zapeando pelo Netflix e tropecei em "Soylent Green".

Se você já assitiu, pode pular pra depois do poster do filme, logo abaixo.

Se você nunca viu, vou tentar resumir: é uma ficção-científica de 1973 estrelada por Charlton Heston que mostra um futuro distópico, uma Nova Iorque over-populada, o planeta destruído, os oceanos mortos, falta de recursos, fome e pobreza generalizada.

O único alimento disponível pra maioria da população é fabricado pela empresa Soylent, e é basicamente uma bolacha sintetizada, apresentadas nas cores amarela, laranja e verde.

O Soylent Verde é a mais nova adição ao cardápio — e mais procurado — e segundo o fabricante é feito de algas marinhas e planctons (ué? mas o oceano não morreu?…)

Eu havia assistido em VHS nos anos 90 e resolvi re-visitar.

O filme é datado, as tecnologias "futuristas" são engraçadas (as pessoas se comunicam ainda por telefone com fio!), algumas atuações são bizarras e o roteiro é maomeno.

Mas o argumento é foda.

SPOILER!

(Não leia mais se não quiser saber o final do filme)

Charlton Heston faz o papel de um detetive que investiga o assassinato de um executivo da Soylent, e entre algumas reviravoltas descobre o verdadeiro ingrediente do Soylent Green: cadáveres humanos.

O motivo pra tal bestialidade não é explicado no filme.

Talvez tenham inventado esse produto como uma solução pra quantidade brutal de mortos se empilhando pelas ruas de um mundo em frangalhos.

Talvez seja só um plot twist pra chocar a espectador e fazer todo mundo comentar, hypar e quem sabe prestar atenção nos problemas reais levantados pelo filme (poluição, aquecimento global, efeito-estufa, super-população e desigualdade social).

Mas o que mais me chamou a atenção foi o que os algoritmos loucos do Facebook e Google fizeram nos meus dias seguintes:

Começaram a aparecer links pra matérias sobre carne feita em laboratório, sobre food printing, e um substituto de refeições sintético produzido por uma empresa chamada (pasmem!) Soylent.

(Sim, um nerd metido a malandrão criou uma marca de comida sintética e a batizou com o mesmo nome de uma comida sintética ficcional feita de seres humanos. Puta bom gosto!)

A cada link que eu clicava, aumentava um sentimento de fascínio e nojo, simultaneamente.

Foi-se o tempo em que a comida do futuro era inspirada no milagre do micro-ondas.

Lembra do re-hidratador de comida do “De Volta Pro Futuro 2”?

Ou o forno mágico que fazia os frangos deliciosos da Leeloo em “O 5º Elemento” (“chicken! good!”)!

Eu me lembro da primeira vez que estourei um saco de pipoca num micro-ondas: era 1986 e meu pai tinha acabado de voltar de uma viajem pros E.U.A. com uns sacos de microwave popcorn na mala — coisa raríssima aqui no Brasil — e eu sentei na frente do forno pra assistir o milagre.

Tudo indicava que no futuro a tecnologia iria caminhar pra algo parecido: um forno maluco que produziria algo familiar, delicioso e recohecível, que te lembraria os quitutes da sua avó.

Mas o que começa a se delinear mais parece um experimento alienígena, algo que mistura robos com tecidos orgânicos.

Essa carne "in vitro" é muito bizarra: feita a partir de células-tronco e cultivada numa gosma de aminoácidos e outros componentes químicos, faz aquela lenda da carne de minhoca do McDonalds parecer historinha de ninar.

O bagulho foi criado pelo Dr. Mark Post, um professor e pesquisador holandês, e já foi testado por chefs e críticos de culinária, sendo relativamente bem aceito.

Entretanto a produção em massa só seria possível com uma redução drástica no custo — a primeira fornada custou €250,000 e foi bancada pelo co-fundador do Google, Sergey Brin.

Uma das questões levantadas pela carne sintetizada é se os vegetarianos poderiam come-la? Afinal, nenhum animal foi abatido ou mal-tratado durante a produção, e os que optam pelo vegetarianismo pelo respeito às outras espécies e cuidados com o meio-ambiente (e não por uma razão puramente alimentar) não deveriam sentir culpa em provar um lab-buger.

Continuo clicando e acabo caindo no site do Bistro In Vitro, um restaurante fictício na Holanda que serve comida criada em laboratório. Você pode até fazer reservas — pra 2028!

O site é uma brincadeira com a idéia de comida sintetizada, e levanta de forma engraçada a discussão das possibilidades da comida gerada em laboratório, um convite pra pensar sobre novas formas de produção de alimento, e ilustra algumas possibilidades desse novo negócio de uma forma bem interessante.

De tudo que vi sobre carne in vitro confesso que fiquei com um nojinho, e não pude deixar de pensar no Soylent Green, como se o hamburguer de €250,000 fosse na verdade feito naquela máquina de moer estudantes do “The Wall”.

Outra novidade pintando por aí são as impressoras de comida, que usam a mesma lógica das impressoras 3D, mas ao invés do insumo ser plástico ou outro material de construção, é algo comestível.

Tem desde coisas abstratas, produzidos em sistemas de 3D printing mais convencionais, como esse açúcar colorido produzido pela 3D systems:

Ou "delícias" mais realistas como esse pseudo-hambúrguer inteiramente impresso pela impressora Foodini:

Eu fico um pouco enojado com os sistemas parecidos com esse da Foodini, porque parece que a impressora ta defecando.

Tipo, você vai comer algo que foi “cagado” de uma máquina.

Essa tecnologia já já vai estar na sua casa, e periga rolar a mesma revolução que aconteceu com o micro-ondas nos anos 80/90.

A Barilla já entrou na dança, em parceria com a TNO, e apresentou em 2015 isso aqui:

Acho que eu comeria de boa esse macarra digital, apesar de ser cagado pela maquininha.

E por último quero falar sobre a Soylent, empresa criada em 2013 por Rob Rhinehart baseada em seus experimentos pessoais para substituir as refeições normais do dia-a-dia por um milk-shake de nutrientes essenciais.

Tipo, o cara não curte comer.

Não gosta de sentar numa cantina e pedir aquela lasanha quatro-queijos. Nem de fritar um ovão de manhã e meter no meio do pão francês.

Preparar um leitão a pururuca então? Nem pensar.

Coitado.

Eu tinha lido sobre esse maluco numa matéria da Vice há anos atrás, e achei o cara um mala.

O negócio decolou, e existe uma linha de produtos Soylent pra quem não curte comer e prefere ingerir um coquetel de nutrientes:

Tinha até uma barrinha sólida da Soylent, mas foi tirada do mercado por causar náuseas, vômitos e diarréia em alguns consumidores.

Eu acho muito triste alguém abdicar de comer pra ingerir esse troço, sem falar nas consequências fisiológicas de só ingerir líquidos e não mastigar mais — mas como não sou médico, não vou nem entrar nesse assunto.

Comer não é só se alimentar, “encher o tanque”, “recarregar as baterias”.

É uma experiência, e tende a ser coletiva em muitos casos, conectando pessoas e enriquecendo nossas vidas.

Uma iniciativa como o Soylent talvez tenha uma aplicação mais eficaz em casos de desnutrição, zonas de guerra e escassez de comida.

Mas é possível que surja um novo tipo de gente que abra mão de refeições e adote uma alimentação artificial. E isso pode se tornar normal.

Assim como imprimir comida em casa e cultivar hambúrguer numa estufa possa vir a ser o padrão, e as gerações futuras olhem pra trás e não entendam a loucura que era a produção e o preparo de comida de seus ancestrais.

Talvez o microondas seja substituído por um forno-impressora-estufa, para o qual você compra um cartucho refil com elementos sintéticos, e em instantes você tenha um prato pronto e fumegante sintetizado pro seu deleite.

Açougues vão ser vistos como masmorras terríveis, e as futuras gerações não vão acreditar que você podia entrar em uma “loja de cadáveres”.

“Como assim? Vocês cozinhavam comidas no fogo?… Que atrasados! Que bárbaros!”

Já sabemos que não existe a possibilidade de continuarmos consumindo carne e laticínios no volume que consumimos, pois não existem recursos pra que isso seja feito de forma sustentável e saudável.

Também sabemos do desperdício presente na nossa cadeia de produção e distribuição de alimentos. Um terço da produção global vai pro lixo.

Com certeza teremos que adotar novas abordagens e tecnologias pra construir um futuro menos sombrio.

Mas o que me incomoda é essa idéia que a solução vai ser sempre remediar o erro, e contar com a ciência, e só a ciência, pra suprir as demandas de uma cultura do consumo insana.

Ninguém questiona a cultura do consumo, a loucura que é a abundância que se tornou normal na segunda metade do século XX.

É como se isso sempre tivesse estado aí. Como se o mundo sempre tivesse sido assim.

E parece que tudo será resolvido com um forno-impressora-estufa que vai produzir as delícias mais impensáveis, por apenas 299,90 em 5x nas Casas Bahia.

Bom apetite!

P.S.: Sugiro a leitura desse texto aqui (em inglês), de autoria da Dana Perls, que levanta várias questões sobre o futuro da alimentação, e coloca uma perspectiva muito boa sobre os perigos de deixar essa moda tecnológica fagocitar qualquer restinho de natureza que exista na nossa alimentação.