Como a falta de representatividade deturpa transexuais na ficção

E colabora para manter essas pessoas marginalizadas

Felippe Franco
Jul 23, 2017 · 5 min read
Laerte Coutinho é tema de documentário de Eliane Brum e Lygia Barbosa | Foto: divulgação/Netflix

Você já deve ter visto um personagem transexual na TV. Também pode ter sido no cinema, na internet. O fato é que há grandes chances desse papel ter sido interpretado por um ator cisgênero — isto é, pessoas que se identificam com o sexo que nasceram. Elas costumam ser escolhidos para a função, muitas vezes atuando em histórias escritas por autores igualmente cis. A comunidade trans vê isso como uma exclusão que ajuda a distorcer a realidade e a alimentar o preconceito.

Tema de um documentário lançado pelo Netflix em maio deste ano, a cartunista Laerte Coutinho falou sobre a dificuldade de se aceitar trans sem ter figuras respeitadas em quem se espelhar:

“Ser gay era um tabu, quase uma maldição, porque esse assunto sempre aparecia como doença, crime, pecado.”

“As pessoas usam ‘coragem’ pra definir o meu processo e eu penso: eu levei 60 anos, gente! Só fiz isso depois que meus filhos estavam grandes, sabendo que eu teria pouca perda de público”, lembrou no lançamento do filme. “O que aterroriza as pessoas é justamente o risco da carreira, da família.”

‘Black-face trans’

A perda de oportunidades é uma realidade até nas áreas consideradas mais progressistas. Conversei com a atriz Dandara Vital, de 26 anos, que conta ver as portas se fechando com frequência para pessoas como ela: “Não é à toa que há tantas trans na prostituição. Hoje, para que eu possa estar atuando, passei a criar os meus projetos. O teatro não dá chance. TV e cinema, muito menos.”

Seu esforço a levou a participar de uma cena de A Força do Querer, da Globo. A novela, de 2017, foi elogiada pelo espaço dado a pessoas trans. “A indústria ainda não confia em trans para personagens fortes, que se representem. Os papéis são pequenos”, observa.

Dandara Vital em cena de A Força do Querer | Foto: reprodução/Globo

Dandara é diretora no grupo Damas em Cenas, especializado na formação de atores LGBT, e uma das autoras do manifesto “Diga Não ao Trans Fake". O texto pede que atores cis não interpretem personagens transexuais.

“Dizem que o ator é livre para representar o que ele quiser, mas acima de ser livre ele tem que ter consciência”, diz.

“Isso é o black face trans. É como pegar uma pessoa branca e pintar a cara de preto pra interpretar pessoas negras e fazer deboche”.

Artistas na fogueira

O lançamento do filme A Glória e a Graça, em março, reacendeu a discussão. Carolina Ferraz dá vida a uma travesti bem sucedida que passa a cuidar dos sobrinhos quando a irmã descobre uma doença terminal. Alvo de críticas, a atriz defende que sua visibilidade pode contribuir para a causa.

“Esse manifesto é da maior legitimidade. A gente vive em uma sociedade tão reacionária que você não tem oportunidade de representar a si próprio”, disse ao canal do jornalista Alvaro Leme.

“Se esse filme trouxer alguma luz para a questão dos transgêneros no Brasil, já vou ficar super feliz. Quando eu li o roteiro, eu me apaixonei pela humanidade. O fato de ela ser uma travesti só engrandeceu.”

No Emmy de 2016, o ator Jeffrey Tambor também fez seu mea-culpa ao ser premiado pelo papel de uma transexual. Ele interpreta Maura Pfefferman na série Transparent, da Amazon, desde 2014:

“Seria diferente se as pessoas trans tivessem contado sua histórias há centenas de anos, mas não puderam. É um problema de verdade. Está na hora de darmos as chaves do reino e abrir as portas (…) Eu gostaria de ser o último ator cis interpretando uma personagem trans.”

Disputa desigual

Pelo menos três grandes produções de TV em atividade contam com atrizes trans no elenco. Orange is the New Black tem Laverne Cox, indicada ao Emmy em 2014; Sense 8, Jamie Clayton. Em A Força do Querer, Maria Clara Spinelli interpreta uma personagem cis pela primeira vez.

A oportunidade de Jamie Clayton foi potencializada pela presença das autoras Lilly e Lana Wachowski — irmãs que dirigiram Matrix, entre outros filmes, e se revelaram trans em 2016. “Sei que serei protegida e representada de uma maneira que as trans nunca foram antes na televisão”, afirmou a atriz.

Jamie Clayton em ‘Sense 8’ | Foto: divulgação/Netflix

A dupla que criou Sense 8 é um caso raro de transexual com voz na indústria do entretenimento. Como Laerte, aproveitam a posição conquistada enquanto ainda se identificavam como homens. Ativistas e profissionais da área defendem que esse espaço de fala é importante para evitar que personagens trans, quando existam, sejam meras caricaturas.

Clichê que mancha

Um estudo de 2014 da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) se propôs a analisar a representação de homossexuais, lésbicas, bi e transexuais no cinema. Falei com Caio Cesar Rocha, autor da pesquisa em parceria com Danilo Pereira, que destacou o desequilíbrio no resultado:

“Os personagens transexuais e travestis, sem dúvida, são os mais marginalizados. Em diversas produções analisadas percebemos que essas personas foram retratadas sem a profundidade social, afetiva e psicológica que merecem.”

O levantamento destaca que o personagens gays passaram a perder o tom de deboche e vilania no final dos anos 1960, mas o mesmo não aconteceu com os trans. “O que vimos foram personagens caricaturados de forma quase carnavalesca, como também marcados por problemas que façam o público entendê-los como indesejáveis e patológicos“, analisa Caio.

‘Tudo Sobre Minha Mãe’, de Pedro Almodóvar | Foto: divulgação

Apesar da maioria de exemplos negativos, o estudo também encontrou obras que se saíram bem. “Tudo Sobre Minha Mãe, do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, é um bom exemplo”, lembra. “O filme contempla, de maneira cuidadosa, uma abordagem complexa do ser trans sem os clichês comuns que encontramos na maioria das produções.”

Publicado originalmente no Radar Criativo.

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