O desafio da ficção para superar o tabu e falar de suicídio

A opinião de especialistas sobre histórias pesadas como a de 13 Reasons Why

Felippe Franco
Apr 7, 2017 · 5 min read

Este texto não tem spoilers. Os detalhes sobre o enredo se resumem informações reveladas na sinopse ou no primeiro episódio.

13 Reasons Why está entre os assuntos mais comentados nas redes sociais desde a estreia na Netflix, há uma semana. Fora da internet o impacto também impressiona. O Centro de Valorização da Vida registrou aumento de 100% na procura por ajuda, e até ontem pelo menos 50 pedidos citavam diretamente a série. São pessoas de todo o Brasil com sentimentos semelhantes aos de Hannah Baker, protagonista de 17 anos que decide se matar após episódios de humilhação pública e desamparo.

A garota deixa uma caixa de fitas cassetes explicando os motivos para ter desistido da vida. As gravações estão repletas de histórias envolvendo pessoas próximas e servem de narração para cada episódio, garantindo um ar de suspense ao drama. A produção, baseada no livro de mesmo nome de Jay Asher, talvez frustre quem espera uma mera novelinha teen.

O público acha que faltou um binge-watching de fita cassete

Um dos principais alertas já está no título: a decisão de tirar a vida não acontece de uma hora para outra, mas após uma sucessão de eventos negativos gerar um acúmulo insustentável. São os “13 porquês”, que na vida real nem sempre ficam tão claros para a vítima como na ficção.

Abordar suicídio, bullying e depressão, sobretudo envolvendo adolescentes, requer doses redobradas de cuidado. A Organização Mundial da Saúde recomenda aos meios de comunicação não publicar fotos e notas de suicídio, nem glorificar ou tratar o assunto com sensacionalismo.

O jornalismo historicamente evita falar sobre esse tipo de caso. A presença em livros, filmes e peças de teatro é menos incomum, mas ainda delicado. Entre os comentários sobre 13 Reasons Why, houve quem considerasse a ideia irresponsável. Mas falar de suicídio também pode ser falar em prevenção.

A abordagem do tema na ficção é defendida por alguns especialistas. A psicóloga e suicidologista Karina Okajima Fukumitsu acredita que o tabu pode impedir a ajuda: “[A falta de comunicação] acentua o preconceito e reforça a ideia prejudicial de que não se pode perguntar diretamente o que de tão ruim está acontecendo para a pessoa desejar se matar”, explicou.

O ator Igor Cosso é autor da peça Ponte Golden Gate, que também fala abertamente sobre suicídio. “Quando a Netflix lançou a série eu recebi um monte de mensagens dizendo que eu TINHA que assistir”, contou ao Radar Criativo. “Estou na metade da temporada. Às vezes acho que estão tratando de forma muito romanceada o suicídio, outras horas não.”

Ele sai em defesa da arte como esclarecimento, mas com responsabilidade:

“O tema deveria ser mais explorado de forma inteligente e cuidadosa para salvar pessoas que estejam pensando em cometer esse ato fatal”, opinou, lembrando que uma pessoa se mata a cada 40 segundos. “Os números são altíssimos”.

O projeto de Igor, premiado no Festival de Teatro Universitário de 2015, foi pensado ao assistir o documentário The Bridge, sobre pessoas que se jogaram da ponte Golden Gate, em São Francisco— cartão postal americano que também representa uma lembrança amarga para muitas famílias.

‘Ponte Golden Gate’: Igor planeja nova temporada no Rio e apresentação em Belo Horizonte

A peça é uma tragicomédia sobre um grupo de brasileiros que se encontra no local, cada um por seus motivos, e decide se matar. “Eu tive preocupação em diversas questões [ao escrever]”, contou Igor. “Não queria definitivamente ser panfletário em relação ao suicídio. Também não queria julgar essa escolha. Minha preocupação maior era que o texto enaltecesse a vontade de viver. E que fosse leve. O tema já era muito pesado por si só.”

Muitas críticas a 13 Reasons Why dizem a respeito à intensidade do drama ao longo dos episódios. A trama seria de fato capaz de alertar sobre problemas emocionais e propor reflexões, mas também de desestabilizar quem já estiver com um quadro de depressão.

“O programa tem o potencial de causar danos a pessoas que estão emocionalmente fragilizadas e que poderão, sim, ser influenciadas negativamente”, alertou o psiquiatra Luís Fernando Tófoli no Facebook neste domingo. “Elas deveriam ser desencorajadas a assistir a série.”

Tófoli também lembra que a produção do Netflix despeita a recomendação da Organização Mundial da Saúde sobre não compartilhar técnicas para tirar a vida. “O principal erro da série é, de longe, mostrar o suicídio de Hannah. É absolutamente desnecessária na narrativa e claramente contrária ao que apregoam os manuais”, completou.

O crítico de cinema Pablo Villaça também se posicionou contra a série: “Mesmo com boas intenções, tem um potencial imenso de desequilibrar aqueles que estão lutando para manter o próprio balanço.”

Entre erros e acertos, o roteiro não deixa de tocar em situações que acontecem com frequência fora da ficção. Karina Fukumitsu relata a falta de confiança dos pacientes após a revelação de conteúdos íntimos, como acontece com a protagonista no primeiro episódio de 13 Reasons Why.

“A exposição escancarada daquilo que não é considerado socialmente nobre provoca vergonha, culpa e autoacusação. Quando isso estabelece aliança com a ausência de acolhimento, pode haver necessidade de se isolar”, explica.

No entanto, ela lembra que se afastar do mundo real diminui as possibilidades de criar novas maneiras de lidar com as experiências.

O isolamento repentino é apenas um dos alertas que algo de errado pode estar acontecendo na cabeça de um adolescente. O sinal amarelo ainda inclui pessimismo, ansiedade e sofrimento, problemas de sono, aumento do uso de álcool e drogas, impulsividade e interesse por situações de risco.

A psicóloga enviou ao Radar uma mensagem importante para jovens que pensam em se matar. Clique aqui para ler na íntegra.

Hashtag #NãoSejaUmPorque foi criada para falar sobre assuntos da série

Tocar no assunto foi importante para o bullying ser levado a sério no passado. “As primeiras investigações ganharam força em 1982, quando jornais noticiaram o suicídio de três adolescentes relacionando a severos episódios de vitimização na escola”, nos contou Felipe Alckmin Carvalho, pesquisador do Departamento de Psicologia da USP.

O bullying está entre as razões para Hannah perder suas perspectivas de futuro. Na vida real, a perseguição pode ser grave mesmo quando não chega ao extremo. Carvalho afirma que “as consequências estão diretamente relacionadas à sua frequência, duração e severidade”.

“Há evidências bastante consistentes de que sofrer bullying é fator de risco importante para a instalação e manutenção [na vida adulta] de problemas como isolamento, depressão, ansiedade e agressividade”, completou.

Queixas desse tipo são recorrentes e, em geral, minimizadas por adultos. Nem sempre é só uma fase. “Relatos de adolescentes que enfrentam pressões sociais são muito mais frequentes do que imaginamos. Em minha prática como psicoterapeuta e suicidologista, é comum ouvir dos adolescentes depoimentos sobre bullying e falta de amparo”, detalhou Fukumitsu.

Publicado originalmente no Radar Criativo.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade