Como uma função da Netflix me causou meia hora de crise existencial

‘Continuar assistindo’ pode acabar com a sua noite (ou te ajudar muito)

Uma resolução de ano novo que eu consegui tirar do papel, não lembro se no ano passado ou retrasado, foi parar de me obrigar a fazer coisas que eu não gosto. Na teoria é muito bonito, capaz que você consiga me imaginar como o protagonista de Na Natureza Selvagem. Na prática, significa apenas que eu parei de ver filmes que não me conquistaram nos primeiros 30 minutos.

A verdade é que esse pequeno ato, ainda que não faça de mim um Emile Hirsch, foi libertador em um primeiro momento. Mas, com o tempo, todos os filmes que eu deixei para trás voltaram a me assombrar, como aqueles fantasmas do natais passados que sequestraram o Scrooge.

A culpa é da Netflix e sua função “Continuar assistindo”, que faz cada item consumido pela metade reaparecer na sua vida. Fantasiado de utilidade, o serviço também pode ser um mal que abala levemente a noite de usuários inseguros, com tendências paranoicas ou que pensam demais a respeito de coisas triviais. Talvez eu me encaixe nos três.

Cada filme que eu abandonei não era apenas um longa-metragem estacionado nos 41 minutos ou um rosto empolgado do Robin Willians na pré-visualização de Bom dia Vietnã. Eles eram um símbolos da minha incapacidade de concluir as coisas. No meu subconsciente, todas as vezes em que falhei na vida se abraçaram, pularam ao mesmo tempo e gritaram “uhú”. Meu cérebro tentou contabilizar a proporção entre as séries que não passei do segundo episódio e as vezes que fracassei no dia a dia. Aquela entrevista de emprego em que eu gaguejei, aquele aceno retribuído que não era pra mim.

O problema da solução

Eu não podia deixar a internet me vencer. Sem chances de lembrar disso toda que vez que desse scroll no catálogo da Netflix. Fiz o que toda pessoa sensata faria. Eu procurei no Google uma forma de remover os itens do “Continuar assistindo”. Na verdade é bem simples (é só ir em “Sua conta”, selecionar “O que foi assistido” e remover o que quiser — eu sei que você também queria saber).

Foram momentos de alívio até eu perceber que estava esfregando o gelo da ponta do iceberg.

Aparentemente, os conteúdos do “Continuar assistindo” se renovam sempre que você exclui os últimos filmes do histórico. Seria insano demais (até pra mim) tentar tirar tudo. Ele vai mostrando coisas que você parou de assistir há ainda mais tempo, e então eu reparei que tem quase um ano que desisti de Paper Man. Eu nem lembro desse filme, apesar de a Netflix jurar que eu o assisti por 37 minutos. E nesse momento, quanto já tinha desistido de remover os itens, eu parei para ler a sinopse. E cara, que sinopse interessante. Que elenco maneiro. Eu veria esse filme.

Talvez, pensando bem, o “Continuar assistindo” faça todo o sentido do mundo quando você esquece de problemas que não existem.