Esse mundo está perdido

Aristides respondeu “boa tarde seu Vinício” com um sorriso no rosto. Balançou a cabeça negativamente, em movimentos lentos, depois que o morador passou. Virou para Dona Socorro, moradora que costumava passar as tardes na portaria, sentada no sofá perto de sua mesa. Checou se ela observava a cena. Então lamentou enquanto coçava o bigode:

“Até parece que ele tá com a vida ganha, né?”

“Esse menino é vagabundo. Outro dia mesmo chegou em casa duas da manhã. Eu vi pelo olho mágico”, relatou, passando a separar bem as palavras para deixar claro. “Duas-da-manhã. Numa terça-feira”.

Com o case do contrabaixo atravessado nas costas, o homem saiu do edifício apressado e fez sinal para um táxi. Caminho de sempre. O segundo ensaio daquela terça, de uma das quatro bandas que garantiam seu aluguel. A conversa continuava na portaria — onde Aristides trabalhava há nove anos e Socorro, agora, observava seu reflexo grisalho no porcelanato.

“Acho que ele nunca vai arrumar um emprego de verdade”, continuou o porteiro.

“Igual aquela moça do 402, não sei o que faz da vida.”

“Nem fala em dona Rita“, riu. “Outro dia veio reclamar de barulho, dizendo que precisava trabalhar, mas bem vi que só estava no computador.”

“Ora essa?”, Socorro ergueu as sobrancelhas.

“Diz que é home office, home-não-sei-o-que. Na minha terra o nome disso é vadiagem.”

“Deve ser puta.”

A portaria ficou em silêncio e, por alguns segundos, foi possível ouvir o movimento da rua. Aristides voltou a coçar o bigode, fechou a outra mão levemente para checar a limpeza das unhas.

Socorro continuou, agora franzindo a testa com descaso:

“Jair do 708 é outro. Fala que é jornalista, mas vejo Jornal Nacional, Datena, Cidade Alerta todo dia. Ele nunca aparece.”

“Fora que jornalista é sujeito sério, né? Seu Jair faz piada toda hora.”

“Homem assim é homem sem respeito. Por isso que o filho virou gay.”

“O menino é bicha?”, se espantou Aristides.

“Por acaso já viu com alguma namorada?”, atentou orgulhosa. O argumento parecia excepcionalmente incontestável.

“Deus que me perdoe, mas isso é coisa de família que não sabe dar limite.”

Ela assentiu com a cabeça, mas não disse nada.

Aristides começou a batucar um ritmo descoordenado com os dedos sobre a mesa de madeira. Socorro olhou para o relógio de ponteiros na parede do lado e fez esforço para levantar do sofá.

“Deixa eu ir lá que vai começar a novela no SBT.”

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