O que se aprende vivendo com um dólar por dia

Esses caras fizeram um filme para descobrir

zach e chris em rolê por peña blanca | foto: divulgação

É difícil colocar as coisas dessa forma, mas um mês de Netflix é mais do que algumas famílias podem gastar por semana com comida, higiene, agasalho e saúde. A estimativa é que 1,1 bilhão de pessoas vivam com menos de um dólar por dia. Mesmo que a gente coloque toda nossa empatia para funcionar, nunca vamos ter uma noção exata dessa realidade.

Zach Ingrasci e Chris Temple eram dois caras que estudavam economia nos Estados Unidos e tiveram uma ideia: se mudar para uma aldeia na Guatemala e viver por quase dois meses com dinheiro contado, condições de higiene precárias e cineastas a tira colo para registrar a experiência. Living on One Dollar foi lançado em 2013 e mudou não só a vida da dupla (que se afastou dos números para abrir uma produtora de conteúdo transformador-descolado), mas também dos moradores de Peña Blanca.

O documentário é um projeto multimídia de conscientização e evita o ar de aventura, mas a sensação está estampada na testa dos estudantes em parte dos 56 dias. No fim da experiência, como bom plot-twist existencial, a aldeia não parecia mais tão exótica, e a convivência com moradores não era muito diferente do que com suas famílias na Califórnia.

Tá ruim mas tá bom

Eles tinham noção que era impossível replicar a pobreza da região. As pessoas trabalham em atividades informais e nunca sabem quando ou quanto vão receber. Um saco de pano com papéis, então, serviu de cosplay da incerteza que assombra o povoado. Juntaram os 56 dólares de cada integrante e, todo dia, sorteavam um número de 0 a 9 para definir o orçamento da equipe.

Certamente as coisas saíram um pouco errado. Eles aprenderam que ficar doente é um luxo quando você não está nem perto de ter dinheiro para pagar remédio e exames. Também que dúvidas não cabem no orçamento e, às vezes, galinhas podem não por ovo. Mas descobriram que a miséria impulsiona o senso de comunidade. E que criatividade é o máximo. Muitas vezes os moradores têm ideias simples para garantir o mais próximo que chegam de conforto. Um jeitinho brasileiro com menos malandragem.

um dólar por dia para uma, duas, três, quatro, cinco, seis crianças | foto: divulgação

Rastros

Parte da renda do filme foi revertida para uma fundação que oferece microcrédito a pessoas de baixa renda em 57 países. Zach e Chris também iniciaram uma campanha que arrecadou 21 mil dólares para famílias de Peña Blanca. E ainda teve uns rabanetes que eles plantaram para a galera.

Living on One Dollar está na Netflix — e no YouTube, mas em versão resumida. Lá também tem um vlog gravado durante a experiência e um curta metragem spin-off narrando a trajetória de Rosa, moradora da aldeia.

Eles lançaram um novo documentário em 2015, e a essa altura sequer lembravam que queriam ser economistas. Salam Neighbor conta a história de sírios abrigados em um campo de refugiados, onde a dupla também morou por um tempo. Mas isso é história para outro post.