O YouTube ainda quer matar a televisão?

As mudanças de hábitos por trás da nova TV por assinatura do Google

se a tv morreu, ressuscitou na internet | foto: felippe franco

O YouTube é um dos poucos serviços da internet a ultrapassar a marca de um bilhão de usuários — um terço das pessoas conectadas no mundo, segundo a empresa. Tem produções exclusivas, programas de TV, clipes, gatos fazendo coisas fofas. É referência absoluta entre as plataforma de vídeos, fatia que o Facebook está fazendo o possível para abocanhar.

A disputa por espaço é parcial: a rede social de Mark Zuckerberg abraça cada vez mais possibilidades de conteúdo. Parece uma tentativa de se tornar a principal forma de explorar a internet; uma home com cara de condomínio na Barra da Tijuca, aqueles com academia, mercado e escola dentro. Já o serviço de streaming do Google vem se aproximando da indústria do entretenimento e flerta com a TV, a quem eventualmente também é acusado de tentar matar (criando uma espécie de Sr. e Sra. Smith dos conceitos midiáticos).

Uma exemplo de como os conteúdos da televisão e da internet se confundem é recente: em 24 horas, vídeos do Oscar no YouTube foram tão assistidos quanto a cerimônia ao vivo. Trechos de talk-shows e telejornais também costumam ter audiência alta no site.

O último investimento da empresa é o YouTube TV, aplicativo para assistir dezenas de canais de televisão por streaming, anunciado esta semana. O serviço chega (por enquanto apenas nos Estados Unidos) para disputar com gigantes “tradicionais”, como a DirecTV. A novidade do Google não inclui canais dos grupos Viacom, Time Warner e HBO, mas a variedade ainda é maior que a de alguns pacotes básicos da TV a cabo brasileira.

A exemplo da Netflix, o YouTube mira o público que consome conteúdo online na televisão. Hoje, a maioria das visualizações do site são de dispositivos móveis — e, ao que parece, seu discreto serviço de aluguel de filmes não ajuda a movimentar essas estatísticas.

Os ventos do mercado são bons para o YouTube. Não é como se a TV por assinatura vivesse um grande declínio, mas boa parte dos lares americanos ao menos já divide as atenções da velha mídia com o streaming. Pesquisa divulgada recentemente pela TiVo aponta uma tendência: 20% das pessoas sem TV a cabo a cancelaram recentemente. Questionados sobre o motivo,

80,1% acham o preço muito alto
48,3% preferem serviços de streaming
27,2% se contentam com canais abertos

Como você deve imaginar, o YouTube TV é vendido como solução para todos os itens. São 43 canais (incluindo os abertos) por 35 dólares mensais, além do conteúdo on demand do YouTube Red e a possibilidade de gravar a programação. O Google também promete uma pesquisa caprichada por gêneros, canais e elenco porque, bom, o Google sabe fazer buscas.

O serviço deve virar opção para quem não tem TV por assinatura ou está pensando em cancelá-la, mas sem HBO, CNN e outros líderes da audiência, dificilmente oferece risco às concorrentes por enquanto. Mas a essa altura já enxergarmos um chacoalho no mercado e o início da consolidação de uma nova forma de transmitir conteúdo televisivo — na qual, por exemplo, canais online e independentes podem ser distribuídos no mesmo pacote das clássicas emissoras que um já dia reinaram sozinhas na grade.

Neal Mohan, diretor de produtos do Google, foi claro durante a apresentação do YouTube TV:

“Acreditamos que esse é o futuro da forma de consumir televisão.”

A aposta da empresa é na mudança não só da tecnologia, mas também de hábitos, e a gente sabe que isso está longe de ser um tiro no escuro.

Publicado originalmente no Radar Criativo