Produção ‘industrial’ faz Woody Allen requentar temas com novas embalagens
Como o ritmo do diretor deixou trailer do seu novo filme com ar de déjà vu

Café Society é o novo filme de Woody Allen, previsto para estrear em outubro deste ano. A estratégia de lançamento é inédita entre as obras do diretor. Foca em Cannes (a estreia na França foi adiantada para 11 de maio, dia da abertura do festival), mas também a internet. A distribuição nos Estados Unidos será da Amazon Studios, que fará um lançamento limitado no cinema para disponibilizá-lo online.
Em diversas oportunidades, Allen demonstrou que é um cara (de 80 anos) disposto a se reinventar. A Amazon que distribui Café Society é a mesma que o contratou para criar uma série, a primeira da sua carreira, prevista para estrear na internet esse ano. Em entrevistas, reproduziu a neurose de seus personagens ao afirmar que torce para o programa “não ser uma vergonha”, pois “não sabe o que está fazendo” — embora eu ache que ele esteja cuidando disso com um pé nas costas.
É esse vigor criativo e o instinto hard de se colocar à prova que fazem o diretor se submeter a um ritmo de produção perigoso. Em 50 anos de carreira no cinema, são 45 filmes até hoje (contando apenas os que escreve e dirige). Desde 1982, não passa mais que 12 meses sem lançar um novo longa-metragem.
Máquina de filmes
Quando você se obriga a produzir regularmente, é difícil que a qualidade seja tão estável quanto a frequência. Isso é perfeitamente ok. Além do tempo limitado para trabalhar no roteiro, a velocidade muitas vezes faz com que ideias pouco inspiradas saiam do papel — afinal, algo precisa ser produzido.
O ponto é que essa necessidade só existe por vontade própria. Allen se orgulha de ser um artista independente, portanto não sofre pressão de estúdios. Ele conta que trabalha nesse ritmo para escapar da ansiedade. Em todo caso, há várias formas e mídias para saciar sua inquietação criativa. Me pergunto se a melhor opção é mesmo fazendo de sua filmografia uma montanha-russa de críticas.
Discordo de quem fala que o diretor não faz coisas boas há anos. Match Point (2005), Vicky Cristina Barcelona (2008), Meia Noite em Paris (2011) e Blue Jasmine (2013) estão aí para não me deixar mentir. Quatro filmes excelentes em nove anos parece uma boa marca para qualquer cineasta, mas para Allen significa que ele fez outros cinco filmes não tão bons assim.
Repetindo o passado
Woody Allen costuma entregar pouco sobre suas histórias. De Café Society, só sabemos que é sobre é um jovem ambicioso que viaja a Hollywood, onde a família se divide entre o cinema e a máfia nos anos 30. No elenco, estão Steve Carell (A Grande Aposta), Kristen Stewart (American Ultra), Corey Stoll (House of Cards) e Jesse Eisenberg (repetindo a parceria do fraco Para Roma Com Amor, 2012).
Os atores são a grande novidade, com nomes em ascensão ou que nunca trabalharam com o diretor. A ambientação na primeira metade do século passado, pelo contrário, é a mesma dos últimos três filmes.
A julgar pelo trailer, Allen volta a falar sobre os bastidores da indústria cultural (como em Tiros na Broadway, de 1994; Celebridades, 1998; e Dirigindo no Escuro, de 2002) e a retratar a arte de forma charmosa e saudosista (como em A Rosa Púrpura do Cairo, 1985; A Era do Rádio, 1987; e Meia Noite em Paris, 2011). Por criar universos com tanta frequência, Allen se repete em temas e reflexões.
A essa altura da vida, quando seu talento é incontestável e seu nome já está na história do cinema, outra pessoa escolheria filmar apenas quando tivesse um roteiro claramente excepcional. O diretor não pensa dessa maneira, e não deixa de ser fantástica a sua disposição.
Ao não ver razão para se preservar, ele desce do trono e mostra que é gente como a gente. Erra muito para acertar às vezes (e talvez arrisque um churrasco na lage). Woody Allen é capaz de ser genial, mas “só” o faz de vez em quando. Mais que isso, comprova que não acredita na suposta comparação com Deus da frase “a vida é uma comédia escrita por um comediante sádico”, do trailer de Café Society.
Até porque Woody Allen nem acredita em Deus.