Mauricio Stycer e as séries gringas que revolucionam a TV brasileira

Crítico da Folha se disse fã de streaming e revelou ‘medo’ de perder as noites assistindo

stycer em sabatina da folha | foto: leonardo soares/uol

A relação entre televisão e internet não está estremecida como antes, mas continua longe de ser um comercial de margarina. O cenário é de mudanças e poucas certezas, embora uma tendência já esteja clara: o espectador acostumando a consumir entretenimento online está cada vez mais seletivo com o conteúdo dos canais abertos. Mauricio Stycer, crítico de TV do UOL e colunista da Folha de S. Paulo, aborda a questão no livro Adeus, Controle Remoto, lançado em maio.

Através de textos antigos e análises inéditas, a obra faz uma leitura do conteúdo televiso e da forma como ele é assistido — abordando dos programas apelativos ao impacto dos serviços de streaming.

Em conversa com o Radar Criativo, o jornalista demonstrou ver com bons olhos algumas investidas na internet. “Um caso bem recente, e curioso, foi a decisão do Canal Brasil de oferecer online, quatro dias antes da estreia, a íntegra do primeiro episódio da segunda temporada de Bipolar Show, do Michel Melamed. Não sei se este é o melhor caminho, mas mostra uma preocupação grande em alcançar nichos de público que o próprio canal não sabe onde está”, disse Stycer.

Novela com jeitinho de série

Além de oferecer atrações em novas plataformas, as emissoras estão aumentando o cuidado com o conteúdo:

“Observo uma preocupação dos autores de novelas com o público seduzido pelas séries. Isso tem acarretado algumas experiências na condução dos folhetins, umas mais bem-sucedidas do que as outras. A agilidade de Avenida Brasil, por exemplo, é um caso muito positivo.”
Avenida Brasil
café, dona carminha? | foto: divulgação

Apesar do sucesso da novela de João Emanuel Carneiro em 2012, a audiência da Globo na faixa das 21h apresenta queda ano após anos. “Se não houver uma drástica redução no número dos capítulos, este esforço para ficar com cara de série nunca deixará de ser apenas um ‘truque’”, avalia.

Já a aproximação dos canais por assinatura com a antiga forma de fazer TV é um caso que vai contra a corrente: “Popularizar suas programações, na busca por um assinante que vem da classe C, me parece desastroso”, alertou. “O Multishow, por exemplo, em vez de procurar fazer algo novo e ao mesmo tempo popular tem se limitado a tentar seduzir o público com o que há de mais antigo em matéria de humor.”

YouTube e binge-watching

Outra aposta das emissoras são os youtubers, que mobilizam milhões de fãs na internet. A Globo, por exemplo, conta com Christian Figueiredo no Fantástico e chegou a convidar Kéfera para apresentar o Vídeo Show. Para o crítico, esse modelo de integração é controverso:

“Confesso que não entendo bem este movimento. De um lado, a TV parece estar dizendo ao seu público: ‘o melhor conteúdo está no YouTube’. O que não me parece muito inteligente. Por outro, estes criadores, que nasceram num universo autônomo e independente, estão dando sinais de que a internet não é suficiente para a própria subsistência”

O jornalista concentra suas análises na programação da TV aberta, mas não dispensa o streaming e, como todos nós, acaba não resistindo a uma maratona de séries — o velho binge-watching.

“Às vezes acontece de uma série me fisgar e acabar com minha madrugada. Mas não pratico esse ‘esporte’ com frequência. É muito desgastante”, contou Stycer, que se mantém exigente ao analisar as produções americanas: “Acho que tem gente fazendo espuma demais com séries apenas medianas. Das novidades que mais gostei, destacaria Unbreakable Kimmy Schmidt.

Publicado originalmente no Radar Criativo.