As mortes dos outros e as nossas

Início de ano permite muitas esperanças, menos a de rever nossos mortos. Há um ano, nestas épocas, perdia meu avô Reinaldo. Há quatro, meu irmão Pedro. Perder é um acordo tácito com o universo neste sistema de pesos e sobrepesos que governam nosso destino. Somos todos filhos do tempo e o tempo não cura. O tempo faz a gente esquecer o que dói. Só que, de vez em quando, a gente se lembra.

foto de arquivo pessoal

O cansaço emocional e a cuca pensativa me fizeram enxergar que o tempo também transforma toda tristeza em uma saudade, sendo assim toda saudade uma tristeza cristalizada, bem docinha. O milagre agridoce do tempo conforta, mesmo quando é impossível esquecer que o ponto de início de toda saudade é também um desejo de esquecimento. Ou de empatia pela morte: dos outros ou às nossas.

Nos despedimos de quem amamos, enterramos nossos mortos e choramos sua ausência na expectativa de que, inconscientemente ou não, sumam de nós, pesem menos em dor e sejam apenas uma leve lembrança a servir de calda em nosso coração levemente amargo. O processo, no entanto, queima, é doloroso e confuso. O corpo não é o limite e nunca foi. No entanto, o lado de lá deste limite nos reguarda em sabedoria.

Buscamos entender o que não nos cabe. Em nossa neurótica cruzada em busca de controle, nos rebocamos como velha embarcação cuja bússola pensa ser norte, o sul. Quando nos perguntamos sobre o propósito da morte, seja ela escolhida ou não, buscamos respostas em tudo o que exala vida, como uma cortina de fumaça que nos impede de enxergar que a regra do jogo é esta e não carece de questionamentos.

Como entender galhos secos na lembrança do verde das folhas? Eu me lembro de um texto que escrevi certa vez, na época do curso de Criação Literária, primeiros anos de São Paulo, em que eu disse:

…recuperou então a voz morna dos pensamentos de quando vivia na intensidade irritante do verde/natureza e sonhava em poder morrer marrom, à moda de suas idéias, que prendia nos papéis espalhados pelo quarto. No entanto, não via nenhum, porque era impossível ler tinta em papel da mesma cor.

Se escrever a vida é o pressuposto das caminhadas e das pegadas que ficam pelo caminho, entender a morte é como ler tinta em papel da mesma cor.

Recuperar esse trecho do texto escrito logo que cheguei em São Paulo conversa também com outras duas novas mortes: uma figurativa, relacionada às evoluções do trajeto, a este que hoje sou em literatura comparada com aquele que já fui; e outra real, de alguém como um marco nesta minha vida ficcionalizada.

Ontem soube que a Kika, uma das primeiras pessoas que conheci quando vim para São Paulo, foi encontrada morta, em seu apartamento, depois de três dias sem dar notícias. Os ponteiros do tempo, de repente, pararam sobre ela e lhe romperam um aneurisma. Pensei que nunca fomos amigos próximos em todos esses anos, mas que ela me deu a maior das amizades naquele meu primeiro dia na maior cidade da América do Sul.

A Kika era talentosa, bonita, amável, com um olhar transparente. A primeira mulher trans que conheci. Lembro-me dela sentada ao meu lado, um menino de 22 anos, tentando entender e falar no mesmo idioma daquele mundo imenso, de horizontes abertos além dos planaltos centrais e do cerrado. A dama e eu. Ela queria saber quem eu era, de onde eu vinha, o que eu fazia, para onde eu queria ir.

Naquele então, eu tinha respostas pobres para perguntas de tanto potencial. Jamais imaginei que, doze anos depois, aquela conversa seguiria aqui no meu coração, quase como um guia astrológico a me indicar os propósitos do astros que orbitam em torno do meu coração. A morte de Kika me doeu, porque levou consigo aquela pureza na doação que todo humano tem ao se colocar disponível para o outro.

Meu primeiro dia em São Paulo, muito além do marco inaugural, é inesquecível pelas pessoas que nele estiveram. Além de Kika, o André, a Dani, o Rabih, a Ju, a Paloma, o Tiago (que inclusive raspou minha careca quando decidi assumi-la de vez) e Paulinho. Todos eles acionistas desta empresa em franca expansão comandada pelas minhas memórias e pelo sangue que dá cor às minhas bochechas e lábios.

Sinto muito, Kika, que você tenha ido sem que eu pudesse revê-la e dizer-lhe da minha gratidão, ainda que as palavras jamais façam justiça a tudo o que nos dissemos sem o uso delas.

A morte nos coloca diante da nossa própria finitude. A dor que nos brota nos permite mudar de rota, reforçar as importâncias, reclamar aquilo que queremos da vida. Mais do que olhar para galhos secos com óculos de folhas verdes, estar diante da morte ou recuperar as caldas doces de saudade que brotam em nós pela morte dos outros nos faz arar a terra e replantar o futuro, onde vivem flamulando em uma brisa fresca os retratos daqueles que já foram, inclusive os nossos próprios retratos.

Eventualmente a dor passa, talvez quando a voz daquele que foi some da memória ou quando o sono volta ao normal, você deixa de acordar assustado no meio da noite e sonha que nada tivesse acontecido. O tempo, como já disse, não cura, mas nos ensina a conviver com o que aconteceu, é real e aquilo que, por enquanto, ainda não é saudade, mas uma tristeza profunda, enraizada e cheia de questionamentos.

Assim é vida: tão caprichosa.

Assim somos nós: tão obedientes à nossa dor.