Duras palavras de vida eterna

Fellipe Fraga
Nov 3 · 6 min read

O que nos motiva a seguir Jesus?

No evangelho de João, capítulo 6, Jesus havia acabado de realizar sinais miraculoso, em especial a multiplicação dos pães e peixes para uma multidão. Milhares de pessoas haviam se fartado com o que Ele tinha feito, e tornaram-se encantados por aquilo que viram.

No dia seguinte, a multidão que tinha ficado no outro lado do mar percebeu que apenas um barco estivera ali, e que Jesus não havia entrado nele com os seus discípulos, mas que eles tinham partido sozinhos. Então alguns barcos de Tiberíades aproximaram-se do lugar onde o povo tinha comido o pão após o Senhor ter dado graças. Quando a multidão percebeu que nem Jesus nem os discípulos estavam ali, entrou nos barcos e foi para Cafarnaum em busca de Jesus. Quando o encontraram do outro lado do mar, perguntaram-lhe: “Mestre, quando chegaste aqui? “ — João 6:22–25 (NVI)

Muitos seguiam Jesus por onde ele passava, e ele atraía as multidões, que reconheciam nele um Mestre e o ouviam. Após o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, o número de pessoas alcançadas (no sentido de alcance terreno) foi enorme em uma vez singular. E gerou naquele povo um efeito de manada esperando novamente de Jesus algo novo.

Jesus viu no coração do povo que o procurou porque queriam fartar-se novamente de pão. Não o procuraram pelos sinais miraculosos — Cristo fez diversas coisas que mereciam a atenção, dentre curas, exorcismos e milagres. Então se posiciona para todos enquanto filho de Deus, explicando a todos para preocuparem-se com o alimento espiritual, um alimento que permanece para a vida eterna.

Então, Jesus se identifica como O Pão da Vida. No Livro de João, em diversas vezes Jesus relata o uso da expressão Eu Sou. A mesma que Deus usou quando se manifestou a Moisés diante da sarça ardente no Monte Sinai.

Asseguro-lhes que aquele que crê tem a vida eterna.
Eu sou o pão da vida. — João 6:47,48 (NVI)

Durante esse momento, Jesus fala de forma firme a respeito de quem Ele é e da importância de que quem o aceite, o faça de todo o coração. Comer de sua carne e beber de seu sangue é compartilhar da essência da Fé: crer que Deus enviou seu filho para morrer por nossos pecados.

Mosaico (ca. séc. XII) na Igreja de Chora, Istambul.

Contudo, alguns dos próprios discípulos de Jesus se assustaram com as palavras ditas por Cristo. Aqueles que já caminhavam com Jesus diariamente, o tinham como mestre, se surpreenderam quando confrontados com o desafio de seguir a Jesus da forma que Cristo os chamava.

Ao ouvirem isso, muitos dos seus discípulos disseram: “Dura é essa palavra. Quem consegue ouvi-la?“ Sabendo em seu íntimo que os seus discípulos estavam se queixando do que ouviram, Jesus lhes disse: “Isso os escandaliza? Que acontecerá se vocês virem o Filho do homem subir para onde estava antes! O Espírito dá vida; a carne não produz nada que se aproveite. As palavras que eu lhes disse são espírito e vida. Contudo, há alguns de vocês que não crêem”. Pois Jesus sabia desde o princípio quais deles não criam e quem o iria trair. — João 6:60–64 (NVI)

O momento de confrontação foi de tal forma profundo, e a seriedade das palavras do mestre foram tais que se tornou esse um importante divisor de águas para muitas das vidas que ali estavam. Desse momento em diante, muitos dos seus discípulos o deixaram.

E prosseguiu: “É por isso que eu lhes disse que ninguém pode vir a mim, a não ser que isto lhe seja dado pelo Pai”. Daquela hora em diante, muitos dos seus discípulos voltaram atrás e deixaram de segui-lo. — João 6:65,66 (NVI)

É incrível como o confronto das palavras de Jesus leva muitos a deixá-lo.

A realidade das igrejas de hoje é que aquelas onde a Palavra de arrependimento é pregada, os bancos se esvaziam. As que prometem coisas deste mundo, desde o pão terreno até o acúmulo de riquezas, têm seus bancos cheios. Procura-se não ouvir o Mestre, mas ouvir aquilo que afaga os corações. Procura-se esperança na voz dos homens e não na palavra de Deus.

Líderes que simplesmente se preocupam com os bancos cheios conseguem seu resultado por meio de práticas que massageiam a carne mas não edificam o Espírito.

Jesus perguntou aos Doze: “Vocês também não querem ir?“ Simão Pedro lhe respondeu: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna. Nós cremos e sabemos que és o Santo de Deus”. Então Jesus respondeu: “Não fui eu que os escolhi, os Doze? Todavia, um de vocês é um diabo!“ — João 6:67–70 (NVI)

Contudo, felizmente, há aqueles que se mantém firmes. Pedro manifesta o que passava no coração de vários daqueles homens, à exceção de Judas. Reconhecer que Ele tem as palavras de vida eterna foi o reconhecimento de que aquilo que Jesus falava era a respeito de algo muito maior do que o alimento terreno.

Carne e Espírito comportam uma dicotomia presente nas Escrituras e na teologia paulina.

Em Romanos, capítulo 8, Paulo alerta os irmãos em Roma a respeito de onde está o pensamento.

Quem vive segundo a carne tem a mente voltada para o que a carne deseja; mas quem, de acordo com o Espírito, tem a mente voltada para o que o Espírito deseja. A mentalidade da carne é morte, mas a mentalidade do Espírito é vida e paz; a mentalidade da carne é inimiga de Deus porque não se submete à lei de Deus, nem pode fazê-lo. Quem é dominado pela carne não pode agradar a Deus.
Entretanto, vocês não estão sob o domínio da carne, mas do Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo. Mas se Cristo está em vocês, o corpo está morto por causa do pecado, mas o espírito está vivo por causa da justiça. E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vocês, aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos também dará vida a seus corpos mortais, por meio do seu Espírito, que habita em vocês. Portanto, irmãos, estamos em dívida, não para com a carne, para vivermos sujeitos a ela. Pois se vocês viverem de acordo com a carne, morrerão; mas, se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão, porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. — Romanos 8:5–14 (NVI).

Tentar alimentar a carne com coisas da carne não é o caminho para a edificação da igreja. É necessário falar — e buscar se ouvir — de coisas espirituais. Quem se preocupa em alimentar-se de coisas mundanas e procura locais cuja fachada carrega um nome espiritual mas seus atributos são feitos com coisas carnais.

Usa-se nomes de Deus e nomenclaturas a seu respeito, mas incentivam os irmãos a tomarem para si esperanças de resultados carnais: conquistas pessoais e não conquistas que trazem salvação.

O que nos tem motivado a seguir a Cristo? São as expectativas do que ele nos fará nesse mundo, ou a esperança de vida eterna ao seu lado na glória? O que tem preenchido nossos pensamentos? São as coisas da carne ou as coisas do Espírito? O que tem sido a razão dos seus dias? O que te motiva a ir à igreja? São as obrigações sociais e a rotina ou a vontade de estar com irmãos para ouvir e refletir sobre a palavra de Deus?

Esses questionamentos devem nos nortear e inspirarmos na postura de Pedro e de Paulo. Seguir a Jesus, sermos pequenos cristos, porque a palavra que Ele traz é de vida eterna, porque Ele é o pão da vida.

Se as palavras que nos chegam são duras, mas direcionadas a um arrependimento, a uma postura de nos tornar na estatura de Cristo, então é para agradecermos a Deus pela oportunidade, pois é algo para nosso crescimento.

O cristão não pode aguardar palavras acalentadoras! O próprio evangelho e a esperança da salvação são acalento mais que suficiente, já que não fosse a graça, seríamos condenados, e estaríamos mortos em nossos delitos e pecados.

São as palavras duras que nos levam a refletir nossa postura perante o que nos rodeia e a entendermos nossas falhas, nossos erros, e nos direcionar para uma vida de pensamentos nas coisas do Espírito.

Que nossa foma seja somente do pão da vida.

Em Cristo,

Non nobis, Domine, sed nomini tuo da gloriam

Fellipe Fraga.

Fellipe Fraga

Written by

Advogado, Consultor Jurídico.

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