Sinédoque, Nova York

É uma condição curiosa tentarmos entender o que nos agrada nas coisas constantemente. Digo, não bem entender o que nos agrada, mas o porquê daquilo agradar da forma que agrada. As experiências de cada um com qualquer tipo de obra de arte é subjetiva e tentar trazer uma consciência sobre esses sentimentos é muito pessoal. Mas aí se experimentações externas à obra, mas já inerentes em cada um interferem em preferências, desafetos e todo o resto ao redor da vida, qual o ponto de falar da arte? De escrever sobre, até de debater? O que me emociona pode não ter o menor efeito sobre você — pode inclusive ser uma coisa que te irrite intensamente. Gosto; desgosto. Então se tudo é subjetivo e relativizável, qual o ponto de existir toda essa discussão de qualquer maneira que seja?

Gostar das coisas é muito bom. É óbvio isso, mas a sensação de que você gosta profundamente de algo que uma pessoa que não foi você criou é muito boa, gera uma cumplicidade. Às vezes até uma sensação de que aquilo se torna parte de nós; pelo menos é o que gostamos de acreditar. Mas como uma coisa que não fui eu que fiz pode fazer parte de mim? Dá pra dizer que eu sou o que gosto então? Mas até onde dá pra dizer isso? Se eu sou o que eu gosto, a obra deveria me refletir mais, não? Então aquela cena em que tem um carro vermelho passando, bem que podia ser um carro amarelo já que não gosto tanto assim de vermelho. Bem que a mensagem da obra podia mudar um pouquinho pra caber esse discurso aqui também, afinal, se a cultura em geral não vai endossar constantemente nenhum tipo de conscientização social que eu considero importante, pra que existir? É uma situação complicada. Mais fácil gostar seguindo o que já dizem, então — exige menos e é mais cômodo. Só que aí essas coisas acabam vindo de fora pra dentro de uma forma meio robotizada ao invés de serem evocadas e não é o mesmo. É menos sincero consigo mesmo e mais um conforto pela busca por participar. Aí já se vai perdendo a subjetividade que envolve gostar de algo e a capacidade de apreciação dá lugar a obrigação social. Pra que existir arte?

Se a arte é parte de mim, ela pode representar o todo?

Cada um só vê o mundo pela sua própria perspectiva, sua própria janela que ninguém mais divide com você. Por isso Sinédoque, Nova York é do jeito que é. Ele traz uma percepção sobre o mundo que faz com que seja impossível não ser amargo e até assustador da forma que é.

A relação com o exterior é sempre confusa; dias passam em segundos, a conversa com os médicos sempre falta compreensão de um com o outro, a tatuagem da esposa que o Caden Cotard não nota mesmo depois de anos com ela. Ele não se importa, apenas quer acreditar que sim. Os relacionamentos dele ali não são uma busca por dar amor ou fazer parte de algo maior com alguém, mas sempre sobre querer ser amado a qualquer custo. A necessidade de ser querido da forma que quer mesmo que a outra pessoa não esteja feliz. Egoísmo e ressentimento. Afinal, se estamos todos aqui tomando café da manhã, indo para o trabalho e depois voltando pra casa, é preciso que alguma coisa me diferencie. É preciso ter algo que me faça ser gostado por quem eu quero que goste de mim. Nada de errado aí, todo mundo quer ser amado, é universal esse anseio. Cotard carrega personas que mostram os traços que seriam apreciados e escondem os que seriam renegados. Atuações. Ninguém quer ouvir sobre a sua miséria, porque todos têm suas próprias.

É impressionante como o filme consegue tratar a morte com tanta sensibilidade e em vários tons. Nunca deixará de existir esse temor da morte nas pessoas — medo de morrer sem um legado, medo de morrer sem realizar seus planos, morrer sem ser compreendido. As pessoas que morrem no filme, com duas exceções, estão distantes do Cotard há muito tempo. Talvez mortas para ele há muito tempo. Talvez justamente por essa desconexão com o exterior ele tenta criar um simulacro da cidade para si — para tentar se entender e entender o mundo. Com o tempo a ficção vai sendo perdida naquele palco em que as pessoas começam a representar a si mesmas e a diferença entre a personagem e a pessoa começam a deixar de existir aos poucos. Em um tom quase berkeliano vai se adicionando mais prédios, mais ruas, mais e mais artistas a uma peça sem plateia — todos são seus próprios protagonistas. Assim como o Sammy observava o Cotard, ele observa sua peça. Caden tenta usar a arte para encontrar em uma mimésis do mundo e da vida que ele viveu essa compreensão e conexão entre o interior e o exterior. O fim é amarrado ao começo.

Talvez a arte exista para que possamos expurgar sentimentos bons e ruins e compartilhar com o mundo exterior. Para que possamos evocar os nossos próprios por meio dessa catarse e buscar uma completude mesmo que momentânea. Talvez seja uma forma de sentir que não estamos sozinhos apenas com nossas experiências no mundo. Que há outras pessoas com vidas tão complexas quanto a sua por mais que você não perceba sempre por só poder olhar pela sua janela. Talvez seja para sentir que não há peso somente nas suas costas, mas na de todos e quem sabe isso torne mais fácil viver de alguma forma. Talvez a arte seja uma maneira de tornar tudo isso mais digerível. De nos lembrar do que precisamos ser lembrados constantemente, nos lembrar do real. Provavelmente por isso a arte existe e provavelmente por isso escrevemos sobre ela quando é conveniente. Pode não ser nada disso também, não sei dizer. Talvez eu não concorde com isso amanhã de manhã. Só tenho 23, não sei muito do mundo ainda e vou continuar sem saber por mais algumas décadas.

Esse é um filme que consegue trazer maturidade e uma honestidade visceral em cada cena. E nessa busca pela verdade que tanto o protagonista quanto o diretor do filme fazem, ele simplesmente se torna uma obra completamente singular e autoconsciente. Não teremos outro Sinédoque e nem precisamos de outro Sinédoque. É um filme que se permite tanto ser refletido que não só é sobre os personagens ali na história, mas é intencionalmente sobre as pessoas que assistem. Em várias partes de Sinédoque, Nova York ouvimos explosões, vemos zepelins sobrevoando a cidade, exército espalhado pelas ruas e pessoas morrendo de frio e nunca nos é dado um contexto justamente por conta da janela pela qual observamos. Uma janela que realmente não se importa. Uma janela como qualquer outra. O mundo acabou e ele não se deu conta até estar sozinho em seu microcosmos de cidade com vários corpos espalhados pelas ruas. A peça acabou e ele nem viu. Ele acabou e nem viu. A arte representando o artista, a parte representando o todo.