O apocalipse queer de Gregg Araki

Fernanda Maria
Sep 18, 2018 · 5 min read

Um cinema queer, alien e jovem.

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Gregg Araki é um diretor nipo americano, dentre seus trabalhos mais conhecidos estão Kaboom (2010), vencedor do primeiro “Queer Palm” no Festival de Cannes, e Mistérios da Carne (2004) estrelado por Joseph Gordon-Levitt. Nos últimos anos ele também dirigiu episódios de séries como 13 Reasons Why (2017–2018), Riverdale (2018) e Heathers (2018).

Em sua triologia conhecida como “Teen Apocalypse Trilogy” o diretor mostra sua versão da juventude americana dos anos noventa. Usando de violência, sexo e imagens que parecem vindas diretamente dos clássicos da MTV. Essa para a qual ele inclusive chegou a dirigir um piloto chamado “ This Is How the World Endsque nunca chegou a ser exibido.

Em sua obra podemos ver diretamente as influências de video clips, e a chamadas subculturas adolescentes e LGBTQ da época. O diretor trabalhou com atores que povoariam a TV e o cinema nas décadas seguintes, tais como Rose McGowan, Margaret Cho, Parker Posey, Guillermo Díaz, Ryan Phillippe, Heather Graham, Mena Suvari, dentre outros.

“outro filme gay de Gregg Araki”, imagem de abertura do filme “Totally Fucked Up” (reprodução)

Seus trabalhos durante os anos noventa são frequentemente associados ao movimento New Queer Cinema. O termo é utilizado pra classificar filmes com temas considerados “queer” na cena alternativa do cinema do início da década. Geralmente filmes com protagonistas parte do grupo LGBTQ com forte crítica a noções de vida heteronormatizadas.

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No primeiro filme da trilogia “Totally Fucked Up” (1993), é mostrada a vida de seis amigos adolescentes. Quatro deles homens gays e um casal de lésbicas. O filme intercala cenas de um pseudo documentário onde os personagens compartilham suas opiniões sobre sexo, amor, e relacionamentos, e outras que mostram suas vidas.


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Em “The Doom Generation” em português “Geração Maldita” (1995) também escrito e dirigido por Araki, temos James Duval, Rose McGowan, and Johnathon Schaech como protagonistas. Amy Blue (McGowan) e Jordan White (Duval) dão carona para Xavier Red (Schaech) e acabam se envolvendo em uma trama perseguição após matarem uma pessoa. Em meio a sua fuga acabam encontrando várias personagens de seu passado. Bastante violento e às vezes surreal, o filme trás mais experimentações diretor, que dessa vez não filmou tudo sozinho, graças a um aumento de orçamento em relação ao filme anterior.


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O terceiro e último filme Nowhere (1997), em português “Estrada para Lugar Nenhum”, trás novamente James Duval como um dos protagonistas. Dessa vez, ele é um adolescente bissexual em um relacionamento com Mel (Rachel True), também bissexual e praticante de poliamor. O filme mostra a vida em torno do casal, seus amigos, os lugares que frequentam, e os conflitos que vivem. Também conta com a participação de vários atores que ficariam famosos no cinema e tv norte americanos mais tarde. Como Ryan Phillippe, Mena Suvari, Kathleen Robertson, e Denise Richards, Christina Applegate, além de uma participação da estrela do filme anterior Rose McGowan, dentre outros. Além das cenas surrealistas do filme, Araki trás uma subtrama alienígena, tema frequente em seus filmes posteriores, como o aclamado “Mistérios da Carne”.

A televisão é mencionada diversas vezes em todos os filmes, assim como comerciais são transmitidos. Fazendo assim comentários sobre a cultura de consumo de comunicação da época, e como os jovens eram retratados nela.Da mesma forma temos hoje a presença constante, seja em forma de crítica ou ou representação, da internet em filmes e seriados. Podemos ver em várias séries dos anos noventa, como Friends por exemplo, cenas onde os personagens comentam o que estão assistindo na televisão, ou assistem a comerciais. Da mesma forma como hoje em dia filmes como Ela (Spike Jonze, 2013), ou séries como Selfie (2014), falam sobre a tecnologia atual.

“um filme heterossexual de Gregg Araki” , imagem de abertura do filme “The Doom Generation” (reprodução)

Os filmes de Gregg Araki trazem de forma irônica a violência e cultura de consumo vividas pela juventude da época. Onde embora aspectos dessa cultura fossem usadas para consumo, nem sempre existia uma real preocupação em a entender. Enquanto os programas voltados para adolescentes reproduziam um discurso de que era “legal” e estava “na moda”, parecer diferente, jovens que realmente faziam parte de grupos marginalizados (como LGBTQ) ainda se sentiam excluídos. E não representados com pela cultura jovem que aparecia na grande mídia.

A trilogia não é uma total capsula do tempo, tendo em vista que muitos assuntos que vemos nela ainda são atuais. A LGBTfobia, o machismo, a exploração do consumo para o público jovem, a heteronormatividade compulsória, etc. Mas ela também trás aspectos estéticos bastante inovadores e interessantes, que influenciaram principalmente o cinema alternativo desde então.

fonte: wikipedia, youtube,

Fernanda Maria

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