Pornochanchada, a primeira vez

Fernanda Maria
Jan 13, 2019 · 5 min read

Primeira experiência vendo filme do gênero e como foi

Vi a pedido de uma amiga, que está com um projeto ainda em andamento, mas logo trarei mais detalhes aqui. Enfim, o quê achei? O filme é um misto de liberalismo sexual com um toque de machismo e homofobia nada veladas. Além de uma surpreendente mas nem tanto crítica política.

No começo da exibição um texto aparece e diz como em tempos de crise a sociedade perde seus valores familiares se rendendo a “perversões sexuais”. Deixando assim de lado os valores familiares, e que essa seria então a crítica do filme. Me perguntei se essa seria uma estratégia pra bular a censura ou a obra realmente acredita que está criticando os valores da sociedade da época? Talvez um pouco dos dois, ou talvez nada disso e eles só quisessem aproveitar pra jogar um pouco de lenha na fogueira.

imagem do começo do filme

O filme acompanha a jovem Gisele que volta para a fazendo do pai depois de passar um tempo morando na Europa. Chegando lá ela reencontra um dos funcionários da fazendo que seria um antigo amante, e segue a primeira cena de sexo que acontece em uma cachoeira e é testemunhada por vários personagens. No mesmo dia sua madrasta, Haydée, vai falar com ela e contar que também viu a cena, e as duas transam também e ambas passam a ter um caso com o tal capataz, Ângelo.

Haydée é uma personagem que me deixou um tanto intrigada, em uma de suas falas ela diz que não existe amor entre homens e mulheres, apenas sexo. E companheirismo só é capaz de existir entre duas mulheres. Ela também é bastante ciumenta e possessiva em relação a enteada. E como cada personagem é basicamente um esteriótipo nesse filme que não tem subtexto apenas texto, fiquei meio em dúvida sobre o quê estavam querendo dizer sobre ela.

A personagem mais enigmática entretanto é a única que parece ter algum traço de personalidade não definido a partir das cenas de sexo. Ana é uma médica comunista que foi presa e torturada. Suas falas são basicamente monólogos panfletários. E é muito engraçado ver ela fazendo um grande discurso antes mais uma cena acabar com personagens transando com uma música extremamente alta. E meu deus o quê aconteceu com o trabalho de som desse filme?

Gisele deixa a família pra trás e as duas vão embora juntas. Até que Ana é morta a tiros em uma reunião política. Gisele então volta pra fazenda do pai.
E tem o Serginho, precisamos falar sobre Serginho. Ele é filho da madrasta da protagonista que vem pra casa a pedido da mãe pra conhecer a garota. A primeira vez que vi ele levantando rebolando entendi qual era o papel do personagem ali. A sua primeira cena de sexo começa com ele narrando um estupro que sofreu e a partir disso transando com Ângelo. Depois disso ainda temos uma cena onde ele, Gisele e Haydée são estuprados pelos vilões do filme. O capataz estava com eles mas como representante hétero foi poupado. Sentiu a homofobia daí? Pois é. Tá achando pesado? Vai piorar.

Ângelo e Serginho

O pai da família é o único que não participa de nenhuma cena de sexo e também não sabe, ou finge não saber, do que acontece entre os outros membros da família. Porém ele tem um segredo: é pedófilo. O que é tratado da pior maneira possível. Revelado quase como uma piada, com direito a música lenta horrorosa que faz parte da trilha sonora e que intensifica em qualquer cena “romântica”. Também fazem uma breve menção onde aludem a equiparar pedofilia com homossexualidade. Tudo isso acontece porque Ângelo encontra o garotinho saindo do quarto do patrão, ele então que chantageia Luccini pra manter seu segredo. Mas em nenhum momento existe uma condenação ou mesmo uma mudança de tom na cena.

Outra cena com um tom esquisito, pra dizer o mínimo, é a que inclui o cineasta e ativista Zózimo Bulbul. Ele é o único personagem negro que aparece durante o filme. É apresentado como amigo de Serginho na casa do mesmo onde se encontram Ângelo e Gisele para uma festa. Corta então para ele sendo açoitado por Gisele enquanto está amarrado. Ela ainda brinca de bater em outros personagens, mas não por tanto tempo nem tão intensamente como com ele, fora os gritos de “Ele gosta” ao fundo ditos por outro personagem. A forma como a cena foi construída somando ao fato que é a única na qual temos Zóio fora a que ele foi introduzido, é bem estranha.

No final a família se separa e cada um vai viver sua vida. Em pequenos flashes vemos o destino de cada personagem. Haydée e Luccini se separam, ela aparece em uma mesa usando drogas com outras duas pessoas, ele na cama com um jovem. Serginho vestido como uma passista de escola de samba, Ângelo com uma mulher mais velha, e Gisele na praia com uma garota. O mesmo anúncio do começo do filme reaparece aludido a decadência da sociedade e depois uma imagem da bomba atômica.

Haydée e Giselle

Ao mesmo tempo que o filme parece um bom exemplo do gênero e da época, pelo menos pelo meu conhecimento superficial dele, alguns pontos parecem assustadoramente atuais. Como o discurso contido no anúncio do começo do filme. Ao mesmo tempo que a obra explora a expressão sexual dos personagens a condena como sinal do fim dos tempos. É o típico conservadorismo brasileiro em sua mais simples forma: explorando as minorias ao mesmo tempo que as pune.

Foi uma experiência e tanto e entendo porque até hoje existem tantos materiais refletindo sobre esse gênero enigmático da cultural brasileira. Deixo aí alguns materiais que acho que podem complementar a discussão:

‘Histórias Que o Nosso Cinema (Não) Contava’ repassa os anos da Ditadura Militar utilizando trechos das pornochanchadas da época: https://www.vice.com/pt_br/article/pgm737/historias-que-nosso-cinema-nao-contava

Fernanda Maria

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https://www.instagram.com/notasexpressas/

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